Topo

Coluna

Chico Barney

Rainha dos baixinhos: Felipe Neto é a nova Xuxa

Divulgação
Imagem: Divulgação
Chico Barney

Chico Barney

Entusiasta e divulgador da cultura muito popular. Escreve sobre os intrigantes fenômenos da TV e da internet desde 2002.

27/11/2017 12h53

Algumas gerações de crianças brasileiras sofreram com a ausência de um interlocutor humano. Desde que Xuxa abdicou do trono de Rainha dos Baixinhos para ralar com os meros mortais em atrações genéricas para a família toda, nossos herdeiros passaram por um verdadeiro hiato emocional.

Vimos a ascensão de excelentes programas criados cientificamente para atingir a psique pouco desenvolvida dos mais novos. Bob Esponja, Peppa Pig, Peixonauta, desenhos animados desenvolvidos com a nobre missão de viciar crianças e obrigar seus pais a investir dinheiro em toda sorte de bugigangas de merchandising. Por mim, tudo bem. Acho importante que os nenéns ajudem a fomentar a economia desde cedo.

Todo esse tedioso preâmbulo para dizer que o Brasil Moleque da Galinha Pintadinha não tinha um band leader há muitas décadas. E sabemos que não somos ninguém se não tivermos a oportunidade de cometer um culto às celebridades em todas as fases de nossas vidas.

Foi nesse vácuo que Felipe Neto aproveitou para reconstruir seu império, agora focado nos jovens infantes. Caso alguém seja alienado o suficiente para não conhecer Felipe Neto, explico rapidamente: trata-se de um pioneiro do YouTube no Brasil, ao lado de outros monstros sagrados como PC Siqueira e, antes deles, Ronald Rios, Sergio Hondjakoff e Daniela Cicarelli.

Felipe ganhou notoriedade quando, ainda um pós-adolescente, começou a fazer vídeos de óculos escuros, em um cenário que mais parecia showroom da Imaginarium, sobre o ódio que sentia de personagens da cultura jovem. Os vídeos sobre Justin Bieber, Saga Crepúsculo e Fiuk marcaram a entrada da internet tupiniquim na era do audiovisual.

Divulgação
Felipe Neto pinta o cabelo de cores diferentes a cada novo milhão no YouTube Imagem: Divulgação

Com o sucesso dos seus desabafos, Neto usou a projeção recém-adquirida para empreender. Montou uma produtora de vídeos para o YouTube, e depois vendeu a empresa em uma negociação à época classificada como nababesca. Ficou um tempo ausente da criação de conteúdo para o YouTube, talvez um pouco confuso sobre qual foco deveria ter a partir daquele momento.

Mas mesmo assim fez barba, cabelo e bigode de qualquer youtuber bem sucedido: lançou livro, entrou em turnê com uma peça de teatro e se meteu em acaloradas discussões por aí. É o pacote básico de qualquer profissional da área.

Depois disso, se reinventou e virou o maior ídolo das crianças. Junto com seu carismático irmão, Lucas Neto, tem contrariado expectativas e superado possibilidades. Além de fazerem muito sucesso em seus canais particulares, ainda montaram um terceiro canal juntos. Para marcar a nova fase, comprou uma mansão que virou PR Stunt e serve de base para a produção e gravação dos vídeos.

Irmãos Coragem

Lucas virou uma espécie de referência para a intelligentsia do universo youtuber por conta de sua predileção ao exagero. Fez barulho o episódio em que enchia uma banheira de Nutella e depois banhava-se com o adocicado creme de avelãs.

Reprodução
O campeão da Nutella Imagem: Reprodução

O caso virou símbolo de uma suposta imbecilização do conteúdo publicado na plataforma de vídeos. Confesso que só consigo ver um jovem carismático e muito criativo buscando formas dadaístas de entreter uma audiência sedenta por esse tipo de conteúdo. A grande beleza do YouTube é justamente permitir que exista uma variedade de visões e abordagens absolutamente inédita na história da humanidade.

Felipe e Lucas fazem um conteúdo abrangente, de fácil compreensão e evidentemente miram em um público mais pueril, que se diverte sem muitos pudores com esse tipo de bobagem. Basta lembrar a curiosa oportunidade em que Lucas lotou um shopping no Rio de Janeiro e fez milhares de crianças imitarem uma foca ao mesmo tempo. Só muita dor de cotovelo para não concordar que isso é relevante e tem importância.

Rei da nova mídia

Os anglo-saxões tem um termo chamado media mogul para definir cidadãos de notório poder e influência no mundo do entretenimento. Costumam ser donos de grandes empresas de comunicação e milionários excêntricos. Felipe Neto é uma nova espécie de media mogul, o media mogul millennial.

Suas iniciativas para além dos canais no YouTube são muito interessantes. Visando ter mais controle sobre a própria base de fãs, lançou recentemente um aplicativo próprio para que os entusiastas possam ver vídeos exclusivos, além de gerar receita sem necessidade de pagar o pedágio ao Google. Na semana passada, causou rebuliço a decisão de patrocinar o Botafogo, seu time do coração.

Divulgação
Os Irmãos Neto também são proprietários de uma franquia de coxinhas Imagem: Divulgação

Felipe Neto é uma figura que desperta os sentimentos mais primitivos em boa parte da sociedade civil. Com a adoração dos fãs ou o cinismo dos detratores, fato é que ninguém passa incólume ao seu longevo e bem-sucedido trabalho.

Trata-se de uma experiência bastante enriquecedora acompanhar sua capacidade de adaptação. Alguns consideram suas atitudes petulantes, mas o enfant terrible dos vídeos para internet segue encantando a criançada e fazendo a economia girar.

Voltamos a qualquer momento com novas informações.

 

Facebook Messenger

Receba as principais notícias do dia. É de graça!