Rap paz e amor

Emicida deixa a raiva de lado e tem um sonho com seu novo disco: fazer do Brasil um lugar melhor

Leonardo Rodrigues e Ronald Rios
Julia Rodrigues/Divulgação

Rapper mais popular do Brasil, astro de festivais que levou os flows ao Theatro Municipal de São Paulo, Emicida sabe que mudou. O discurso virulento e colérico do passado, moldado no corre das batalhas, ainda vive dentro dele, mas sua palheta musical passa por um contínuo processo de colorização.

O álbum AmarElo, lançado hoje, o primeiro em quatro anos, é um exemplo disso. Emicida expande horizontes cantando melodias, acenando às origens no rap e abrindo-se fortemente à MPB. Entre outras "ousadias", ele subverte a métrica do samba com Zeca Pagodinho e desafia o pop com Pabllo Vittar, além de chamar Fernanda Montenegro para declamar na faixa Ismália.

Dono de grife, gravadora, produtor e empresário, Emicida foi longe demais? Jamais. "Quero ser sincero com o público. Não vou fingir que moro no barraco. Seria constrangedor fazer isso a esta altura do campeonato. Não vou fingir que passo fome. Trabalhei muito. Tenho origem muito pobre", destaca ele ao UOL, sem perder a conexão com a quebrada.

Em letras como Eminência Parda e A Ordem Natural das Coisas, o rapper versa sobre um mundo que parece desmoronar em ódio, violência e racismo, mas sua mensagem final é otimista. Tudo que Emicida quer é falar diretamente com o cidadão comum, construindo pontes, fomentando diálogos, Afinal, o Brasil pode e deve ser um lugar melhor.

Assista à entrevista completa com Emicida no YouTube. Ouça a íntegra da entrevista no podcast UOL Entrevista.

O que é o álbum AmarElo

AmarElo fala de um mundo em decomposição, mas também traz uma mensagem otimista. Dá para dizer que é um disco sobre sonhar?

Acho que é um disco sobre existir. Porque eu falo sobre existir em primeiro plano. A gente se condicionou, durante muito tempo, a uma posição de resistência, mas a resistência pressupõe que você está sendo atacado. E que você está num combate de igual para igual ou, no mínimo, no meio de um confronto em que precisa se impor para existir. Muitas vezes a gente precisa se impor para existir, mas a gente não pode condicionar nossa existência a isso.

Eu não sou o racismo. Eu sou alguém que atravessou o racismo, entende? Em um momento como este, em que as pessoas querem falar sobre diversidade, sobre representatividade, com todas essas hashtag da moda, que também já estão sendo esvaziadas, cooptadas pela publicidade. Vai ficando uma névoa sem emoção, e elas acabam não propondo o que deveriam propor

Minha intenção é que a gente transcenda isso e coloque a existência do ser em primeiro plano. Porque a gente se construiu através de um monte de luta coletiva e não podemos abandonar a visão coletiva das nossas vitórias. É muito importante que a gente se respeite enquanto indivíduo e entenda que as pessoas são mais do que o que as machuca.

Júlia Rodrigues/Divulgação Júlia Rodrigues/Divulgação

Para quem é AmarElo

Em tempos de ódio e guerra cultural, que reação você recomendaria ao fã que ouvirá o disco?

Eu acho que o ódio, como estratégia, falhou. O ódio como estratégia foi que trouxe a gente até aqui. A gente só vai conseguir construir algo se a gente conseguir fazer uma coalizão. Em torno do "sim", em torno de "OK, vamos construir isso". E a gente não está falando sobre construção.

Porque o disco transcende a política panfletária. A política panfletária é um único aspecto da vida. Eu convivo no meio de pessoas para quem é mais desesperador perder um bilhete único do que uma ação, uma canetada do presidente, entende? Ela não consegue fazer essa vinculação.

Eu queria muito fazer um disco para essa pessoa. Para ela abraçar aquelas palavras e se sentir abraçada por elas. Usar calma como uma estratégia para as pessoas fazerem essa reflexão. A partir disso a gente vai se levantar unido. Porque a gente está se desconectando demais.

Muita calma nesta hora

Quando faço este disco eu quero devolver a calma para as pessoas. Mas não a calma de uma forma apática, a calma de uma pessoa mansa, uma pessoa adestrada, domada. Não. O extremo oposto.

