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Ex-atriz brasileira diz que mulheres deveriam mostrar os "podres do pornô"

Vanessa Danieli foi atriz pornô - Acervo Pessoal
Vanessa Danieli foi atriz pornô Imagem: Acervo Pessoal

Gabriel Nanbu

Colaboração para o UOL, em São Paulo

30/06/2020 04h00

Acho que as mulheres que saíram [da indústria] deveriam se posicionar e dizer todos os podres que viveram, mas muitas não vão fazer

Vanessa Danieli, ex-atriz pornô vencedora de três prêmios Sexy Hot, escreveu, na última semana, um texto no Instagram para comemorar os três anos e seis meses desde que parou de trabalhar na indústria de filmes adultos, uma experiência que, segundo ela, a fez querer tirar a própria vida.

Poucos dias depois, a ex-atriz pornô norte-americana Mia Khalifa falou sobre os próprios traumas em um post no TikTok, pedindo que mulheres não sigam a mesma carreira.

Hoje faz 3 anos e 6 meses que parei com as gravações, desde então: *Comecei no YouTube *Fui em todos os eventos possíveis que são Geek/Nerd *Me casei *Fiz tratamento psiquiátrico / terapia *Me formei na faculdade *Trabalhei em 4 agências de publicidade diferentes *Aprendi sobre movimentos sociais (Só listei as principais coisas boas); Agora que estou fora daquela realidade, consigo enxergar e entender muitas coisas que não entendia antes. Naquela época eu não tinha perspectiva de futuro, eu não imaginava me casar, voltar a estudar, trabalhar em escritório ou fazer publis na internet, nada disso estava nos meus planos porque eu não tinha planos, e não tinha mesmo, olha o que eu pensava antigamente: ?preciso pensar em um jeito de morrer e não desperdiçar os meus órgãos, preciso pagar a cremação, vou morrer aos 30 anos, já tenho 27, tic tac Vanessa, acorda, não tem mais nada pra você fazer aqui.? Era assim que eu pensava, que ia morrer com 30 anos, mas estou com 32 e como listei acima, um monte de coisa aconteceu. As vezes eu não acredito na minha realidade, já tive essa conversa com a psiquiatra, o fato de eu não acreditar é que eu não acho que mereço essas coisas boas na minha vida. Afinal, eu sempre fui acostumada com as pessoas decidirem por mim o que eu merecia, e nunca era um diploma ou algo que me fizesse mais humana, era sempre algo em que tiravam proveito e em seguida eu ia direto pra lata de lixo. Bom, eu saí do olho do fundo de uma lata de lixo, e agora não estou afim de escutar de outras pessoas o que eu mereço, e mesmo que falem, aprendi a ignorar (eu tive que aprender), agora estou afim de dividir minha experiência para que mais pessoas tenham diplomas ou se sintam no direito de serem mais humanas. . #bemestar #quarentena #quarantine #psicologia #saude #saudemental

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Atrizes preferem não falar

Apesar da importância de se falar sobre, Vanessa entende que em alguns casos, seja natural que as mulheres não topem expor o que se vive no mundo pornô. Ela admite que já esteve nesse mundo em que não se fala mal do ganha pão.

"É normal. Eu também fiz isso."

A ex-atriz ainda lembrou do caso de Mônica Mattos, que já se aposentou e se consagrou como a primeira latino-americana a vencer o prestigiado AVN Award, em 2008.

Ela é minha amiga de Facebook. Mudou o nome, se casou, tem dois filhos, é tatuadora e não quer exposição. Eu entendo isso. Ela é feminista radical. A gente curte os posts uma da outra porque passamos pelas mesmas coisas.

Abusos

Vanessa, hoje casada e formada em marketing, diz que passou por terapia para lidar com os traumas dos tempos em que foi atriz pornô. Ela também estudou sobre feminismo para, segundo ela, compreender que o que viveu nos anos como atriz foi abusivo.

Eu vi menina fazendo pornô por lanche e Coca-Cola. Vi menina fazendo cena por promessas, por mais trabalhos depois. Vi menina com mamilo rasgado, sangrando, chorando, menina drogada, bêbada, sendo muito abusada, sendo roubada.

Estupro normalizado

Ela, no entanto, ressalta que só as próprias meninas podem falar sobre o que viveram, uma vez que a história é delas. Sobre si mesma, diz que o que mais a deixava mal, em gravações, eram coisas sobre as quais não tinha controle.

"Abuso e estupro é a parte normal. Não tive problema com estupro porque tentava ficar muito ligada, mas muitas meninas tiveram. No pornô, tem algo chamado de 'vício', que é o ator querer fazer um 'esquenta' antes da cena. Era horrível isso. Você já tinha de fazer tudo e ainda tem de fazer um 'esquenta'", diz Vanessa, que diz nunca ter sentido prazer em cena.

Vida longe do pornô

A sexualidade é influenciada pelo pornô dos homens. Quando me casei, tive de redescobrir minha sexualidade. Tudo é tão banal e plástico que não sabia mais o que me dava prazer, o que era legal para mim.

Vanessa, que era conhecida pelo nome artístico de Bárbara Costa e que hoje se dedica ao canal de YouTube voltado à cultura geek "Barbaridade Nerd", com 91,7 mil inscritos.