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A trágica história de Sharon Tate: muito mais do que a vítima de um crime brutal

A atriz Sharon Tate em foto de 1965 - Silver Screen Collection/Getty Images
A atriz Sharon Tate em foto de 1965
Imagem: Silver Screen Collection/Getty Images

Beatriz Amendola

Do UOL, em São Paulo

09/08/2019 04h00

Era Uma Vez... Em Hollywood, novo filme do diretor Quentin Tarantino, traz uma cena que já entrou para a história:

Sharon Tate, interpretada por Margot Robbie, entra em um cinema de rua para assistir ao filme Arma Secreta contra Matt Helm (1968), em que a atriz contracena com Dean Martin. Quem está na tela é a própria Sharon, em um trecho do filme original que é exibido enquanto a personagem de Margot se encanta ao observar a reação do público.

É um momento mágico e delicado que traz um novo olhar sobre Sharon, que entrou tragicamente para a história do cinema como uma vítima dos fanáticos da família Manson. Aos 26 anos, grávida de seu primeiro filho com o diretor Roman Polanski, ela foi brutalmente assassinada em sua residência na Cielo Drive, em Los Angeles, ao lado de seus amigos, um crime brutal que completa hoje 50 anos.

Sharon Tate, no entanto, foi muito mais do que uma vítima e mais do que o símbolo sexual em que tentaram transformá-la.

O começo

Nascida em 24 de janeiro de 1943, Sharon Tate era a filha mais velha do coronel Paul Tate e sua mulher, Doris. Com um pai militar, ela e a família mudaram de cidade várias vezes antes de chegarem a Vicenza, na Itália, onde a atriz iria se formar no ensino médio.

Tate não tinha o sonho de ser atriz. Como dona de uma beleza exuberante, porém, ela participou de vários concursos de beleza e conseguiu alguns trabalhos como modelo, em um caminho que a levou a ser contratada como figurante de As Aventuras de Um Jovem (1962). No set do filme, também na Itália, ela encantou o astro Richard Beymer, de quem viria a ficar noiva.

Foi Beymer quem a apresentou ao produtor Martin Ransohoff - que, reza a lenda, teria chorado ao conhecer a atriz e optou por contratá-la imediatamente para sua produtora, a Filmways. Por muito tempo, porém, Ransohoff só permitiu que a atriz fizesse papéis menores na TV, em produções como A Família Buscapé e O Agente da Uncle.

"Por 30 meses, ninguém fora da Filmways sabia que eu existia", disse Tate em entrevista resgatada pelo jornal The Daily Telegraph. "Me disseram que eu era um segredo. Me ensinaram a falar, andar, dançar, esgrima, calistenia e, claro, atuação. Às vezes, o Sr. Ransohoff me dava um papel na TV, mas com uma peruca negra e outro nome. As pessoas estão me chamando de 'celebridade instantânea', mas isso não é verdade. O Sr. Ransohoff me descobriu três anos atrás. Ele vinha me preparando para o estrelato. Sabe, como Cinderella, como em Hollywood antigamente".

Sharon Tate e Romans Polanski no dia de seu casamento, em Londres - Bettmann Archive/Getty Images
Sharon Tate e Romans Polanski no dia de seu casamento, em Londres
Imagem: Bettmann Archive/Getty Images

Revelação

Em 1967, a carreira de Tate no cinema começou a deslanchar. Ela apareceu em O Olho do Diabo, Não Faça Onda e A Dança dos Vampiros - todos filmes de pouco sucesso comercial. No mesmo ano, porém, ela teria seu grande destaque em O Vale das Bonecas, adaptação do romance homônimo de Jacqueline Susann que se tornou um sucesso de público nos Estados Unidos.

No papel de Jennifer, uma mulher que recorre aos seus dotes físicos para sustentar o marido hospitalizado, a atriz chamou atenção e conquistou uma indicação ao Globo de Ouro de melhor revelação.

Foi o que ela precisava para cortar os laços com Ransohoff. "Eu o amava, e eu aturava todas as bobagens dele; praticamente vivia em uma prisão", disse ela, em 1968, à L'Europeo Magazine. "Eu era proibida de sair à noite, de ir ao cinema, de ir ao teatro, de ser fotografada, proibida de tudo. Eu me tornei a marionete que ele queria".

