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Coringa: Joaquin Phoenix é ovacionado na estreia e já sai como favorito ao Oscar

Bruno Ghetti

Colaboração para o UOL, em Veneza

31/08/2019 10h26

Joaquin Phoenix já está acostumado a colher elogios em festivais, mas talvez nunca tenha recebido recepção tão calorosa como em Veneza, neste sábado. Protagonista de Coringa, aguardado filme de Todd Phillips sobre as origens do grande oponente do herói Batman, o ator foi a estrela mais aplaudida pela imprensa até o momento nesta edição da mostra italiana. Já sai até como favorito ao Oscar de melhor ator do ano que vem.

O Festival de Veneza estabelece um embargo para que jornalistas revelem detalhes e emitam comentários sobre os filmes só depois que começar a sessão de gala, com a presença do elenco. Por isso, não cabe aqui colocar mais especificidades sobre a trama, além do básico: Coringa mostra como o atrapalhado Arthur Fleck (Phoenix), aspirante a humorista, mas cuja carreira jamais decolou por problemas psicológicos, tornou-se o grande vilão Coringa, o terror da caótica metrópole Gotham City.

Sofreu muito: com a mãe doente, na infância triste, com o bullying da sociedade por ser "esquisitão". Mas fez da tristeza um motivo para gargalhar -e, sublimando todo o sofrimento pelo qual passou, juntou forças para se tornar uma figura proeminente na cidade.

"Para mim, o grande atrativo de fazer esse filme é esse personagem e a chance de fazer um projeto do nosso jeito. Então, não segui caminhos já percorridos", disse Phoenix, em conversa com a imprensa, afirmando que não se preocupou em observar as versões anteriores do Coringa, já feitas por Jack Nicholson, Heath Ledger e Jared Leto.

Zazie Beetz, Joaquin Phoenix e Todd Phillips na estreia de Coringa, em Veneza - Alberto PIZZOLI / AFP
Zazie Beetz, Joaquin Phoenix e Todd Phillips na estreia de Coringa, em Veneza
Imagem: Alberto PIZZOLI / AFP

"O que me atraiu [no projeto] é tão difícil de definir... Algumas vezes eu me identificava com algum traço ou motivação dele, mas também quis deixar algo de misterioso. A cada dia, descobria algo novo sobre esse personagem, e isso aconteceu até o último momento de filmagem", conta o ator.

Phoenix perdeu cerca de 20 quilos para dar vida ao personagem. Ele surge desde o início como um homem em tratamento psiquiátrico, mas o longa não especifica qual transtorno exatamente ele tem.

"Assim que identifiquei em Arthur um tipo exato de personalidade, quis uma liberdade de mudá-la para algo que não fosse tão identificável. Não queria que um psiquiatra diagnosticasse o problema exato dele", diz Phoenix.

Antes de se tornar o Coringa, o personagem anda o tempo todo com um caderno em que há um estoque de piadas. Ao mesmo tempo, é também uma espécie de diário de Arthur, em que exprime aquilo que não consegue transmitir por meio do discurso falado.

"Ter um diário com piadas foi importante", diz Phoenix, que começou o filme com um caderno em branco em mãos. "Eu não sabia o que escrever ali e pedi sugestões, então comecei a escrever e, de repente, coisas começaram a sair, e isso foi parte da minha descoberta do personagem."

Mas a maior marca do Coringa criado por Phoenix é sua gargalhada, que o ator repete várias vezes, com algumas alterações, de acordo com o estado de espírito do personagem.

"Antes mesmo de eu ler o script, Todd me falou o que queria, me mandou alguns vídeos e me descreveu que o riso do Coringa deveria ser algo doloroso, algo que o Coringa tenta expressar. Ficamos tentando pensar em como seria o riso, pedi ajuda a Todd para testar cada um desses risos. Demorou muito tempo [para encontrar os risos mais adequados], eu não quis que fosse uma gargalhada forçada", explica Phoenix.

O diretor complementa: "No filme, há uns três ou quatro tipos de riso: um de aflição, um de quando Arthur tenta ser parte de algum grupo e o do final, que é um riso de alegria intensa".

Alberto PIZZOLI / AFP
Imagem: Alberto PIZZOLI / AFP

O filme tem uma premissa que lembra o longa O Rei da Comédia (1983), de Martin Scorsese, em que Robert De Niro vive um sujeito atordoado que sonha em se tornar comediante. Para conseguir o que deseja, planeja o sequestro de seu ídolo televisivo. De Niro, aliás, faz uma participação em Coringa, na pele de um apresentador de TV em cujo programa Fleck sonha em fazer números cômicos.

Mas Phoenix diz não gostar de chamar o seu Coringa de "atormentado". "Acho que me interessou a luz de Arthur, não só seu lado obscuro, mas sua luta para encontrar a felicidade, para se sentir conectado", diz o ator.

Todd é conhecido por comédias, como Se Beber, Não Case, e foi considerado uma escolha inusitada para o projeto. "É um filme com tom bem diferente dos outros que já fiz", diz o cineasta. "Fui influenciado por filmes dos anos 1970, que eram grandes estudos de personagens. Mas pensei que também poderia mergulhar em um como Coringa e criar alguma coisa especial".

O diretor assume que o universo das HQs nunca foi o seu forte. "Não sei nada dessa competição [da DC] com a Marvel, não sou desse mundo [dos quadrinhos]. O centro do projeto era ter uma nova abordagem sobre esse tipo de filmes [de heróis]."

E assim fez um filme dramático, sobre um personagem com um mundo interior em colapso. "O objetivo dele [o Coringa] era genuinamente fazer pessoas rirem e trazer alegria ao mundo. Atrapalhou-se no caminho, mas era isso o que queria."

Coringa estreia mundialmente no dia 3 de outubro.

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