As telas de Vera Fischer

Atriz fala sobre a carreira no cinema, das pornochanchadas dos anos 70 ao mal-estar no filme da Xuxa

Carlos Minuano Colaboração para o UOL, em Vitória
Marlene Bergamo/Folhapress

Afastada do cinema há quase duas décadas, Vera Fischer se prepara para voltar a um set de filmagem. No longa Quase Alguém, a atriz vai interpretar uma escritora em crise que decide passar a limpo décadas de atritos familiares e conflitos existenciais. Na vida real, prestes a completar 68 anos, o momento também é de revisão na vida da atriz catarinense.

Além do longa, que começa a filmar no primeiro semestre de 2020, Vera Fischer já tem na agenda o regresso aos palcos com duas peças teatrais, uma exposição de pinturas e avalia até uma possível estreia como cantora.

"Não sou atriz, sou artista", afirma em entrevista ao UOL. No papo, ela também falou sobre o atual momento na carreira, a experiência na pornochanchada, a convivência com Xuxa no set de filmagem e a situação do cinema nacional.

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Uma miss Brasil na pornochanchada

As portas da sétima arte se abriram depois de Vera Fischer vencer o concurso de Miss Brasil em 1969, há exatos 50 anos. Rapidamente ela se tornou atriz e símbolo sexual, brilhando nas comédias eróticas que foram muito populares na época.

Durante o período tenebroso de censura que o país atravessava, filmes do gênero foram produzidos às pencas. "Eram engraçados, caretinhas, a nudez era pudica, mas ainda assim sofreram muitos cortes", relembra. Censurados ou não, longas como Superfêmea (1973) e As Delicias da Vida (1974) fizeram a alegria de muito marmanjo.

No caso de Super Fêmea, dirigido por Aníbal Massaíni, Vera diz que só foi entender o roteiro depois de ver o filme. "É uma grande comédia e bastante inteligente".

O longa conta a história de um cientista que quer criar a pílula da fertilidade.

O diretor explorou inteligentemente o fato de eu ser naquela época bem gostosa. Eu não gostava disso, queria ser magra, morena, modelo, mas era curvilínea. Aproveitaram isso me pondo de biquíni em muitas cenas, correndo para todos os lados, e isso num frio de julho quando gravamos.

No final do filme, apesar de muitas cenas sensuais, ela aparece de camisola em um caminhão com 100 bebês (de brinquedo), mostrando que a experiência do cientista deu certo: ela tinha se transformado numa super fêmea. A cena foi gravada na avenida Ipiranga, também na capital paulista. "Foi muito divertido, todo mundo achava que ia ver a super gostosa, mas o que aparecia no final era a super genitora".

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Durante muito tempo fui tratada apenas como um corpo.

Vera Fischer

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Polêmica com Xuxa

Com cenas de sexo, o premiado drama Amor Estranho Amor (de 1982, dirigido por Walter Hugo Khouri) obviamente também teve cortes impostos pela censura. Mas a maior polêmica em torno do filme foi por causa de uma cena em que Xuxa, ainda com 17 anos, aparece nua seduzindo um menino de 12 anos.

A apresentadora conseguiu na Justiça em 1991 impedir a comercialização do longa. "Essa proibição foi um desrespeito a todos que trabalharam no filme", reclama Vera Fischer.

Apesar do imbróglio em torno de Amor Estranho Amor, a última aparição de Vera nas telonas foi em outro filme da rainha dos baixinhos: Xuxa e os Duendes 2 - No Caminho das Fadas, de 2002. Ela fez uma participação rápida, como a rainha das fadas, de cabelos brancos, lentes leitosas e pele morena, quase irreconhecível. E a experiência não foi nada boa.

"Eu estava fazendo a novela Laços de Família, o diretor era o Rogério Gomes, que também estava dirigindo o filme da Xuxa, e insistiu para que eu fizesse uma participação, disse que seria um ou dois dias apenas e eu estava num sítio perto de onde aconteciam as filmagens", conta.

Eu estava super queimada de sol, marrom, e perguntei como poderia fazer uma fada, mas ele disse que tudo bem, insistiu, eu topei e fui. A Xuxa nem olhou na minha cara. Tive que usar aquelas orelhas de elfo, peruca e lente branca. Quando me olhei tomei um susto, parecia o monstro das trevas.

"Fiquei horrorizada com o jeito que a Xuxa tratava os atores, dando ordens o tempo todo, 'faz isso, faz aquilo'. Eu até perguntei para o Rogério sobre isso, afinal ele era o diretor, mas ele disse que não podia fazer nada porque ela era também a produtora do filme", completa.

Por essas e por outras, Vera prefere dizer que está fora do cinema desde Navalha na Carne, de 1997.

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A volta ao cinema

Sobre o tempo longe das telonas, Vera é sincera. "O cinema tomou outro rumo e não fui mais convidada, a verdade é essa". Em seguida, acrescenta que talvez seja também por não fazer parte das "panelinhas". "Em todas as áreas existem turmas, mas eu sempre fui muito livre e fiquei fora dessas turminhas do cinema", completa Vera. "Tive alguns convites, mas que não acrescentavam nada".

A oportunidade de fazer algo diferente disso foi o que a atraiu no filme Quase Alguém, que terá a direção de Daniel Ghivelder. "Retoma um cinema existencial que pode funcionar aqui, na Suécia, na Alemanha, nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar do mundo".

No entanto, o momento de crise no audiovisual provocada pela paralisação da Ancine no governo do presidente Jair Bolsonaro representa algumas interrogações para a produção do longa. Vera se diz perplexa, não apenas com o cenário árido, mas sobretudo com os ataques do governo contra o setor audiovisual brasileiro.

Mesmo com a vasta experiência cinematográfica em períodos de ditadura e de censura, ela se diz perdida em relação ao cenário político atual. "Não faço ideia do que será do cinema daqui para frente". Mas ela garante que o clima político não vai azedar sua volta às telonas. Um teaser do filme foi exibido no 26° Festival de Cinema de Vitória que aconteceu em setembro, onde a atriz foi homenageada.

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As várias Veras

Se o currículo de Vera no cinema já é grande, na televisão é ainda maior. Desde a estreia na novela Espelho Mágico em 1977 até hoje são mais de quatro décadas na TV Globo. "Fui contratada quando eu tinha 26 anos e nunca mais sai".

Em abril deste ano, a atriz renovou contrato com a emissora, após a participação em Espelho da Vida. Mas faz mistério sobre um próximo trabalho. "São imprevisíveis, chamam quando querem, pode ser que no meio da filmagem do longa me escalem para uma novela", comenta.

Se na televisão a atriz segue sem previsão de regresso, no teatro ela promete voltar a dar o ar da graça em breve. E em dose dupla. "Estou com dois projetos com o diretor Jorge Farjalla (o mesmo de O Mistério de Irma Vap). Um deles já está viabilizado e começamos a ensaiar no início de 2020".

Vera conta também que pinta compulsivamente e que pretende expor suas telas ainda esse ano. "Tenho mais de 200 pinturas guardadas em meu sítio no Rio".

As pinturas da atriz, em geral, seguem um tema comum: o rosto feminino retratado de maneira fashion, misturado com influências diversas. "Completo os desenhos com referências que tenho em minha memória, de Picasso, Miró, Dalí, e outros pintores".

Outra possibilidade para o futuro é a publicação de novos livros. Depois de dois autobiográficos, Pequena Moisi e Um Leão por Dia, e o romance Serena, Vera pensa em lançar novos romances. "Tenho dez textos prontos para serem lançados".

Há pouco tempo na internet ela anunciou outra novidade. Está fazendo aulas de canto e não descarta a possibilidade de se apresentar. "No palco? Em alguma casa noturna? Posso cantar em vários idiomas para plateias pequenas... Quem sabe, pode dar certo, não? Se não tentar nunca vou saber".

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