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Febem, crack e Paulo Freire: A jornada de Nego Bala pelo funk consciente

Larissa Zaidan/Divulgação
Imagem: Larissa Zaidan/Divulgação

Amanda Nogueira

Colaboração para o UOL

06/08/2019 04h00

Nego Bala tinha 18 anos quando foi preso pela última vez. O jovem, criado na Boca do Lixo, em São Paulo, sob a tutela de um vendedor ambulante e de uma usuária de crack, já havia sido detido na adolescência por crimes de roubo, mas pensou que aquela passagem pela prisão determinaria seu futuro. "Não vou mais conseguir emprego", diz ter pensado na época.

No período de um ano que ficou preso, recuperou um antigo plano de se tornar cantor de funk. Enclausurado, compôs a música Cifrão In'Pé e lançou com um clipe gravado na Penitenciária Desembargador Adriano Marrey Guarulhos 2. A letra menciona as passagens do artista pela Fundação Casa (antiga Febem) e remete à descoberta da expressão pela rima.

Afinal, foi nas aulas de percussão, ritmo e poesia de sua primeira passagem pela instituição, seis anos antes, que ele conheceu a fundo obras de artistas como Racionais MCs, Criolo e Felipe Boladão. "O professor Café mostrou como a música é um ato político, algo libertador que pode representar a nossa realidade. Eu já rimava, mas ali vi que era isso mesmo que eu queria fazer."

Nego Bala na Penitenciária Desembargador Adriano Marrey Guarulhos 2 - Larissa Zaidan/Divulgação
Nego Bala na Penitenciária Desembargador Adriano Marrey Guarulhos 2
Imagem: Larissa Zaidan/Divulgação

O MC conta que sempre recebeu apoio dos moradores da comunidade e dos companheiros de prisão. Suas rimas eram recebidas com palmas e entoadas durante os dias de visita.

"A quebrada foi um braço de extensão para eu continuar cantando. Quando fui solto, o Gustavo [Santos, empresário e sócio] me perguntou onde queria cantar. Eu disse: 'Nas cadeias e na Febem'", lembra ele, que faz visitas quinzenais nas divisões regionais da fundação, onde canta e joga bola com os internos. "Estou longe de ser exemplo, é uma questão de mostrar que as coisas não acabam ali."

Em liberdade há dois anos, Nego Bala, hoje com 21 anos, começa a surgir também na cena noturna de bairros nobres de São Paulo, subvertendo o gênero ao cantar acompanhado de banda. E ainda neste ano, ele planeja lançar mais dois singles (Fumando um Verde, produzida por Enrico Manzano, e Terapia) e protagonizar um curta-metragem inspirado em sua vida, chamado Na Boca do Lixo, dirigido pelo fotógrafo Danilo Arenas. Um álbum com mais seis faixas inéditas está sendo pensado para 2020.

Raízes sertanejas

Um entre dez irmãos, Nego Bala conta que começou a rimar ainda criança, usando seu nome Marcelo Abdinego Justino Generoso. Aos 5 anos, fez improvisos durante um culto no Ministério do Belém da Assembleia de Deus, igreja frequentada por seu pai, Altair.

A história de sua família com a música vem de muito antes. Segundo Bala, seu avô paterno teria trazido os filhos de Penápolis a São Paulo para tentar a sorte como um grupo sertanejo, sendo apresentados para o então empresário da dupla Milionário e José Rico.

Um imbróglio familiar separou os irmãos, e Altair passou a tocar na rua, engraxar sapatos e vender acessórios no farol, onde conheceu a "moça do rodinho" [limpadora de para-brisas] Edna. Ela se tornou a mãe de dois dos seus filhos, Marcelo e Vanessa.

Marcelo tinha 1 ano quando Edna se viciou no crack. Seus pais se separaram e Altair passou a ter a guarda do filho. A família chegou a morar debaixo do Vale do Anhangabaú e nos arredores da Av. Paulista antes de se mudar para as áreas da Cracolândia, onde o MC ainda mora.

