A luz depois da escuridão

John Kani, dublador de Rafiki em O Rei Leão, guarda um passado de luta na África

Rodolfo Vicentini Do UOL, em Los Angeles*
Adrian Steirn/GettyImage
REUTERS/Mario Anzuoni REUTERS/Mario Anzuoni

O sábio da África do Sul

John Kani é o único africano no elenco de vozes de O Rei Leão, uma história ambientada na savana da África. Com a sabedoria de quem enfrentou muita luta no passado, ele acredita que o novo filme da Disney será importante para valorizar ainda mais a cultura de um continente muitas vezes esquecido.

Sua história de batalhas vem desde os anos de 1960, quando ele entrou para o teatro na África do Sul e virou uma das vozes mais importantes contra o Apartheid, o regime de segregação racial que permaneceu entre 1948 e 1994 no país.

A vida do ator de 75 anos foi impactada diretamente pelo preconceito que perdurou no seu país natal até os anos 90, sendo ameaçado de morte e perdendo um olho em confronto contra as autoridades.

Agora, ele luta para manter o nome da África em Hollywood e, como explica em entrevista ao UOL, enxerga em Rafiki um personagem sábio e que carrega a cultura local.

Reprodução Reprodução

Conselheiro de Simba

Para John Kani, interpretar o sábio Rafiki em O Rei Leão é uma homenagem à história das tradições africanas.

"Rafiki é um daqueles anciões que conhecem a história da tribo. E ele consegue comunicar aos mais jovens os ensinamentos e a sabedoria. Ele sempre fala sobre coisas que as pessoas não devem esquecer", diz ele sobre o personagem que ganhou personalidade mais sóbria e sábia, distante da versão do macaco original, com traços mais cômicos.

Kani vê no macaco que ajuda Mufasa e Simba uma forma de valorizar tradições um tanto esquecidas, principalmente para quem vive na selva de pedra das cidades.

"Quando chega a hora de os pais ensinarem as tradições da família, os filhos já foram embora para comprar carros, casas, ganhar dinheiro, viajar. Os pequenos que são criados em famílias tradicionais têm mais chances de saber lidar com esse mundo tecnológico e que coloniza a mente", declara Kani.

John Kani vê o remake de O Rei Leão como "uma história africana" contada pelo diretor Jon Favreau para mostrar o continente de uma maneira única em Hollywood. "Esse é o poder da interpretação de Jon. Ele está dizendo para celebrar a África de maneira diferente. Não vá a África para ir a um Safari e atirar em um leão, ou porque o chifre dos rinocerontes é afrodisíaco."

"Seria ótimo alguém ver O Rei Leão e pensar: 'Nossa, essa é a África que existe na minha cabeça e não aquela que eu vi em Cape Town'", continua Kani.

É por isso às vezes que a África resiste em parte ao desenvolvimento, para não perder o contato com a nossa natureza.

Adrian Steirn/GettyImage Adrian Steirn/GettyImage
Central Press/Getty Images Central Press/Getty Images

Protesto em forma de teatro

Na década de 1970, John Kani ajudou a escrever Sizwe Banzi Is Dead e The Island, peças que foram cultuadas em Londres e em Nova York, e que ajudaram a mostrar a verdadeira faceta do Apartheid.

Ao voltar para a África do Sul, após ter recebido um Tony Awards, o Oscar do teatro norte-americano, pelo seu trabalho em Sizwe Banzi Is Dead, o ator foi preso e jogado em uma solitária por duas semanas.

"Uma peça precisa ter uma ressonância com o presente. E eu fiz questão de tirar todas as mentiras sobre a África nestas obras", declarou o ator.

Mesmo perseguido, ele passou as décadas de 70 e 80 protagonizando e escrevendo peças importantes que ganharam prestígio fora do continente africano. Mas foi só em 1994, com as primeiras eleições democráticas na África do Sul e o apogeu de Nelson Mandela, que ele passou a ser considerado uma "realeza" do teatro local.

Em Hollywood

Papéis de destaque de John Kani no cinema

Reprodução Reprodução

Serafina! O Som da Liberdade (1992)

O filme, que também tem Whoopi Goldberg no elenco, conta a história de uma menina que adquire consciência política após a professora ensiná-la sobre o Apartheid. Kani vive o diretor da escola e também ajuda a protagonista a entender mais sobre o regime da África do Sul.

