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Ler os contos de Sérgio Sant'Anna sobre futebol é como ver Messi jogar

O escritor carioca Sérgio Sant"Anna, - WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO/AE/
O escritor carioca Sérgio Sant'Anna, Imagem: WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO/AE/
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

10/05/2020 12h56

Quando entrevistei Sérgio Sant'Anna durante a Flip de 2018, falamos mais de futebol do que de literatura. O escritor elogiou as seleções da França e da Bélgica, que tinham se enfrentado semanas antes, na semifinal da Copa da Rússia. Também enalteceu Mbappé e cornetou Neymar e a seleção brasileira. Queixou-se ainda do Fluminense, forte influência nas mudanças de seu humor.

Sérgio Sant'Anna morreu hoje, outra vítima dessa "gripezinha" que já levou mais de 10 mil brasileiros. Exímio contista, deixou uma obra que permite múltiplos recortes. Certa vez, alguém disse que não há grande literatura sobre futebol escrita neste país. Pode até existir alguma verdade quando máximas do tipo são paridas, mas repeti-las abobadamente ao longo do tempo sem confrontar a ideia com os novos fatos, com o andar da própria literatura, é um erro grave. A prova de que temos sim grandes histórias sobre o mundo da bola em nossas letras está em Sérgio Sant'Anna. É esse o meu recorte favorito de sua produção.

O esporte pontua alguns dos contos de seu último livro, "Anjo Noturno", de 2017, no qual personagens lembram de peladas da infância e comemoram amizades que também valorizam o jogo, algo raro em certas bolhas de intelectuais. Se olharmos para o começo da carreira de Sérgio, também encontramos homens de chuteira. Em "Notas de Manfredo Rangel, Repórter", de 1973, imaginou um goleiro que se observa pela televisão no conto "No Último Minuto", um dos mais lembrados pelos leitores. "Eu fui, que eu saiba, o primeiro cara a descobrir que o futebol era uma coisa diferente, que era um fenômeno midiático", disse em entrevista para a Folha em 1997. Já em "Na Boca do Túnel", do livro "O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro", de 1983, o olhar do artista se volta para um treinador em decadência à procura de algum norte.

Das histórias da bola contadas por Sérgio, a novela "Páginas Sem Glória", que dá nome ao livro lançado em 2012, ronda com frequência minha cabeça. Nela somos apresentados a Conde, craque de peladas que ganha uma chance de virar jogador profissional pelo Fluminense. É daqueles caras que sabem absolutamente tudo de futebol, que compreendem o jogo de forma transcendental, extrapolando o pragmatismo de quem se limita ao placar de uma partida. Mas resultados importam e a carreira de Conde não toma o rumo que todos esperam. Num momento crucial da narrativa, quando a trave frustra mais uma de suas ousadias, o jogador se justifica: "Pensei na beleza e na graça do lance. Não é para isso que as pessoas vão ao futebol?".

Ler o que Sérgio Sant'Anna escreveu sobre o esporte é como assistir a Lionel Messi em campo: a genialidade desfila e a qualquer momento uma grande sacada, um passe improvável ou um drible no zagueiro-leitor pode nos surpreender, pode nos maravilhar. E Sérgio seguiu ativo até seus últimos dias de vida. Quem o seguia no Facebook (onde manifestava sua indignação contra o atual governo e sua base de apoio), podia ser presenteado com algo inédito a qualquer momento. Com urgência para ver seus textos chegarem aos leitores, publicou os últimos contos na Folha e na Época.

Em "A Dama de Branco", que saiu na revista no dia 2 deste mês, apresenta um narrador confinado em seu apartamento por conta da pandemia de coronavírus. Da janela, de madrugada, enquanto todos dormem, o homem contempla uma misteriosa dama de branco que circula pelo estacionamento. Em meio às fantasias que cria, também reflete sobre a finitude e a respeito de dimensões que eventualmente existam. "Penso que, se houver um Deus, Ele não é bom, como dizem, mas indiferente à sorte humana, isso se houver um pensamento de Deus".

O tom melancólico, de despedida, de "A Dama de Branco" também está presente em "Das Memórias de Uma Trave de Futebol em 1955", publicado na Folha de São Paulo no dia 26 de abril, no qual volta ao esporte que tão bem retratou em palavras. Aqui, numa escolha que comprova como o escritor permaneceu inventivo até o final da carreira, acompanhamos um treino do Fluminense pela perspectiva de uma trave velha. Prestes a ser retirada do campo, a meta comemora a proximidade com Castilho, "o maior goleiro do Brasil", e lembra de lances de jogadores como Didi e Telê.

"Já começam a falar do espetáculo principal de domingo, o Fla-Flu. Como eu gostaria de estar lá para participar ou ver. Mas, pior do que isso, é que em breve meu tempo terá passado", lamenta a trave. Evito leituras fatalistas, mas é impossível chegar ao final do conto e não pensar nos últimos dias do próprio Sérgio: "A noite logo vai cair. A noite também é bonita, mas seria muito mais se fosse dia de jogo, o estádio iluminado. Mas não. Para mim, em breve, será só escuridão".

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