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O futebol possível contra a abstinência de futebol de verdade

Cena de The English Game, série da Netflix. - Divulgação.
Cena de The English Game, série da Netflix. Imagem: Divulgação.
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

13/05/2020 09h18

A morte de Sérgio Sant'Anna no último domingo me fez antecipar um ponto desta coluna. Na reverência ao mestre, escrevi que ele era a prova de que aquele papo de não termos boa literatura sobre o futebol é furado. Sim, Sérgio é uma ótima prova, mas agora me complemento: está longe de ser a única.

É do xará de Sant'Anna, Sérgio Rodrigues, um título incontornável nesse campo: "O Drible" (Companhia das Letras). Impressiona como nomes e sobrenomes se repetem nessa escalação, pois na sequência vem Nelson Rodrigues com suas crônicas eternas sobre o esporte e Mário Rodrigues, de "A Cobrança" (Record), romance que vasculha a formação do caráter de recentes gerações de brasileiros.

Tenho assistido a algumas dessas muitas reprises de partidas históricas. Sigo com o sorriso bobo ao ver Mineiro, feito centroavante, deslocar o goleiro do Liverpool; também continuo tendo indícios de depressão ao trombar com aquele Cruzeiro X São Paulo de 2000, quando um recuo medonho do Axel descambou na maior tragédia futebolística da vida. Mas não me basta. Futebol de verdade, ao vivo, com torcida e presepadas inéditas, faz falta, muita falta.

Tento suprimir a ausência de caneladas com a arte, especialmente a literatura. De campeonato rolando, pelo menos temos o 1º Torneio de Contos Mario Benedetti, boa sacada do pessoal do Puntero Izquierdo, que colocou uma série de breves e inéditas narrativas ludopédicas para competir. Vale a diversão.

Seguindo a escalação de craques que tratam bem a bola com suas letras, temos as crônicas de Xico Sá, que substituem a mesa do bar, os resgates históricos de Luiz Antonio Simas, que em "Ode a Mauro Shampoo e Outras Histórias da Várzea" (Mórula) mostra o verdadeiro espírito do futebol, e os contos de Marcelo Moutinho - com uma licença poética, em "Domingo no Maracanã", do livro "Ferrugem" (Record), Axel jamais cometeria aquele recuo para Rogério Pinheiro.

Arthur Dapieve com sua novela "Maracanazo" (Alfaguara) também entra no time que tem jogado aqui no apartamento. E quem está trocando passes comigo há algum tempo é o hermano Eduardo Sacheri, grande torcedor do Independiente, autor de "La Pregunta de Sus Ojos", que deu origem ao último longa argentino a vencer o Oscar de filme estrangeiro. Dos escritos boleiros reunidos em "Esperándolo a Tito", destaque para a devoção a Maradona feita em "Me Van a Tener que Disculpar". Dieguito merece mesmo ser medido com régua exclusiva.

A epígrafe do livro de Sacheri, aliás, é ótima: "Há quem garanta que o futebol não tem nada a ver com a vida do homem, com suas coisas mais essenciais. Desconheço quanto essa gente sabe da vida. Mas estou certo de algo: não sabem nada de futebol".

Mudando de cancha, tirei o último final de semana para assistir ao "The English Game", série da Netflix sobre a transição do futebol de amador para profissional. Há um quê de Dickens na ambientação e no conflito de classes que conduz toda a história. Alguns personagens principais são interessantes, enquanto os secundários são caricatos. No campo, segue a dificuldade se encenar uma partida; os movimentos são tão toscos quanto os goleiros, que só vão fazer uma defesa lá pelo quarto episódio. Apesar de tudo, a coisa anda com certa graça, com direito a porradaria digna de hooligans do século 19. É uma farofada em seis capítulos que serve para entreter, o que já é bastante coisa nesses tempos de bola parada (e não estou falando de um time do Muricy).

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