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Carta ao leitor desconhecido em busca de novidades

Blue Girl Reading - August Macke
Blue Girl Reading Imagem: August Macke
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

15/05/2020 09h00

Caro leitor desconhecido, como andam as coisas? Espero que esteja bem, apesar de tudo. Por aqui, sigo tocando a vida da forma que é possível. Engraçado como as coisas mais corriqueiras ficam confusas nesses tempos. Minhas leituras, por exemplo. Estão uma bagunça danada. Tem dias que leio como se fosse esgotar toda a biblioteca; em outros, não consigo passar de algumas páginas.

Pelo menos tenho lido uns negócios interessantes. Já ouviu falar da Andrea Jeftanovic, meu amigo? É uma boa contista chilena, viu. Um livro dela acabou de sair por aqui pela Mudaréu, com tradução do Luis Reyes Gil. Chama "Não Aceite Caramelos de Estranhos". São onze contos, alguns com uma potência bastante perturbadora. É interessante como a Jeftanovic consegue retratar o horror e as intimidades mais indizíveis que podem existir dentro de uma casa.

Há o sexo que você tanto gosta no "Não Aceite Caramelos de Estranhos", mas isso lhe causará espanto e incômodo, pode apostar. Em alguns momentos o livro da Jeftanovic perde um pouco a pegada, é verdade, mas nada que uma pausa para um café não resolva. Daí também aproveito para pensar em histórias como "A Necessidade de Ser Filho" e essa mania que temos de querer dar um jeito no mundo sem sequer darmos conta do que fazemos em nossas próprias vidas.

Ainda na praia dos contistas, caro leitor desconhecido, escrever que o Marcelo Moutinho lançou mais um bom livro já está virando clichê. Se o "Rua de Dentro" é tão bom quanto o "Ferrugem"? Não sei. Tenho a impressão de que alguns contos desse novo poderiam ser trabalhados com mais calma, indo mais a fundo em certos pontos da história. Se por acaso estiver com o livro por perto, leia "Oxê" e me diga: não ficou com vontade de ver essa história mergulhar na homofobia que há no futebol?

Por falar nisso, repare na maravilha que é o "Purpurina", meu amigo. Conto exemplar, que estará na antologia do Moutinho quando ele foi bem velho, ali junto com o "Xodó". Coincidência que são histórias que inauguram seus livros? Certamente não, só não sei se acertar na ordem é mais um mérito do escritor ou uma boa sacada de alguém lá da Record. Nesses dias em que ando vendo tão pouca gente, é ótimo trombar nos livros do Moutinho o com o povo dito comum que encontrava até outro dia nas ruas aqui do bairro. Sei que é, mais uma vez, dizer o que todos dizem, mas faz parte: ele entende dessa coisa de imaginar histórias com o pessoal da padaria, do prédio do lado, das esquinas... E com crianças. Como esse carioca trata bem os pequenos que cria, camarada.

Dos livros que se empilhavam aqui na mesa até que eu tomasse vergonha na cara para enfim te escrever essa carta, leitor desconhecido, o mais antigo é o "Avenida Molotov", que saiu no final de 2018 pela Quelônio. É uma estreia digna de um tal de Pedro Guerra. De cara, torci um pouco o nariz por ser mais uma história com homem quase arruinado de classe média que mora entre os rios de São Paulo e vive no boteco. O começo é Reinaldo Moraes, porém a coisa descamba para um caminho surpreendente. Para a batalha campal urbana que foi aquele julho de 2013. As cenas dele são boas. Você lembra daqueles protestos? Milhões nas ruas, briga pra tudo que é lado, gente pedindo o fim dos partidos... Tanta coisa rolou desde então...

Amigo, me diga, não é simbólico que um dos poucos escritores a levarem aquele momento para a literatura assine como Guerra? Ironias da arte. Só que um ponto me incomodou. O Pedro mete alguns comentários de internet no meio da história, e tudo bem. Só que esses comentários são bem escritos, limpinhos, respeitosos, nada a ver com o lodaçal que conheço tão bem. Fosse editor, sugeriria para ele retrabalhar isso (ah, e também pediria para evitar a palavra desjejum, que parece coisa de tradução mal feita).

Divulgação
Imagem: Divulgação

Ando lendo muita literatura da América Latina, meu leitor de tantas faces. Quando a Todavia lançou o Pedro Mairal por aqui, muita gente elogiou. O argentino chegou como mais um daqueles autores aparentemente incontornáveis. Papo de mercado em que alguns acabam caindo. Li "A Uruguaia" e achei um livro razoável. Divertido, sem dúvidas, mas que em certos momentos subestima a inteligência do leitor.

Gostei mais do que publicaram há poucos meses, o "Uma Noite com Sabrina Love", traduzido pela Livia Deorsola. Esse romance foi o livro de estreia do Pedro, fez com que ele ganhasse um prêmio importante, o que acabou catapultando a carreira. É mais uma história gostosa de se ler: um jovem do interior tarado por pornografia ganha um sorteio para passar uma noite com a maior estrela da sacanagem argentina. Só que, para isso, o cara precisa dar um jeito de chegar a Buenos Aires e viver uns dias na cidade. Bem, não é difícil de imaginar que nosso onanista sofre horrores para ir até a capital e para conseguir entender como funciona a vida por portenha. É daqueles personagens que logo criamos simpatia, o que ajuda pra caramba a seguirmos adiante com certos livros, você não acha?

É isso, caro leitor desconhecido. Seguirei aqui com minhas leituras e voltarei a te escrever quando a pilha de boas sugestões se avolumar ao meu lado.

Espero que você siga bem.

Me escreva também, por favor. É sempre uma alegria receber suas palavras.

Com um abraço,

RC

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