Mulheres invisíveis

Como A Vida Invisível pode levar o Brasil ao Oscar comovendo com a história de irmãs separadas pelo machismo

Beatriz Amendola Do UOL, em São Paulo
Bruno Machado/Divulgação

Há anos o Brasil não ficava tão perto de um Oscar de melhor filme internacional. A Vida Invisível, do cineasta cearense Karim Ainouz (Madame Satã, O Céu de Suely), foi escolhido para representar o País na premiação após sair vencedor da Un Certain Regard, a mostra paralela mais importante de Cannes, e já apareceu em lista da revista The Hollywood Reporter, uma das mais respeitadas do meio cinematográfico, como um dos prováveis cinco indicados que serão revelados pela Academia de Hollywood no início de janeiro.

O filme vem com um aparato pesado de campanha, tendo produção do brasileiro Rodrigo Teixeira, nome por trás de outros queridinhos oscarizáveis como Me Chame Pelo Seu Nome, e a Amazon como sua distribuidora internacional. Sua grande força, no entanto, está na história de Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler), duas irmãs separadas por uma mentira cruel e às voltas com as limitações impostas às mulheres na sociedade brasileira dos anos 1950. A trama, adaptada do livro homônimo de Martha Batalha, é habilmente tecida por Ainouz com o auxílio de atuações memoráveis. O resultado emociona - e diz muito sobre os tempos de hoje.

Assista ao trailer de A Vida Invisível

Divulgação Divulgação

"Um filme vaginal"

Fernanda Montenegro, que faz uma participação marcante como a Eurídice mais velha nos minutos finais de A Vida Invisível, define - e bem - a produção como "um filme vaginal, uterino". São as experiências e os sentimentos de Eurídice e Guida, afinal, que guiam a história: a primeira se vê forçada a abandonar seu sonho de tornar-se pianista por conta de um casamento sem amor com Antenor (Gregório Duvivier), enquanto a segunda é rejeitada pelo pai ao retornar para casa grávida e solteira, após um caso de amor malsucedido.

Ao longo dos anos, ambas se adaptam para sobreviver aos mandos e desmandos de uma sociedade patriarcal que poda seus desejos, enquanto encontram forças nas saudades que sentem uma pela outra. Em nenhum momento, no entanto, Ainouz coloca suas protagonistas em uma posição de vitimização.

"O filme é muito triste, mas não é um filme sobre vítimas, e sim sobre resistência", diz o cineasta, que, criado pela mãe e pela avó, viu sua família refletida nas páginas de Martha Batalha.

Eu nunca vi minha avó chorar, nem minha mãe, e uma das coisas que foi muito importante na construção dessas personagens foi isso. Homem nesse filme chora, mulher não chora. Eu queria falar de resiliência.

Karim Ainouz

Bruno Machado/Divulgação Bruno Machado/Divulgação
Bruno Machado/Divulgação Bruno Machado/Divulgação

Uma ausência presente

Das duas horas e vinte minutos de duração de A Vida Invisível, Eurídice e Guida só aparecem juntas em cena por cerca de 22 minutos. Foi um desafio a mais para Carol Duarte e Julia Stockler, que precisavam tornar palpável a ligação entre suas personagens. Para alcançar o objetivo, as duas, que não se conheciam antes, passaram por semanas intensas de ensaios e exercícios - e aprenderam até a bordar juntas.

"A gente teve que fazer muitos exercícios, até muito sensíveis, de criar repertórios, criar memórias juntas", conta Carol, mais conhecida do público por ter interpretado o transexual Ivan na novela A Força do Querer.

"A gente tinha que se apaixonar uma pela outra, para que isso vazasse para o filme, e a gente conseguiu", completa Julia, antes de destacar que a parceria entre as duas protagonistas era fundamental desde o início para que o projeto fosse bem-sucedido.

Não existiria Guida se não fosse a Carol e o respeito absoluto do trabalho dela. E é difícil de acontecer isso porque as pessoas tendem a competir e a fazer as mulheres competirem entre si. Se fosse o caso, o filme estaria fadado a ser um fracasso.