Bala conta que se enveredou pelo crime para ajudar a sustentar a família e que, mesmo seu pai sendo contra, não o abandonou. "Você vê sua mãe usando crack, você vendendo drogas e o cara sempre no certo. Ele sempre firme na base, sempre amando bastante", diz. "Nessa minha vida louca pode ter faltado tudo das mãos do meu pai, até mesmo comida e teto, mas ele nunca deixou faltar amor e acolhimento. Eu falei: 'Tenho que mudar por esse cara, ou não me perdoo se um dia ele morrer e eu não conseguir'."

Larissa Zaidan/Divulgação
Imagem: Larissa Zaidan/Divulgação

Funk consciente

Nego Bala afirma que chegou a receber proposta da GR6, maior escritório paulista de agenciamento de artistas de funk, mas discordou do contrato. "Foi bem difícil pra mim, que sou funkeiro nato, mas eu não queria ser só mais uma fórmula."

O MC estreou de forma independente com a música Buraco no Céu, lançada em novembro de 2018. A composição traz uma estética pouco comum no funk: violão, arranjo de cordas e piano se atrelam à característica batida do gênero. Ele quer contemplar diferentes ritmos em sua estética musical. "Sempre imaginei um funk com influência do jazz, do blues, do maracatu. É tudo a mesma coisa, só muda a rítmica. O jazz é um ritmo negro pra caramba, o funk também. É a nossa história". Ele não descarta, no entanto, alguns modismos, como o andamento em 150 bpm (batidas por minutos), que virou mainstream.

Já em suas letras, Bala parece seguir uma tendência estabelecida desde 2017 pelo diretor e empresário Konrad Dantas, o Kondzilla, dono do maior canal brasileiro do YouTube, de onde saíram hits como Olha a Explosão, de Kevinho, e Bum Bum Tam Tam, de Fioti. A ideia, diz, é criar letras com uma linguagem menos explícita, que possa ser ouvida por um público amplo, inclusive infantil. Mas ele vai além, explicando o que chama de "funk consciente": uma música de empoderamento que traz informação além das temáticas comuns do gênero, como o cotidiano nos bailes funk.

"Não vim pra pregar, mas escrevo as letras pensando que uma criança vai ouvir. Jamais vou falar 'senta, senta, bocetuda', vou falar 'vem, vem, bonitona'. Eu canto pra todos, mas existe um público mais carente de informação e eu canto pra eles."

Bíblia do oprimido

Letras conscientes não são necessariamente políticas, afirma Bala.

Não é bom polarizar as coisas. A vida não é só militar e ser ativo em coisas que a gente quer que mude. A arte não foi feita só pra isso, foi feita também para nos livrar disso.

"Sou um cara que não gosta de polemizar, de levantar bandeiras, porque tem gente que me vê como ameaça. Preciso me proteger para proteger os meus". Ele critica, por exemplo, a prisão do DJ carioca Rennan da Penha, idealizador do Baile da Gaiola, condenado por associação ao tráfico de drogas. "O moleque ser taxado criminoso por levar arte pra comunidade? É maior patifaria, sistema de destruição de sonhos."

Para Bala, o ocorrido é uma tentativa de descredibilizar a cena funkeira nacionalmente. "O mercado está abrindo espaço, mas muitos vão dizer que você, por ser funkeiro e tocar num baile que tem droga, e todo baile tem, é traficante. É um modo de desempoderar a gente."

Nego Bala diz que aprendeu sobre empoderamento lendo A Pedagogia do Oprimido, do educador e filósofo brasileiro Paulo Freire, atraído por um trecho na capa que dizia: "Quem, melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora?".

"Isso me ganhou. É a Bíblia do oprimido, ele trouxe a palavra empoderamento e eu comecei a desconstruir e construir meu mundo até perceber que sou protagonista da minha história."

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Imagem: Larissa Zaidan/Divulgação

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