A vez dela

Personagem mais poderosa da Marvel nos cinemas, a Capitã de Brie Larson é a chave para o futuro pós-Vingadores

Beatriz Amendola Do UOL, em São Paulo
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O futuro dos filmes da Marvel pós-"Vingadores: Ultimato" pode ser uma incógnita, mas uma coisa é certa: Brie Larson e sua Capitã Marvel serão peças fundamentais deles.

A atriz faz sua estreia como a super-heroína que vem sendo definida, com razão, como a personagem mais poderosa de todo o MCU (sigla em inglês para Universo Cinematográfico da Marvel) --e está estrategicamente posicionada para ser a líder dos heróis pelos próximos anos, assumindo o posto que durante uma década foi de Robert Downey Jr., o Homem de Ferro.

Nada mais apropriado. Aos 29 anos e com contrato para nada menos do que sete filmes do MCU, Brie faz parte de uma geração de mulheres que quer revolucionar os bastidores de Hollywood, enquanto sua Capitã Marvel é a primeira heroína da editora a ganhar um filme solo -- justamente, o primeiro a ter uma diretora, Anna Boden, que comanda o longa ao lado de Ryan Fleck.

Juntas, atriz e personagem abrem uma nova fase para as super-heroínas da casa, que em breve ganharão o reforço de um filme próprio da Viúva Negra (Scarlett Johansson) e de "muitas outras mulheres", conforme sinalizado por Kevin Feige, chefão da Marvel Studios.

Iwi Onodera/UOL Iwi Onodera/UOL

Uma estranha no ninho

Para Brie Larson, ainda não caiu a ficha do que é ser parte do Universo Marvel, que em dez anos trouxe mais de 20 filmes interligados entre si. "Você consegue perceber o tamanho disso? É gigante, nem dá pra entender tudo", disse ela em entrevista a Roberto Sadovski, crítico do UOL, em dezembro (veja abaixo na íntegra).

Na ocasião, a atriz havia acabado de ser recebida por uma plateia estrondosa na CCXP (Comic Con Experience), em São Paulo. "Não é algo natural que a gente possa observar ou experimentar. Eu estou passando por um lance muito bizarro. Eu estou fazendo o melhor para me manter curiosa e estar presente, mas é uma loucura, não é normal".

Pudera. "Capitã Marvel", com seu orçamento estimado em US$ 152 milhões, é de longe o maior filme da carreira da californiana, que começou a estudar atuação com seis anos de idade. Na adolescência, ela acumulou papéis em produções familiares como "Rodas Sobre Fogo", do Disney Channel, e até fez uma tímida investida na música pop, como cantora --um talento que mais tarde usaria no cult "Scott Pilgrim Contra o Mundo".

Foram várias participações em produções menores, como "Don Jon", "O Apostador" e a série "United States of Tara", até que Brie chegasse a "O Quarto de Jack", filme que mudou definitivamente a sua carreira. Na pele de uma mulher que é sequestrada e passa anos sendo violentada por seu abusador, a artista ganhou o Oscar de melhor atriz e foi elevada ao time de estrelas de primeiro escalão de Hollywood. Não à toa, foi poucos meses após receber a estatueta dourada que ela foi oficializada como Capitã Marvel, diante de uma plateia de 6.000 fãs entusiasmados na San Diego Comic-Con.

"Era como a aluna nova da escola"

Brie conta como foi se juntar ao time dos "Vingadores"

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Virando Carol Danvers

O processo para Brie Larson se transformar em Carol Danvers, a piloto da Força Aérea que ganha poderes especiais e vai viver entre os Kree, uma raça alienígena super-avançada, foi árduo - a começar pelo treinamento físico. Por nove meses, a atriz teve de pegar pesado na academia e nas aulas de artes marciais como judô e tae-kwon-do. Ao fim, ela era capaz de levantar cem quilos.

No que se refere ao lado mais prático da vida de super-heroína, Brie contou com a ajuda valiosa dos colegas da Marvel, já que as gravações de "Vingadores: Ultimato" vieram antes das de "Capitã Marvel".

"Eu basicamente era a nova aluna da escola, fiz uma tonelada de perguntas, porque é uma jornada muito estranha. E eu tinha milhares de perguntas, tipo: 'Eu treino agora, mas quando o filme começar, quando encaixo o treino? Pela manhã, no almoço, à noite? Que tipo de lanche dá para comer, quanta proteína a gente consome, como vou ao banheiro com o uniforme?' Eram perguntas práticas como essas, e eu aprendi um monte, coisas realmente úteis".

O traje da Capitã era o que mais preocupava a atriz.

Eram muitas peças, e eu me preocupava se ele ia servir. E a Scarlett deu o toque: basicamente eles têm uma oficina de reparos no set. Ela disse: 'Sempre que você sentir algo desconfortável, é só dizer a eles que estará arrumado no dia seguinte'. Eu não fazia ideia.

Poderosas e engajadas

As super-heroínas que lutam nas telas e fora delas

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Gal Gadot

A atriz israelense abraçou o papel de Mulher-Maravilha nos cinemas e, também a causa da diversidade nas telas. ?Não só temos o trabalho de entreter, mas também o dever de inspirar e educar para o amor e o respeito?. Ela retorna com ?Mulher-Maravilha 2? em 2020.

