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Zé do Caixão: as homenagens para o "pai do terror nacional" após sua morte

Do UOL, em São Paulo

19/02/2020 18h36

A morte de José Mojica Marins, de 83 anos, levou muitas pessoas a prestarem homenagens ao artista por meio das redes sociais. Conhecido popularmente como Zé do Caixão, o paulistano foi considerado um dos maiores cineastas brasileiros de todos os tempos e o "pai" do terror nacional.

Seu trabalho abordou outros gêneros também, tais como faroestes, dramas, aventura, dentre outros, incluindo filmes do gênero pornochanchada, no Brasil.

Procurados pelo UOL, cineastas e amigos de Mojica falaram, bastante emocionados, sobre a perda.

Marina Person, cineasta:

"Perdemos uma lenda. Um cara que conseguiu imprimir uma marca, um estilo numa época que isso era mal visto. Meu pai gostava muito dele. Quando ele falava do Mojica, tiravam sarro. Meu pai dizia que eram todos tontos, não entendiam o gênio. Ele era visionário. Hoje é fácil ver o Mojica e enxergar essa genialidade. Meu pai contava que o Mojica, uma vez, ganhou um livro sobre teoria cinematográfica. Ele mostrou para o meu pai e rasgaram juntos página por página. 'Isso não vai te servir de nada! Vai estragar o que você tem!', dizia o meu pai"

Kléber Mendonça Filho, cineasta, durante o Festival de Berlim:

"Ele foi um dos maiores diretores brasileiros na minha opinião, mas muito incompreendido no passado por fazer cinema de gênero. Nas últimas décadas, os filmes de gênero, que sempre foram importantes e maravilhosos, ganharam respeitabilidade. Para mim, o cinema de gênero é um dos exemplos mais extremos de fazer cinema, mas não significa que só considero filmes de gênero, porque o cinema é rico o suficiente para ser diversificado"

Marcelo Hessel, crítico de cinema:

"Em termos de legado, é um nome hoje muito forte. O cinema dele sai fortalecido desta tragédia. Tive contato com os filmes dele nos anos 1990, o trash estava na moda. Ele tinha um programa na Band com uma pegada meio cômica e caricata. Desde que nasci, o Mojica já era influente. Esse legado não se esgota. O grande público ainda o conhece por uma figura caricata, mas ele tem muito mais filmes além do Zé do Caixão. Queria que as pessoas assistissem para entender a importância do cinema marginal"

André Barcinski, cineasta e biógrafo de Mojica:

"O José Mojica Marins é um heroi do cinema brasileiro. É um criador 100% independente, autoral, um cara que nunca fez parte de nenhuma onda ou movimento. Fez tudo sozinho sempre e isso é o que destaca ele. Os filmes são completamente sem compromisso com o comercial, com o que as pessoas acham que é bom. Ele é um gigante da cultura brasileira. Um cara que criou um personagem que entrou para o folclore brasileiro. Assim como a Mula sem cabeça, o Saci, tem o Zé do Caixão. Ele teve o que muitos artistas brasileiros não tiveram que é o reconhecimento em vida. Nesses últimos 20 anos, ele pôde ver como era admirado e como o cinema dele era único e autêntico"

João Paulo Cuenca, escritor:

"Fui entrevistado por ele em 2014. Uma honra - até porque quem devia entrevistar o gênio era eu. Mas ele foi generoso, como sempre, e falamos de livros, cinema, política. Para mim, o Mojica é um dos maiores cineastas de todos os tempos, no Brasil está no mesmo panteão do Glauber (Rocha). Se fosse norte-americano, seria mais famoso - inclusive no Brasil. Haveria estátuas, museus e um parque temático dedicado a ele. "O Despertar da Besta" e À Meia-Noite Levarei Sua Alma" são clássicos do cinema, independente do gênero"

Rubens Mello, ator e amigo pessoal:

"A vida dele é praticamente minha vida. Eu era criança de colo, ele morava do lado da minha avó e às vezes, eu o via, ficava com medo. Com cinco anos, me apaixonei por terror e conheci os filmes dele. Nos anos 1990, ele estava procurando um sucessor para um filme e eu fiz o teste e passei. Mas não tinha como substituir. Ele já tinha encarnado o personagem Zé do Caixão para a vida. Acabamos nos tornando amigos, eu frequentava a casa dele, a família dele é como se fosse a minha família"

Carlos Primati, pesquisador da obra de Mojica:

"A importância do Mojica nao é só pro terror. Ele construiu uma carreira de cinema autoral. Era um cinema que não era politico, mas provocava a sociedade, a moral e bons costumes. Personagens que ousavam desafiar as crenças católicas, as autoridades incompetentes, os politicos corruptos. Ele era o grande mestre do cinema de terror brasileiro, o primeiro cara que fez terror no Brasil abertamente. Todos que abordam terror aqui no Brasil hoje, seja de qualquer estilo adoram o Mojica e agradecem a ele"

No Twitter, diversos fãs do artista usaram a plataforma para lamentar a sua morte e relembrar como a carreira dele impactou as suas vidas: