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Festival de Cannes


Dor e glória: Antonio Banderas revela um Almodóvar "mais Pedro do que o próprio Pedro"

Alberto Pizzoli/AFP
O ator espanhol Antonio Banderas durante a première de "Dor e Glória" em Cannes Imagem: Alberto Pizzoli/AFP

Maria Carolina Piña

2019-05-17T18:16:18

17/05/2019 18h16

Pedro Almodóvar conta com a estrela Antonio Banderas para dar vida ao personagem principal de "Dor e Glória", filme exibido na disputa pela Palma de Ouro hoje em Cannes.

O ator espanhol interpreta um diretor de cinema que atravessa uma fase difícil da vida e relembra momentos de seu passado. Uma espécie de autobiografia velada de Pedro Almodóvar. Banderas falou com exclusividade à agência de notícias RFI.

RFI - Você trabalhou com Pedro Almodóvar em oito ocasiões. Em que momento de sua relação com ele chega esse longa?

Antonio Banderas - Com a idade que tenho gostaria de te responder que esse filme chega na metade de nossa carreira cinematográfica, que ainda temos oito filmes a serem feitos pela frente, mas não sei se isso será ou não possível. Esse projeto chega em um momento diferente, pois quando penso no desenvolvimento desse filme, vejo que na verdade tudo começou com "A Pele que Habito". Porque no período de tempo entre "Átame" e "La piel que habito", se passaram 22 anos, onde Pedro e eu não havíamos trabalhado juntos.

Eu me apresentei aos primeiros ensaios com Pedro, orgulhoso, com 22 anos de experiência, me sentindo muito seguro com meus personagens. Abro minha mochila e coloco sobre a mesa tudo que havia aprendido durante esses 22 anos e lhe disse: "Este sou eu agora, está vendo? Agora posso falar assim, com essa segurança, não me assusto tanto com as câmeras".

Então Pedro me disse: "Tudo isso não me serve para nada. Eu quero buscar um Antonio Banderas, fresco, novo, mas esses artifícios, essa história de que você já não é o mesmo, que se tornou grande com o tempo, te servirá para um tipo de público, que você considera bom para você, para certos filmes e com certos diretores, mas não para mim. Por isso temos que voltar a trabalhar do zero".

Eu reagi contra isso, e nos enfrentamos, e brigamos durante toda a filmagem, sempre criativamente, mas nos enfrentamos. Quando eu vi o filme, muitos meses depois, me surpreendi por ver que ele havia conseguido buscar em mim algo que eu não sabia que tinha. Sinceramente, e com isso tive que fazer um exercício de humildade.

Quando ele voltou a me chamar para este filme, disse: "Agora é minha oportunidade". Desta vez me apresentei sem minhas medalhas, sem meu uniforme de "general dos exércitos", sem nada. Fui como um soldado iniciante, e lhe disse: "Venho para entender o que você pensa fazer e porque pensou em mim para interpretar esse personagem que se parece tanto com você". Então começamos a trabalhar desde o início. Isso é algo muito doloroso pois você sabe que não pode usar as técnicas que você sabe que já funcionam.

Pedro me dizia: "Antonio, este personagem está sob a influência da heroína, mas não quero que se note, e sente dor o tempo todo, quando caminha, com enxaquecas, mas não quero que se perceba, e sim quero que você seja eu, que você interprete Pedro Almodóvar, mas também não quero que se perceba". Então eu me via como na primeira cena do filme, boiando em um espaço indeterminado, na água, e assim estive em todo filme. Tentando entender, observando muito, quase como uma testemunha de sua própria história.

Alberto PIzzoli/AFP
Penélope Cruz, Pedro Almodóvar e Antonio Banderas no Festival de Cannes Imagem: Alberto PIzzoli/AFP

Para você, aceitar esse papel foi como entender uma confissão íntima de Almodóvar?

Sim. Havia coisas que eu já levava na intuição, depois de quase 40 anos de amizade, sobre sua personalidade, sua forma de entender o mundo, os eventos e determinados personagens, mas nunca suspeitei que ele colocaria isso em um filme. Há coisas que me surpreenderam muito. Por exemplo na relação com a mãe, que ele adorava. Mas essa confissão que ele faz dizendo "sinto muito, mamãe, ter sido como sou, ter provocado problemas", tudo aquilo que ele sempre quis dizer, mas que nunca o fez. As pessoas me perguntam, as coisas que aparecem no filme, é realmente a vida de Pedro?

Os eventos que aparecem provavelmente não aconteceram. Mas isso não é importante. O que está na tela é mais Pedro do que o próprio Pedro. É ele. Mas não é algo como "isso aconteceu comigo e com minha mãe", ou "tal coisa aconteceu com tal ator". Não é isso. O que ele fez foi adaptar sua história em um monte de personagens e atores, atrizes. As coisas aconteceram na vida real. Muitas vezes não, mas é a forma como ele reagiria se deparando a essa situação. É muito bonita a forma como Pedro construiu o filme. É muito impressionante para mim ver a capacidade que ele teve para se despir diante do público.

Como você sai deste personagem?

Saio muito feliz porque, à medida que as filmagens iam acontecendo, via que recuperava meu amigo e que ele ia tirando pedras muito pesadas de uma mochila que foi carregando durante muito tempo. Isso foi uma libertação para Pedro. Ele pôde respirar. E, à medida que íamos filmando, eu via que ele estava cada vez mais feliz, sorria mais e está encantador agora. Esse filme acabou se tornando uma terapia muito importante para ele.