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Ícone da literatura erótica e voz do desejo feminino: conheça Olga Savary

Olga Savary. - Divulgação.
Olga Savary. Imagem: Divulgação.
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

20/05/2020 09h13

Olga Savary morreu na última sexta-feira, aos 86 anos. Vai-se mais um nome importante de nossas letras. Sua passagem, porém, repercutiu bem menos do que a de escritores como Sérgio Sant'Anna, Rubem Fonseca e Luis Alfredo Garcia-Roza. Olga andava mesmo um tanto esquecida. Uma pena; sua trajetória é admirável.

Savary é apontada como a primeira escritora brasileira a lançar um volume reunindo apenas poemas eróticos. Publicado em 1982, "Magma" trazia versos como "Mar é um macho como não há nenhum/ Mar é um macho como não há igual - e eu toda água". Junto com a sacanagem, a poesia mostrava uma autora que se rebelava contra a repressão às mulheres e, principalmente, aos desejos sexuais das mulheres. "Sou um ser erótico. Gosto disso. Uma vez me perguntaram se eu escrevia poesia erótica por ser ninfomaníaca. Claro que não! Quando o poeta fala em erotismo, fala porque não teve na dose que precisava. É mais falta do que excesso", disse Olga numa entrevista à revista Marie Claire em 2011.

O papo, diga-se, é ótimo. Nele, a escritora também recorda de quando passou um tempo na casa da amiga Hilda Hilst, outro nome incontornável na nossa literatura sacana. Certo dia, o marido da autora de "O Caderno Rosa de Lori Lamby" propôs irem, os três, juntos a um prostíbulo. "Eu nunca tinha ido, mas morria de vontade de conhecer. Pura besteira: não tem a menor graça. É só uma casa, com música, gente que dança e mulheres vistosas que, de repente, desaparecem com os clientes", decepcionou-se Olga.

Contudo, a obra da escritora é muito mais do que "Magma" e erotismo. De cara, com o trabalho de estreia, "Espelho Provisório", levou o Jabuti de 1971 como autora revelação. Admiradora de Carlos Drummond de Andrade e fã confessa de T. S. Eliot, ao longo da carreira seus vinte livros lhe renderam dezenas de outros prêmios, como o APCA de 1977 por "Sumidouro". Dizia-se apaixonada por um "malandro" chamado Literatura. "A literatura, essa paixão que me suga, esse vampiro chamado poesia, consome toda minha energia. Leio e escrevo tanto que não tenho tempo de ir a oculista, ginecologista, dentista...", disse na já mencionada entrevista.

Olga ainda se destacou como jornalista (participou da fundação do Pasquim) e tradutora. Coube a ela passar para o português obras de gigantes como Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Octavio Paz, Pablo Neruda e Federico García Lorca. Também assinou uma problemática tradução de Mario Vargas Llosa publicada em 1977. Problemática não pelo seu trabalho, mas pela opção da editora Francisco Alves pelo título "Conversas na Catedral", não "Conversas no Catedral". Conforme Olga defendeu, a segunda opção seria mais apropriada; Catedral, no caso do romance de Llosa, é um boteco, não uma igrejona.

Deixo aqui um poema de Olga, na qual ela volta ao mar para escrever sobre o desejo:

Mar I

Para ti queria estar sempre
vestida de branco como convém
a deuses tendo na boca o
esperma de tua brava espuma.

Violenta ou lentamente o mar
no seu vai-e-vem pulsante
ordena vagas me lamberem
coxas, seu arremesso me
cravando uma adaga roxa.

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