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Scarlett Johansson

Prestes a estrelar o filme solo da Viúva Negra, a atriz é uma das mais bem pagas do mundo e já fez discursos fortes contra o assédio sexual. ?Como pode uma pessoa apoiar publicamente uma organização que apoia vítimas de abuso enquanto ataca pessoas que não têm poder??, disse, em 2018, criticando o ator James Franco.

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Margot Robbie

A Arlequina será a grande estrela da DC nos próximos anos, com ?Aves de Rapina? e outros filmes previstos. E Robbie investiu em uma produtora própria para poder fazer mais projetos com mulheres: ?Quero trabalhar com diretoras. E quero muito trabalhar com atrizes da minha idade?.

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Tessa Thompson

Sucesso como a Valquíria em ?Thor: Ragnarok?, a atriz está envolvida no Time?s Up desde o início e já vê resultados. ?Como deixamos os ambientes de trabalho mais seguros para todos, mas especialmente para as mulheres? Temos que ter mais mulheres nesses locais, e mais mulheres em posições de poder?.

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"Fiz por vocês"

Para viver a primeira protagonista feminina da Marvel nos cinemas, Brie Larson ganhou generosos US$ 5 milhões. É bem mais do que os US$ 500 mil recebidos por Robert Downey Jr. pelo primeiro "Homem de Ferro", e mais do que o dobro dos US$ 2 milhões que Chadwick Boseman levou para ser o protagonista de "Pantera Negra", um dos grandes sucessos do estúdio em 2018.

Mesmo assim, aceitar o papel não foi particularmente fácil para a atriz, que precisou manter segredo.

É uma decisão enorme e não muda só minha vida, mas a da minha família e dos meus amigos. Tudo muda. E foi muito difícil não poder falar sobre isso com ninguém, mas por outro lado foi bom porque eu tive de sentar e tomar essa decisão por mim mesma.

No fim das contas, pesou na balança tudo aquilo que representava a personagem criada pelo autor Roy Thomas e pelo ilustrador Gene Colan em 1968. Era a chance de Brie dar às garotas um exemplo que ela mesma não teve na infância. "Eu fiz por vocês", disse ela para a plateia da CCXP, meses antes de relatar, à "Hollywood Reporter", sua própria emoção ao se ver na Mulher-Maravilha de Gal Gadot, que desembarcou nos cinemas em 2017.

Eu pensei: 'Por que isso está me fazendo chorar tanto?'. E percebi que era porque eu não havia tido aquilo, e tinha uma criança em mim pensando: 'Meu Deus, posso fazer isso.

Não por acaso, "Mulher-Maravilha" arrecadou US$ 822 milhões nas bilheterias internacionais e, segundo dados da Movio, atraiu 16% mais mulheres do que os demais filmes de heróis. A tendência deve se repetir com "Capitã Marvel", que de acordo com estimativas preliminares deve arrebatar mais de US$ 100 milhões em sua estreia nas bilheterias norte-americanas, em um resultado semelhante ao obtido pela super-heroína da DC.

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Para Brie, a representatividade não é algo a ser buscado só nas telas. A atriz é uma das principais vozes da Time's Up, organização que surgiu na esteira das denúncias de abuso sexual contra Harvey Weinstein, e tem se engajado na luta para aumentar a participação feminina também nos bastidores da indústria cinematográfica.

"Eu sinto que estamos cada vez mais próximos dessa direção", disse a atriz ao UOL. "Ainda temos um longo caminho a percorrer, mas já percebo alguns movimentos, como o filme que eu acabei de fazer com Michael B. Jordan, 'Just Mercy', em que a Warner abraçou uma cláusula de inclusão e tivemos 70% da equipe com pessoas negras. São momentos que percebemos os passos sendo dados".

Mas ela acredita que isso não é motivo para cantar vitória. "Se a gente comemora antes da hora, perdemos o impulso. E ainda precisamos ser críticos em relação ao que vem acontecendo e nos manter alerta sobre o que fazemos e, na real, com quem divide a sala conosco. E eu sinto isso em todos os aspectos de meu trabalho, não só no set mas também no trabalho com a imprensa, as roupas que eu visto".

Não é só conversa fiada de Hollywood: a artista fez um pedido especial para que os eventos de divulgação de "Capitã Marvel" incluíssem também jornalistas mulheres e de origens diversas, em linha com um discurso poderoso que ela fez em junho, pedindo maior representatividade entre críticos de cinema. De acordo com um estudo da University of Southern California publicado em 2018, 63,9% dos críticos são homens brancos.

Estou dizendo que odeio caras brancos? Não. Mas se você faz um filme que é uma carta de amor a mulheres negras, há grandes chances de que uma mulher negra não tenha acesso ao filme para resenhá-lo. Não digam que essas pessoas não estão aí, porque elas estão.

O ativismo da atriz tem encontrado resistência nas redes sociais por parte de um grupo específico, que a acusa de estar "promovendo o ódio" contra homens brancos. Furiosos com as declarações e atitudes de Brie, internautas tentaram sabotar a página de "Capitã Marvel" no agregador de críticas Rotten Tomatoes, deixando uma série de comentários negativos antes mesmo de o filme estrear.

Mas se "Pantera Negra" e a nova trilogia de "Star Wars" --ambos atacados por seus elencos diversos-- servem de exemplo, Brie Larson pode ficar tranquila: ela e Carol Danvers ainda terão um longo futuro para reinar no MCU.

Confira o trailer de "Capitã Marvel"

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