60 anos do Bidu

Como o cãozinho azul criado por Mauricio de Sousa deu início à Turma da Mônica

Felipe Branco Cruz do UOL, em São Paulo
Lucas Lima/UOL

Bidu, um dos personagens mais carismáticos de Mauricio de Sousa, vai completar 60 anos. Ele surgiu pela primeira vez em uma tirinha publicada no jornal "Folha da Tarde" em 18 de julho de 1959. De lá para cá, o cãozinho azul da raça Schnauzer (confirmado pelo próprio autor) virou a marca registrada do quadrinista e o ajudou a se transformar em um dos maiores autores infantis do país.

A história Bidu e seu melhor amigo, o Franjinha, se confunde também com a própria carreira do quadrinista, já que eles foram os primeiros personagens publicados por Mauricio em um jornal.

Foi também com o Bidu que Mauricio de Sousa atingiu pela primeira vez nos anos 1960 (quando ainda era repórter policial) um público que ele nem imaginava que se interessaria pelo seu trabalho: as crianças.

Após a publicação da tirinha na "Folha da Tarde", o jornal recebeu também pela primeira vez cartas de crianças.

Eu não sabia, mas foi ali que eu me descobri um escritor ou desenhista para crianças.

A tirinha contava com nove quadrinhos e nenhuma fala. Na primeira cena, um homem discursava para uma plateia entediada. No quarto quadrinho, apenas um menino continuava ouvindo-o. O homem, ao perceber que não atrairia a atenção de mais ninguém, deixa o lugar praguejando. Apenas no oitavo quadro é que descobrimos porque o menino ficou até o fim: para retirar seu cachorrinho preso debaixo do caixote.

Reprodução/Mauricio de Sousa Produções Reprodução/Mauricio de Sousa Produções

Como o Bidu surgiu?

No final dos anos 1950, Mauricio de Sousa estava decidido a largar o jornalismo para seguir o sonho de ser cartunista, mas não tinha ideia sobre o que desenhar. Para não errar, ele concluiu que poucas pessoas seriam capazes de criticar uma história sobre um menino (inspirado em seu sobrinho) e um cachorro.

O próximo passo era desenhar o cãozinho. Mauricio conta que se inspirou no cachorro da raça schnauzer, que a vizinha da sua avó tinha. Já a personalidade do animal veio do Cuíca, o vira-latas da família, que era muito esperto e brincalhão.

Com a tirinha pronta, Maurício foi incentivado pelo colega Lourenço Diaféria a mostrá-la para os editores do jornal. Mas, no dia de entregar o desenho, ele percebeu que o tinha esquecido dentro do táxi.

"O pessoal perguntou onde estava a charge. Foi aí que percebi que tinha ficado dentro do táxi. Voltei para casa, fiz novamente a tirinha e, adivinha? Esqueci de novo no táxi! O pessoal já estava achando que eu não sabia desenhar. No terceiro dia, eu refiz mais uma vez, só que eu dobrei e guardei dentro do meu paletó. Aí, sim, finalmente consegui entregar a tirinha", lembrou Maurício.

O nome do mascote também foi escolhido na redação do jornal. Maurício pediu ajuda aos jornalistas que deram várias sugestões de nomes e Bidu foi o favorito.

Gostei do nome Bidu. Significa uma gíria da época para 'esperto', 'sabido', 'inteligente'".

Cerca de dois meses depois da primeira publicação, as tiras se tornaram diárias. Depois, o personagem ganhou sua própria revistinha. Dali em diante, Mauricio não parou mais, criando o Cebolinha, a Mônica e o restante da turminha.

"Quando eu vi a tirinha do Bidu publicada pela primeira vez, minha vontade foi de levar todos os jornais para casa. Acho que todo mundo que vê alguma criação publicada pela primeira vez tem essa mesma reação. Comprei um monte e dei para a minha avó, para os meus amigos e para os meus parentes".

Veja a primeira tirinha do Bidu

Bidu nasceu cinza

O Bidu só ganhou sua característica cor azul anos depois de sua criação. Como todas as tirinhas eram em preto e branco, Mauricio de Sousa nunca tinha pensado sobre que cor ele deveria ter.