Emicida sobre o que espera de AmarElo

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Acervo Pessoal Acervo Pessoal

O rapper pai de família

Em Pequenas Alegrias da Vida Adulta você fala da aventura de ser pai. O quanto a paternidade transformou sua vida?

Completamente. Eu era muito incendiário. Queria que o mundo se fodesse. A paternidade me leva a uma reflexão de que o mundo não sou só eu. Entender que aquelas crianças, não só as minhas, mas todas com quem eu convivo, são incríveis. Isso me dá uma força tremenda para sair para a rua e melhorar o mundo. Para o mundo ficar à altura daquelas crianças.

Essa foi a parada de paternidade que mais mexeu comigo. Fora que me deu certa liberdade, que o nosso conceito de masculinidade tinha roubado. Direito à vulnerabilidade, à fraqueza, a se emocionar.

Como você tenta passar esse tipo de valor para suas filhas no cotidiano?

Minhas filhas ainda são crianças. Então não converso com elas a respeito disso. Aprendo muito mais do que o ensino. Porque eu sempre fico me questionando. Elas são confiantes, ela se sentem bonitas, ela se consideram fortes. Elas vão jogar videogame e só escolhem personagem feminino.

Quando vão brincar, elas fazem um cartel só de meninas. Elas também brincam com os moleques, mas é incrível como elas gostam de tipo "vamos fazer um barato aqui das meninas". Isso não é conquista minha. É conquista do tempo que a gente está vivendo. Das mulheres com as quais elas se relacionam.

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Um novo fenômeno do rap

O disco traz uma música com a rapper Drik Barbosa. Como você vê o crescimento dela, que começou criança cantando freestyle para você, e hoje tem um disco na praça, lançada por sua gravadora, e é uma artista incrível?

Em geral, o espaço destinado às mulheres na música do nosso país é um refrão melódico. Durante muito tempo foi assim. Hoje, as meninas têm feito uma parada muito bacana, uma trajetória muito bonita de buscar um outro tipo de protagonismo. Elas não se contentam mais com o que estão oferecendo. Elas precisam de mais. É incrível ver essa transição.

Fala-se muito de poder. Fala se muito de empoderamento. Mas empoderamento é uma palavra que foi esvaziada. Completamente esvaziada. Vende-se a sensação de poder. Como se isso fosse poder verdade. Mas são duas coisas completamente diferentes.

Eu costumo dizer que a sensação de poder você tirar uma selfie no restaurante chique é poder. É poder você não perceber que está em um restaurante chique. A Drik, nesse sentido, manifesta poder. Ela não fez uma reflexão. Ela simplesmente fala de igual para igual. Chorei pra caramba no show dela. Eu me emocionei demais. Foi mágico.

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A pergunta que eu faço é: em que momento um cara estraga isso [a liberdade feminina]? Se lá em casa eu zelo tanto por essa força, essa beleza, essa autonomia, essa liderança, por que eu vou ser o cara que estraga tudo aquilo em um outro ambiente com as garotas?

Emicida sobre o machismo

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Fora da curva da militância

Em Ismália, em que você fala de polícia e injustiças, é uma pancada. Você no fim dia ainda se vê como um rapper de batalha, com músicas trazendo versos contra detratores?

Não. Ismália não é uma pancada. É uma constatação frustrante. O ponto ali não é o lugar do super-homem, que o militante médio se coloca, que é conectado com as coisas que a gente fala. Esse lugar muitas vezes é uma ficção.

A verdade é que quando a gente é atacado pelo racismo, na rua, seja ele na estância que for, você é pego tão de surpresa que nem consegue perceber instantaneamente o que você está vivendo. Aí eu estou me conectando com a pessoa de fora do lance de militância. Essas pessoas têm uma experiência frustrante, de fraqueza.

Num ambiente em que as pessoas têm o hábito de acreditar que a única função da nossa existência é denunciar as coisas, eu coloco luz na existência simples do homem simples do subúrbio, e acho que isso tem que ser valorizado.

Por que, quando um cara toma 80 tiros do Estado, a sociedade brasileira entra em estado de apatia e não faz nada? Porque essas pessoas foram apresentadas em um momento tomando 80 tiros. São sinônimos de tragédia. E ninguém quer se conectar com a tragédia. Quando apresento aquilo ali como possibilidade de vida, às pessoas se veem.

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