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Adam Schlesinger: uma ode ao compositor desconhecido-conhecido

Adam Schlesinger, em 1997, quando ainda vivia em um trailer mesmo depois de compôr "That Thing You Do" - Kimberly Butler/The LIFE Images Collection via G
Adam Schlesinger, em 1997, quando ainda vivia em um trailer mesmo depois de compôr 'That Thing You Do' Imagem: Kimberly Butler/The LIFE Images Collection via G

Liv Brandão

Do UOL, em São Paulo

01/04/2020 22h02

Entre as milhares de vítimas da Covid-19, causada pela pandemia de coronavírus que nos trancou em casa e está mexendo com as estruturas do capitalismo, estava Adam Schlesinger, americano, 52 anos, com ex-mulher e duas filhas. Músico, Adam foi fundador de bandas como os Fountains of Wayne (do chiclete "Stacy's Mom", que tocou até cansar no começo dos anos 2000) e Ivy, e compositor de trilhas sonoras de filmes como "The Wonders" (sim, "That Thing You Do!" é dele), "Letra e Música" (aquele do Hugh Grant e da Drew Barrymore parodiando um músico oitentista falido) e da série "Crazy Ex-Girlfriend", exibida aqui pela Netflix. A morte dele foi noticiada pelos principais veículos, como o UOL, mas sem muito alarde. Afinal, essa carinha de nerd, sem nenhuma pinta de rockstar, não era tããão conhecida assim. Mas sua obra merecia ser.

Mais que um obituário, este visa ser um texto pessoal, até porque preciso dar um contexto sobre o porquê de estar aqui, depois do meu horário de expediente, escrevendo sobre um cara para quem ninguém ligava. Pois bem. Tenho 34 anos, amo música, sempre dancei e, portanto, amo musicais. Meu sonho de adolescência numa cidadezinha do interior de Minas Gerais era ser bailarina e atriz da Broadway.

E foi durante essa adolescência que eu, fã de Beatles de pai e mãe, conheci mais a música dos anos 1960 e assisti a "The Wonders". Aquele filme gostosinho de "Sessão da Tarde" com a Liv Tyler e dirigido pelo Tom Hanks, sabe? A história de uma banda de garagem chegando ao estrelato me deixou tão apaixonada que já vi o filme para mais de 20 vezes —a última não tem nem um mês. Mas não era só o filme: o grande trunfo de "The Wonders" era a trilha sonora encabeçada por "That Thing You Do", brilhantemente escrita por Adam.

Adam entendia muito bem como funcionava a música pop, aquela cheia de fórmulas, mas que te pega de jeito, te faz dançar na cadeira do ônibus e andar na rua cantarolando. "That Thing You Do" foi indicada ao Globo de Ouro e ao Oscar, e fez a trilha sonora bombar nas paradas americanas. Os Wonders saíram do cinema e viraram hit também na vida real. Outra trilha sonora produzida por ele, a de "Letra e Música", de 2007, seguiu a mesma linha: vários hits grudentíssimos que extrapolaram as telas. "Way Back Into Love" poderia muito bem ter sido um dueto de sucesso entre Britney Spears e o segundo homem do Wham!, capaz de fazer o nome dele (qual é mesmo?) voltar à boca do povo.

Em 2003 fiz 18 anos, comecei a frequentar festas indie na Casa da Matriz, no Rio, e foi a vez de a banda de Adam me conquistar: "Denise", dos Fountains of Wayne, tocava na "night" com seu refrão sessentista e letra sobre um relacionamento absolutamente banal entre o eu-lírico e a tal mocinha. Sabe carisma? Pois é. As músicas de Adam tinham carisma. Foi quando conheci um disquinho chamado "Welcome Interstate Managers" —de onde saiu "Stacy's Mom"— que minha própria mãe, coitada, se cansou de ouvir por tabela, sempre no talo.

As letras de Adam casavam muito bem com esse pop-rock safado (no bom sentido, eu juro) que ele fazia. Na maioria das vezes, eram contos sobre personagens comuns e meio sem graça, até, que jamais seriam eternizados nas CNTP (condições normais de temperatura e pressão), mas que davam ao ouvinte médio aquele sentimento de "parecência", de pertencimento (a menina que morava numa cidade do interior e sonhava chegar à Broadway se identificou).

E aí é que residia a graça. Denise morava no Queens, em Nova York, mas seu pai vivia no Texas. Ah, e ela gostava de Puff Daddy e dirigia um Lexus lilás. O guri de "Stacy's Mom" estava apaixonado pela mãe da coleguinha e usava os trabalhos de escola como desculpa para se aproximar da mulher amada. O cara de "Bright Future in Sales" carregava uma 3x4 do filho na carteira, mas vivia perdendo a linha na bebida e jurava que tomaria tenência.

Ele foi morto por uma explosão de telefone celular
Eles espalharam suas cinzas pelo oceano
A água foi usada para fazer loção para bebês
As rodas da promoção foram acionadas (...)

Ela vivia sozinha num pequeno apartamento
Do outro lado da rua do departamento médico
Ela deixou seus remédios no porta-luvas
Essa foi a tarde em que seu coração parou

Letra de 'Mexican Wine', dos Fountains of Wayne

Acho que eu tinha uma carteira preta no meu bolso de trás
Com um passe de ônibus e uma foto do meu bebê dentro
E se eu conseguir chegar em casa vivo
Eu arrumarei minhas malas
Porque não posso viver assim para sempre
Você sabe que eu vim de muito longe
E eu não quero falhar
Eu tenho um computador novo
E um futuro brilhante em vendas, yeah, yeah

Letra de 'Bright Future in Sales', dos Fountains of Wayne

Foi esse talento para contar as fábulas de personagens comuns que levou Adam a mais um projeto bem sucedido. "Crazy Ex-Girlfriend", estrelada por Rachel Bloom, vencedora do Globo de Ouro, deve muito às letras de Adam. Essas músicas dão vida à protagonista que resolve chutar o balde de um escritório poderoso de advocacia de NY para stalkear o namorado de adolescência numa cidadezinha sem nenhum outro atrativo. A série, um musical debochado, fala muito bem sobre os transtornos mentais da protagonista.

Numa entrevista que fiz com Adam ainda como repórter do jornal "O Globo", em 2017 (só o histórico de navegação do meu browser sabe o quanto fucei na internet para conseguir esse contato), ele definiu bem o seu trabalho, e o motivo pelo qual ele não tenha ficado tão conhecido quanto merecia.

"Não consigo não escrever músicas sobre histórias, embora algumas vezes eu tenha me forçado a não fazer isso. Às vezes sou lógico demais quando escrevo músicas pop ou rock, mas isso é uma coisa boa quando você está escrevendo um musical. Eu era só o cara da banda quando eu era mais novo, mas acontece que eu era bom em escrever músicas sob encomenda para outros projetos, e eu gosto disso".

É de partir o coração que a tal "gripezinha" tenha impedido um cara tão legal de continuar fazendo o que gostava. Isto posto, por favor, fiquem em casa. Por você, pela sua família, seus vizinhos, desconhecidos, e por aqueles que te admiram.