O clima de cumplicidade se estendeu ao set de filmagens, onde Ainouz colocou algumas regras para ajudar as atrizes a se manterem nos personagens. Celulares eram vetados, e os colegas só se dirigiam a elas pelos nomes de suas personagens. "Era um jogo muito consciente, não tinha nada muito enlouquecido", lembra Carol. "A gente sabia o que estava acontecendo e topou. E não dava para durar muito tempo, porque era exaustivo".

E a gente tinha alguns dispositivos para que acionasse essa falta uma da outra. A gente tem músicas em comum que a gente não pode mais ouvir.

Carol Duarte

Carol Duarte, sobre a relação vivida com Julia Stockler em A Vida Invisível

Bruno Machado/Divulgação Bruno Machado/Divulgação

Em família

É difícil assistir a Vida Invisível sem invocar memórias de histórias semelhantes dentro de nossas próprias famílias. Quantas Eurídices não foram impedidas de realizar seu potencial por conta da exigência de se dedicar exclusivamente à família? Quantas Guidas não foram escorraçadas por não se encaixarem em padrões?

São questões que os atores também acabaram confrontando durante o trabalho no longa.

"A minha avó foi essa mulher um pouco Eurídice; um pouco pior, na verdade, a vida da minha avó", conta Carol. "Ela sempre foi uma inspiração para mim, mas é muito fácil expandir para qualquer mulher. Isso é muito triste, na verdade. Muitas mulheres viveram isso na década de 1950, mas outras continuam vivendo".

Para Gregório Duvivier, o filme é um exercício de lidar com o passado.

É um trabalho de olhar para a gente, para as mães, as avós, e identificar essa opressão milenar que nos atravessa, que é tão definidora do nosso país. Acho que cada ator foi buscar essas pessoas, que existem muitas. É um trabalho quase terapêutico de exorcizar os fantasmas dos nossos ancestrais.

Julia, por sua vez, viu sua própria mãe refletida em Guida. "Ela é a única mulher de cinco irmãs da família que conseguiu se separar, por exemplo, e construir outras histórias. A minha vó, Violeta, ela é Eurídice, e ela é igual a Fernanda Montenegro. Uma loucura, porque a minha avó tocava piano para caramba. Ela era casada e dentro da casa deles tinha outra mulher, que era mulher do meu avô. Então, a minha avó ficava naquele sofrimento, e o piano era a única coisa que ela tinha".

Bruno Machado/Divulgação Bruno Machado/Divulgação

Violência sussurrada

Os fantasmas, no entanto, seguem mais presentes do que nunca. "A condição da mulher ainda é crítica", nota Fernanda Montenegro. Ainda é debaixo de um comando, e mesmo quando não é debaixo de um comando, há uma luta pelo comando".

O contexto carrega o filme de urgência - especialmente em um momento de recrudescimento do conservadorismo, em que tantas conquistas das mulheres são questionadas.

Esse filme é fundamental, porque é uma violência sussurrada. É uma violência silenciada. E essa violência atravessa a alma. A violência física é devastadora. Mas esse abuso às vezes você não percebe ele acontecendo, e ele é deteriorante para uma mulher. A gente não está falando dos anos 1950, a gente está falando de agora.

Julia Stockler

Para Carol, o longa faz uma denúncia sobre a forma como os homens em torno de Eurídice e Guida conseguiram limitar as vida de ambas - o que permanece atual. "O filme é sobre o quanto o homem é tóxico nas relações dessas mulheres, sobre o quanto eles conseguiram afogar essas duas mulheres."

A atriz espera que o público masculino também assista ao filme e possa compreender os efeitos nefastos da violência psicológica. "É importante que os homens vejam o filme e entendam essa violência que não é tão aberta e que talvez seja mais brutal porque ela vai te pegando ali, no 'abaixa o tom' aqui, 'coloca a roupa' ali."

Gregório aposta no potencial de A Vida Invisível para fazer as plateias passarem por uma espécie de terapia coletiva por meio da emoção. "Eu duvido que um machista convicto passe batido por ele. Acho difícil porque o filme fala das nossas avós. O sujeito tem avó, todo mundo tem mãe. Através da comoção, como o nome diz, você move as pessoas juntas. Eu tenho a impressão de que esse filme pode mover a plateia por um lugar melhor."

Curtiu? Compartilhe.

Topo