"Sempre pensei nele com os pelos cinzentos", disse o autor. Mas, quando o jornal começou a publicar tirinhas em cores, Mauricio foi obrigado a decidir que cor pintar o seu animalzinho.

"Se eu pintasse ele de cinza, ele teria a mesma cor cinza do jornal. E eu queria que ele se destacasse. Daí eu pensei no azul claro. Foi assim que a cor dele surgiu. Para ter mais destaque no jornal", afirmou.

Maurício contou ainda que depois do Bidu, outros cachorrinhos ganharam cores diferentes, como o Floquinho, que é verde, e o Bugu, que é amarelo.

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Bidu de carne e osso

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O personagem surgiu da imaginação de Mauricio de Sousa mas, na vida real, o cartunista também tem o seu Bidu. Ou melhor, o terceiro Bidu.

Da mesma raça do cãozinho dos quadrinhos, a família Sousa já foi dona de dois schnauzer pretos, todos com o mesmo nome: Bidu, que já morreram. Atualmente, Mauricio cuida de seu terceiro cachorro também chamado Bidu.

"Gosto muito de cachorro. A gente fica adorando, adorando, adorando. E, então, ele vai embora e é uma tristeza danada. Aí, a gente encontra outro e coloca no lugar", disse Maurício.

Sem dúvida, a gente sempre vai ter um Bidu vivendo perto da gente"

E o novo Bidu não é pequeno. Com o cachorrinho pesando 15 kg, Mauricio de Sousa precisa se sentar na cadeira para poder segurá-lo no colo sem cair. "Ele é muito bravo. Late muito", comentou.

O Bidu de carne e osso, aliás, convive com os funcionários do estúdio, correndo para lá e para cá pelos corredores. Além dele, também fica por ali a cachorra Maria da Penha, adotada pela filha de Mauricio, a Marina. "A Penha é bem mais mansa e convive muito bem com todo mundo".

Biduzidos e o futuro

Reprodução/Mauricio de Sousa Produções Reprodução/Mauricio de Sousa Produções

Sessenta anos depois, Bidu continua inspirando novidades nos estúdios do Maurício de Sousa. Desta vez, é a série animada "Biduzidos", feita com exclusividade para o YouTube.

A série é composta de episódios curtos, com menos de dois minutos, e reúne todos os pets da Turma da Mônica, como o Bidu, a galinha Giselda (do Chico Bento), o gato Mingau (da Magali), o porco Chovinista (do Cascão) e o cachorro Floquinho (do Cebolinha). Nela, os pets se metem em diversas situações típicas dos bichinhos, como brincar com mangueira de água, se esconder no armário, enterrar ossos, etc.

A série foi criada após o sucesso de "Mônica Toy" e não tem falas. "'Mônica Toy' também não tem idioma e foi um sucesso em todo o mundo porque qualquer pessoa conseguiria entender. Com 'Biduzidos' é assim também. O gato daqui mia igual ao do Japão. O cachorro da Alemanha late igual ao da África", contou Mauricio. "E todo mundo gosta de bichos".

Com o Bidu, os Estúdios Mauricio de Sousa também lançaram uma nova logomarca, que foi divulgada com exclusividade ao UOL para comemorar seus 60 anos e pode ser vista nesta reportagem.

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Bugu, amigo ou inimigo?

Treze anos depois da criação do Bidu, surgiu seu principal antagonista, o Bugu. O cachorro amarelo em formato de salsicha apareceu pela primeira vez em 1972 e foi criado por Márcio Araújo de Sousa, irmão de Maurício.

"O Bugu parece uma salsicha mesmo. E ele é muito engraçado. Sempre faz aparições surpresas", disse Mauricio. "Ele é metido e se intromete na vida do Bidu. Acho que ele tem ciúmes do Bidu", completou o cartunista.

Mauricio diz que muitos fãs acham que o Bugu é irmão do Bidu porque ele sempre diz nas tirinhas "Alô, Mamãe" ou "Adeus, Mamãe". "Mas ele está sempre ao lado do Bidu, talvez querendo um carinho e um espaço para ele também".

Aprenda a desenhar o Bidu

Lucas Lima/UOL

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