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Queridinho da crítica, Hot Chip volta ao Brasil pregando o valor das letras

Hot Chip: Al Doyle, Joe Goddard, Owen Clarke, Alexis Taylor e Felix Martin - Divulgação
Hot Chip: Al Doyle, Joe Goddard, Owen Clarke, Alexis Taylor e Felix Martin Imagem: Divulgação

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

05/11/2019 04h00

Atração do Popload Festival no próximo dia 15 de novembro, o Hot Chip é daqueles casos de banda "queridinha da crítica" que poucas vezes conseguiu romper a barreira do mainstream no pop. E não foi por falta de qualidade: a cada álbum lançado por Alexis Taylor e parceiros, incluindo o recente Bath Full of Ecstasy, os elogios se multiplicam entre fãs e na imprensa especializada.

Uma explicação possível: o mundo mudou, e há tempos o reconhecimento artístico deixou de ser item obrigatório no manual do sucesso. "Percebo que hoje existe uma falta de profundidade no que as pessoas estão dizendo na música pop. Não que isso aconteça com todos, mas parece que querem ser o mais cru possível", opina ao UOL, por telefone, Alexis Taylor, líder do Hot Chip.

A crueza a que Alexis se refere tem a ver com a falta de estofo em letras de grandes estrelas. No álbum Bath Full of Ecstasy, por exemplo, ele reflete sobre a vida, fala de empatia e da dificuldade de se relacionar com alguém viciado em drogas, em situação social de vulnerabilidade. Um tema caro a ele às autoridades brasileiras — ou que ao menos deveria ser. "É um assunto difícil de se falar em uma música, mas que, para mim, é muito difícil de ignorar."

UOL - O que o público brasileiro pode esperar do show do Hot Chip no Popload?

Alexis - Estamos tocando muitas músicas que nunca tocamos no Brasil antes. Há coisas antigas no nosso setlist, que é bem diferente do que fizemos das últimas vezes. E agora temos o baterista Leo Taylor, que não tocou em turnês anteriores. O palco também tem muito mais luzes e outras coisas. Espero que os brasileiros estejam empolgados em nos ver de novo.

Se o Hot Chip fosse uma banda pop dos anos 1980, tocando o mesmo synthpop, provavelmente seria mais conhecida do que é hoje. Isso te frustra de alguma forma?

Havia bandas nos anos 1980 fazendo coisas musicalmente similares ao que estamos fazendo agora, e elas conseguiram ser grandes. Mas não acho que o que estamos fazendo seja exatamente pop do padrão atual. Para quem faz música pop moderna, é muito difícil competir com artistas como Taylor Swift e Beyoncé, por exemplo.

Às vezes eu escuto música pop moderna e gosto de elementos dela. Mas mesmo quando quero gostar, percebo que existe uma falta de profundidade no que as pessoas estão dizendo. Não que isso aconteça com todos, mas parece que querem ser o mais cru possível. Isso me frustra um pouco, embora eu ainda escute boas produções por aí.

Os discos do Hot Chip costumam receber ótimas críticas na imprensa especializada. O quanto isso ainda é importante para vocês?

Já tivemos resenhas muito ruins e resenhas muito boas. Na maioria, ganhamos uma média de 4 estrelas em 5. Mas é curioso. Às vezes, a mesma revista que nos elogiou diz em seguida que o disco anterior não era tão bom. Que bons mesmo são os novos.

Ainda acho muito útil que as pessoas resenhem bem o seu disco, porque hoje as vendagens e os downloads são muito menores do que no passado. Convencer alguém a se importar o suficiente para ouvir seu trabalho é muito útil. Não ignoramos isso.

Há quem diga que o sentido da crítica se esvaziou, já que todo mundo tem uma opinião e pode compartilhá-la nas redes sociais. Você concorda?

Hoje todo mundo compartilha sua opinião, mas isso não significa que as pessoas vão lê-la. Acho que muita gente abre mão das críticas hoje porque o álbum fica imediatamente disponível para todos assim que é lançado, incluindo os jornalistas.

Você não precisa mais esperar a resenha para saber se vai ou não gastar seu dinheiro com um disco. Você pode descobrir sozinho. Ao mesmo tempo, a maioria das pessoas escutam o disco pelo celular, fazendo outras coisas, e dificilmente param para escutar o álbum inteiro. As coisas mudaram muito.

A banda inglesa Hot Chip - Divulgação
A banda inglesa Hot Chip
Imagem: Divulgação

Em A Bath Full of Ecstasy, você trata de temas sociais. Fala de pessoas em situação de rua, pessoas viciadas em drogas. Por que resolveu tratar disso agora?

Eu compus sobre a experiência de conhecer alguém passando por problemas difíceis. Queria apenas falar sobre a ideia de um relacionamento que poderia ser afetado pelo vício em drogas. Ou por qualquer outro tipo de vício. Qualquer tipo de comportamento destrutivo.

Também estava pensando na sociedade em geral, que muitas vezes abandona pessoas que não têm lar, que são viciadas. É um problema sério e muitas vezes invisível. Queria falar de compaixão e esperança para quem pensa diferente de mim. É um assunto difícil de se falar em uma música, mas que, para mim, é muito difícil de ignorar. E definitivamente não é uma questão fácil de se resolver.

POPLOAD FESTIVAL 2019

Com shows de Patti Smith, The Raconteurs, Hot Chip, Tove Lo, Cansei de Ser Sexy, Little Simz, Khruangbin, Boy Pablo, Luedji Luna e o bloco Ilê Aiyê
Quando: 15 de novembro
Onde: Memorial da América Latina (Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664 - Barra Funda, São Paulo)
Horários: Abertura dos portões às 10h; início dos shows às 10h45
Ingressos: pista R$ 580 (inteira), pista premium R$ 800 (inteira)
Onde comprar: www.ticketload.com e bilheteria do Unimed Hall

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