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Desaba junto ou vai embora: o que fazer quando o país desmorona?

A Odisseia de Hakim - Reprodução
A Odisseia de Hakim Imagem: Reprodução
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

09/06/2020 09h12

Jéssica Balbino, amiga e colega jornalista, desabafou no Twitter: não aguento mais essa história de não aguentar mais. Exceto os que confiam mais na tia do WhatsApp do que nas milhares de notícias e análises desesperadoras, difícil encontrar quem não esteja na mesma condição. O Brasil é um trem acelerando rumo ao abismo. Por mais que 70% dos passageiros gritem para mudar esse rumo, o maquinista tresloucado e sua trupe seguem firme no caminho macabro. E fazem isso dando risada, tirando um barato da cara de todo mundo.

"A Odisseia de Hakim" chegou implorando para ser lido. Gosto do trabalho de Fabien Toulmé. "Não Era Você que Eu Esperava" é uma HQ honesta e necessária sobre um pai com dificuldades para aceitar a filha com síndrome de down, uma espécie de "O Filho Eterno" dos quadrinhos. "Duas Vidas" é uma leitura agradável, apesar do tom de autoajuda. Já o novo trabalho do francês me pegou logo pela citação da contracapa: "Nunca pensei que isso pudesse me acontecer. Mas me dei conta de que qualquer um pode virar um 'refugiado'. Basta que seu país desmorone. E aí, ou você desmorona junto, ou vai embora".

Hakim, o protagonista do título que sai pela Nemo em tradução de Fernando Scheibe, tinha uma vida bem encaminhada. Morava com os pais num bairro agradável de Alepo e realizava o sonho de ser jardineiro. Com a grana levantada vendendo flores, havia comprado um bom carro e o próprio apartamento, que começara a mobiliar. Entretanto, a partir de 2011 a Síria se tornou um dos territórios mais perigosos do mundo, um dos piores lugares para se viver (ou tentar sobreviver).

O jardineiro acompanhou a escalada de violência e acabou como vítima de Bashar al-Assad, herdeiro da família responsável por manter o povo sírio sob ditadura desde os anos 70. Para coibir manifestações que pegaram carona na Primavera Árabe e clamavam por liberdade, o governo perseguia, prendia, torturava e matava quem se opunha (ou quem aparentasse se opor) ao ditador. Hakim foi detido, espancado e encarcerado, seu irmão sumiu. O país mergulhava numa guerra civil. Então, a família se juntou e decidiu: o jovem apaixonado por flores seria o escolhido para receber parte das economias e tentar a vida em outro canto. Quando seu país desmorona...

Hoje Hakim vive na França, onde conheceu Fabien. O quadrinista narra a história do sírio com idas e vindas no tempo, intercalando cenas das entrevistas que fez para colher os depoimentos com longos flashbacks que levam o leitor à saga do refugiado. Nesse primeiro volume de uma trilogia, acompanhamos Hakim durante o degringolar de sua terra natal e nas tentativas de se arrumar no Líbano, na Jordânia e na Turquia. Os outros títulos da série, com os deslocamentos da Turquia à Grécia e da Macedônia à França, deverão sair por aqui até o final do ano e no primeiro semestre de 2021, respectivamente.

A Odisseia de Hakim - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução
Ou você vai embora

Apesar dos tons variarem, histórias de refugiados são sempre dramáticas. Muito se perde quando, numa situação dessas, alguém deixa seu país para arriscar a sorte em outro canto. Hakim deixou para trás sua família, seus amigos, seu carro novo, seu apartamento recém-comprado, seu negócio promissor... Orgulhava-se muito do que tinha construído e precisou abandonar; se a ruína dos bens e dos negócios era inevitável, restava tentar dar um jeito na vida em si, privilégio para poucos.

Hakim tinha algum dinheiro e colegas nos países para onde rumou. Apesar disso, não conseguiu se achar em canto algum. Pingou por subempregos e notou como os sírios passaram a ser mal vistos pelos seus vizinhos. Desprezavam o que ele tinha sido outrora. Com o tempo, viu as economias evaporarem. Desnorteado, só sabia que voltar para casa, onde milícias armadas barbarizavam nas ruas, mortos eram largados em esquinas e bombardeios destruíam bairros inteiros, não era uma opção. Quando um país desmorona, ele deixa de ser um lar.

"A Odisseia de Hakim" não soa tão pungente quanto poderia ser em determinados momentos. Talvez isso se dê pelo traço e pelas cores de Fabien. Há algo de ingênuo em seu estilo, o que não contribui muito para a dramaticidade. Neste primeiro volume da trilogia, temos uma HQ menos apelativa do que outros relatos de refugiados. É uma sobriedade ajuda na reflexão da história como um todo. E quando um país desmorona...

Deveríamos prestar mais atenção nesse tipo de relato. Não dá mais para não aguentar mais. O trem segue desgovernando com o maquinista tresloucado e sua trupe dando risada, tirando sarro da cara de todo mundo. Só que o resto do mundo já sacou e as fronteiras estão fechadas para quem se tornou uma bomba de Covid-19. Hoje, nem a opção de tentar a vida em outro canto existe para os brasileiros. Contudo, ainda há (pouco) tempo para tentarmos algo. Ou damos um jeito de mudar esse rumo ou todo mundo vai desmoronar junto.

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