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Camões pode esperar: Dia de Portugal e o racismo em xeque no país

Djaimilia Pereira de Almeida. - Divulgação.
Djaimilia Pereira de Almeida. Imagem: Divulgação.
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

10/06/2020 09h05

Ouço com atenção o episódio desta segunda de "Modo Geral", podcast comandado por um time de peso comprometido com as palavras: Paulo Scott, Andréa Del Fuego, João Paulo Cuenca e Mauro Dahmer. Escuto a portuguesa Alexandra Lucas Coelho, autora de "Deus-dará", uma das convidadas da vez, falar sobre como os atos antirracistas tomaram as ruas de Lisboa. Parece que parte substancial dos portugueses se levanta contra a estupidez, enfim.

A história do racismo e a história de Portugal se misturam. Estive há poucos meses em Belmonte, no pé da Serra da Estrela. A pequena cidade se orgulha de ser a terra natal de Pedro Álvares Cabral. A estátua do navegador está a poucas quadras do Museu dos Descobrimentos. A forma como o museu constrói a narrativa sobre a escravidão chega a doer. O discurso segue a linha do "escravizamos porque fazia parte do jogo, e daí? Tó aqui as planilhas, olha como era justificável sequestrar negros na África e vendê-los na América. Não fosse isso, nossa economia estaria ferrada". Sempre a economia. Não há pedidos de desculpas, não há peso na consciência, não há remorso, não há reconhecimento do crime histórico que durou séculos, nada disso.

Hoje é Dia de Portugal, data escolhida porque Camões teria morrido nesse mesmo 10 de junho, em 1580. O autor de "Os Lusíadas" retratou em seus versos a faceta heroica do país, com corajosos compatriotas que desbravam mares para alcançar terras inóspitas. Até hoje os portugueses parecem sentir saudades daquele curto espaço de tempo em que foram uma das principais potências do planeta. Isso passou faz uns 500 anos, mas ainda não superaram a decadência. Se algum país precisa fazer terapia, esse país é Portugal.

E Camões passa bem. Visitei seu túmulo no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa. Segue em paz. De alguma forma, você já conhece Camões. Sabe, pelo menos, das apropriações feitas por Renato Russo: "O amor é fogo que arde sem se ver...". E se até hoje não leu "Os Lusíadas", não tem problema. Sem pressa.

É representativo e não é por acaso. Parte das obras contemporâneas de maior repercussão em Portugal possuem algo em comum: "Caderno de Memórias Coloniais", de Isabela Figueiredo, "Luanda, Lisboa, Paraíso", de Djaimilia Pereira de Almeida, "Memórias da Plantação", de Grada Kilomba... Todas tratam das atrocidades coloniais e do racismo. São olhares que mereciam espaço no Museu dos Descobrimentos.

Camões pode esperar. Há autores mais urgentes para lermos, as ruas indicam isso.

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