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Dupla de sucesso, Edy Britto e Samuel relembram as origens ciganas

A dupla sertaneja da Bahia Edy Britto e Samuel - Divulgação
A dupla sertaneja da Bahia Edy Britto e Samuel Imagem: Divulgação

Michelle Rabelo

Colaboração para o UOL, de Goiânia

05/02/2020 04h00

Poucas coisas fazem um apaixonado pela estrada desfazer as malas de vez. No caso dos irmãos Edy Britto e Samuel, foi uma paixão antiga a responsável pela mudança definitiva para Goiânia. Baianos, um nascido na cidade de Itambé e o outro em Vitória da Conquista, eles deixaram para trás a família e uma vida itinerante. Tudo em nome do sonho de viver da música sertaneja. Agora, quase dez anos depois, a dupla comemora o sucesso com faixas estouradas nas rádios, parcerias de peso e mais um DVD na conta.

Para trás ficou uma rotina um tanto quanto diferente. É que os irmãos nasceram em uma família de ciganos e nunca tiveram endereço fixo. Enquanto iam de um lugar para o outro, aprenderam a tocar violão e chamaram atenção de um tio, que incentivava o sonho e levava os meninos, então com 11 e 13 anos, para apresentações amadoras. Quando decidiram tentar a sorte em Goiânia e trocar a lona por um teto de gesso, vieram os primeiros perrengues e o sonho quase foi deixado de lado.

"Não conseguimos tocar nos barzinhos. O circuito era muito fechado e só havia espaço para as mesmas duplas. Foram dois anos passando por muitas dificuldades", relembra Edy, em entrevista ao UOL. O jogo virou com a entrada de Rick Sollo, da dupla Rick & Renner, na história. Da parceria saiu o clipe da música "Ponto G" e o sucesso levou os irmãos direto para palcos maiores. Do dia para a noite, estavam tocando em aniversários de cidades e festas de peão.

"Só não jogamos tudo para o alto porque acreditávamos muito no nosso talento. Tínhamos o que mostrar. Se existisse alguma dúvida, teríamos voltado", disse Edy, esclarecendo que a quantidade de artistas sertanejos que nasceram, cresceram e se fizeram em Goiânia nunca intimidou os irmãos —chamados durante muito tempo como a "dupla cigana".

O rótulo não incomoda. Talvez porque Edy, 32, e Samuel, 29, cresceram lidando com o estereótipo que os ciganos carregam. É o que garante Edy:

A gente sabe que existe curiosidade sobre a vida debaixo da lona. Por isso fazemos questão de responder, uma, duas ou mil vezes. É uma forma de brigar contra o preconceito e abrir caminhos para gerações futuras. Além do mais, temos muito orgulho da nossa origem cigana e da nossa história

De volta ao começo

O novo projeto, gravado em Goiânia no último dia 13 de janeiro, com a participação especial do baiano Tayrone, é o terceiro da carreira e chega no mercado com o selo da gravadora que produz nomes como Leonardo, Eduardo Costa e Cezar e Paulinho. Antes deste trabalho, batizado de "Na Moda", vieram "Ao Vivo em Goiânia" (2015) e "Ao Vivo em BH" (2019) —este segundo já com o apoio da Talismã Music e com a participação especial do ídolo, e padrinho da dupla, Eduardo Costa.

"Gravar aqui, com uma estrutura já profissional, na cidade que recebeu a gente com tanto carinho, é a finalização de um ciclo. Desde o início o sonho era viver da música e poder mostrar o nosso trabalho para o público. As coisas foram acontecendo aos poucos, mas hoje já podemos dizer que conquistamos o nosso espaço", contou Samuel minutos antes de subir ao palco e apresentar um repertório muito particular. "São músicas que a gente ama tocar e ouvir. Modões que estão presentes no nosso dia a dia."

Entre canções já conhecidas do público, como "Homem Chora", gravada, em 2015, com a participação de Gusttavo Lima, a dupla apresentou duas músicas inéditas: "Refém" e "Placar". Como já era esperado, por conta da fama de Edy e Samuel, as letras falam de amor, brigas e reconciliação. "A gente tem uma queda, na verdade um tombo, pela música romântica. Isso influencia tanto na hora de compor [apenas Edy escreve, sempre sozinho] quanto no momento de selecionar o que pretendemos gravar", explicam os irmãos.

Ai de mim que sou romântico

A queda pelo universo romântico acompanha Edy e Samuel desde sempre. O primeiro sucesso, por exemplo, foi "Ponto G", uma regravação da dupla Os Nonatos. A canção, amplamente interpretada no Nordeste, ganhou uma versão sertaneja apaixonada na voz dos irmãos e colocou os dois nas paradas musicais do gênero em 2014. "Ela é um dos nossos xodós. Tudo o que construímos até aqui veio depois que lançamos o clipe", recorda Samuel, se referindo ao vídeo produzido por Rick Sollo, da dupla Rick & Renner.

Na época, nem eles esperavam tamanha repercussão. "Gravamos num lugar emprestado, com uma única câmera e usando jaquetas do Rick. O enquadramento não mostra o corpo todo porque estávamos de bermuda e 'chinela'. Daria para imaginar que teríamos aquela resposta [foram mais de 25 milhões de visualizações no YouTube] e que aquela música iria nos levar para tantos outros lugares? Nunca! Foi um choque", garante Samuel.

No caso do mais novo DVD, o local escolhido foi o Velho Texas, bar famoso por receber shows sertanejos e disputado por quem está começando —como foi o caso dos irmãos quase dez anos atrás. Na época, Edy e Samuel tiveram muita dificuldade de conseguir espaço no universo dominado pelas mesmas duplas de sempre. Hoje, com o nome já consolidado, arriscam até colocar um pé para fora do sertanejo romântico clássico. É o caso da música "Refém", que tem influências do guarânia, estilo musical de origem paraguaia.

O que não mudou (ainda) é a forma com que os irmãos enxergam o sucesso. "Quando você vive do que ama, consegue sustentar sua família com aquele dinheiro e tem perspectivas de um futuro ainda mais bonito, já pode dizer que é bem sucedido. O resto é excesso. Já conseguimos tudo o que queríamos", garante Samuel. Ou quase tudo, na verdade: no campo dos sonhos ainda está guardada a vontade de dividir o palco com Leonardo, um dos nomes mais importantes da cena sertaneja goiana.

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