Reprodução Reprodução

A Sombra e a Escuridão (1996)

Protagonizado por Val Kilmer e Michael Douglas, a produção mostra a jornada de um engenheiro e um caçador tentando proteger uma tribo do Quênia de dois leões famintos. Kani faz uma espécie de porta-voz local, alguém em quem os moradores confiam e que quer ajudar a desenvolver a tribo.

Reprodução Reprodução

Pantera Negra (2018)

Interpretando o rei T'Chaka, o ator transmite sabedorias para o filho T'Challa antes de ser assassinado. Ele é responsável por cuidar de Wakanda, o reino mais rico do mundo que carrega o poderoso elemento Vibranium, material que deu origem ao escudo do Capitão América. No Universo Marvel, Kani ainda apareceu em Capitão América: Guerra Civil.

Reprodução Reprodução

Onze facadas e um olho perdido

John Kani virou uma celebridade no teatro contestador, e mesmo recebendo inúmeras ameaças de morte ele se manteve firme em sua função.

O ator viu metade do teatro ir embora depois que ele beijou uma atriz branca no palco durante a estreia da peça Miss Julie, em 1985. Pela cena, ele recebeu inúmeras ameaças de morte e ainda sofreu uma tentativa de homicídio.

"Eu levei 11 facadas e fui deixado para morrer, porque disseram que eu era um terrorista e não um ator".

Sua família também foi impactada com o preconceito racial do país, conforme ele narra na coleção de ensaios John Kani: Apartheid and Othelo. Seu irmão foi morto por um policial enquanto lia um poema em um protesto realizado em um funeral em 1985. E ainda no mesmo ano, Kani sofreu na pele a violência das autoridades: ele perdeu o olho após ser espancado na rua por policiais -- desde então usa uma prótese.

John Kani foi também o primeiro negro a interpretar Otelo em uma releitura da obra de William Shakespeare na África do Sul. O clima era de tensão no país e os protestos estavam ainda mais violentos. Mesmo sabendo que teria represália, ele fez questão de reunir um elenco formado por atores e atrizes brancos.

"Eu venho do teatro de revolução. Eu quero mobilizar, educar, informar e explorar cada momento que estiver no palco", escreveu o ator.

Reprodução Reprodução

"Ninguém levou a animação O Rei Leão a sério"

John Kani lembra que quando a animação O Rei Leão foi lançada, em 1994, o filme não conversou com os africanos. "Foi como Mickey Mouse, era apenas um desenho, coisa de criança. Ninguém levou a sério naquele contexto. Mas as coisas mudaram quando vimos Mogli - O Menino Lobo".

A proximidade com a realidade fez com que o filme do menino criado por animais, também dirigido por Jon Favreau em 2016, falasse diretamente com a população africana, e situação semelhante será vista no remake de Simba.

"O filme te convida ao reino animal e te faz a coisa mais insignificante dentro desse contexto. Ele coloca você perto de Simba e Mufasa, mas não tão perto porque você pode ser comido por Scar ou atingido por um elefante. Você está cercado por esse mundo tecnológico e maravilhoso, e isso é o que a África vai levar com esse filme."

Kani lembra que Pantera Negra (2018), quando viveu o rei T'Chaka, pai de T'Challa (Chadwick Boseman), conseguiu algo semelhante ao colocar o desenvolvimento tecnológico de Wakanda como uma força para os heróis da Marvel.

Quebra toda a ideia de que a África jamais seria desenvolvida se não fossem os homens brancos. Quando vemos a melhor tecnologia possível de Hollywood contando nossa história, nos dá esperança de que o mundo esteja mais unido.

A participação de Kani em O Rei Leão como Rafiki é uma homenagem a um ator que já fez tanto para seu país e para seu povo. Se o filme celebra a diversidade com um elenco majoritariamente negro e amizades diferentes no enredo, a participação do experiente ator como o animal mais sábio do reino traça um paralelo com a sua jornada de luta e conquistas.

Trailer legendado de O Rei Leão

Curtiu? Compartilhe.

Topo