Nesse momento, surgiu Arma Secreta Contra Martin Helm, que lhe renderia vários elogios da crítica especializada por sua atuação como uma atrapalhada espiã. Tate era, definitivamente, uma estrela em ascensão - e sua vida pessoal também estava movimentada, já que também em 1968 ela se casou com Polanski, por quem havia se apaixonado no set de A Dança dos Vampiros.

"Sharon adorava Roman. Ela estava absolutamente apaixonada. Roman e Sharon tinham uma verdadeira história de amor", disse a irmã dela, Debra, em entrevista ao New York Times em 2018.

O cineasta, a quem a atriz definia como "um gênio", era bem direto quanto aos seus desejos para a carreira de Sharon - o que inclusive o colocou em rota de colisão com Hansohoff antes do rompimento da artista com o produtor.

"Se Sharon quisesse parar de atuar, eu não a faria mudar de ideia", disse ele em 1967. "Se ela continuar a atuar, quero que ela seja uma boa atriz. Ela não teve a chance de realmente mostrar seu talento. Até o momento, ela só fez um filme com um bom diretor, e era eu". Segundo rumores que circulavam à época, o relacionamento dos dois era marcado por controle - o que foi negado pela irmã dela.

Teaser dublado de Era Uma Vez em Hollywood

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Mais que um símbolo sexual

Os papéis dados a Sharon Tate se apoiavam, em grande parte, em sua beleza. A atriz, no entanto, era ácida ao falar sobre o rótulo de símbolo sexual que tentavam impor a ela.

Sharon Tate rejeitava o título de símbolo sexual - Keystone/Getty Images
Sharon Tate rejeitava o título de símbolo sexual
Imagem: Keystone/Getty Images

"Tentaram me transformar em um símbolo sexual, uma pata loira. Hollywood tem só alguns estúdios, e todos são comandados por homens velhos. Eles têm certeza de que, para entreter o público, você tem que criar uma estrela loira com lábios brilhantes, quadris redondos e sem cérebro", disse ela à revista Cine Revue, em 1968.

Um ano antes, ela havia falado abertamente sobre como havia se tornado "uma mercadoria" quando foi contratada pela primeira vez. "Ninguém se importava comigo, como Sharon. As pessoas esperam muito de uma pessoa atraente".

A tragédia

A poucas semanas de sua morte, Tate flertava com a ideia de parar de atuar, como contou à revista alemã Jasmin Magazine. "Eu não tenho essa ambição. Eu espero que o meu filho seja a criança mais bonita e mais saudável do mundo. E ele vai ser feliz. Uma pessoa feliz que pode ver, entender e aproveitar as coisas lindas da vida. É isso que espero também para a minha vida".

Esse sonho, porém, encontrou um fim abrupto na madrugada de 8 para 9 de agosto de 1969. Depois da meia-noite, quatro seguidores de Charles Manson invadiram a residência de Tate e Polanski na Cielo Drive, em Los Angeles. A facadas, eles mataram a atriz, seu amigo e ex-namorado Jay Sebring, o roteirista Wojciech Frykowski e Abigail Folger, herdeira do ramo de café e namorada de Frykowski. O diretor, à época, se encontrava em Londres.

Sharon Tate seria vista nas telas uma última vez com Eram 13... Mas Faltava Uma, que estreou em 1970, ofuscado por seu assassinato.

Foi a marca deixada pelo crime que, no fim das contas, serviu de combustível para Tarantino trazer a atriz para seu Era Uma Vez... Em Hollywood. "Eu fiz muita pesquisa sobre Sharon, e fiquei apaixonado por ela", disse o cineasta à Entertainment Weekly. "Ela aparentemente era uma pessoa incrivelmente doce. Quando você fala com todos os amigos, mesmo conhecidos, dela, eles contam a mesma história sobre uma mulher que não era afetada por sua própria beleza, que era apenas uma boa pessoa, e gentil".

"No filme, nós dirigimos com ela por Los Angeles, completamos algumas tarefas. Sharon está só vendo onde este dia pode levá-la. Eu queria mostrar estes momentos de Sharon antes do assassinato, para que começássemos a pensar nela como mais do que só uma vítima".