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Cantora pede justiça em música sobre amiga Marielle Franco: "Não apaguei o celular dela"

Júlia Guimarães/Reprodução/Instagram
A cantora pernambucana Doralyce, amiga de Marielle Franco e autora de música sobre o assassinato da vereadora Imagem: Júlia Guimarães/Reprodução/Instagram

Paulo Pacheco

Do UOL, em São Paulo

2019-03-14T10:35:42

14/03/2019 10h35

O assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) completa hoje um ano e a cantora Doralyce compôs uma música pedindo justiça à amiga. "O Bicho" ganhou clipe no último dia 11, véspera da prisão de dois suspeitos de terem participado do crime, que também vitimou o motorista Anderson Gomes no Rio de Janeiro. O registro faz parte de um show realizado em 9 de novembro, no Rio, pela plataforma Sofar Sounds, que publicou o vídeo.

"O Bicho" está disponível em plataformas de streaming como Spotify, misturada com outra música, "Me Perguntaram Por Quê". Ela foi gravada em estúdio pela primeira vez para o próximo álbum de Doralyce, "Pílula Livre", com previsão de lançamento para abril. Na canção, ela pede o fim da Polícia Militar, critica o Bope (tropa de elite da segurança do Rio) e exalta o legado de Marielle.

"Ela venceu o racismo, venceu a pobreza, entrou na Academia mesmo sendo mãe solteira, foi eleita entre os nossos defendendo o povo preto. Quatro tiros na cabeça não apagam os seus feitos, e a mídia trata isso como se fosse normal. De quem são as balas que mataram Marielle?", diz um trecho.

Para a cantora, o assassinato está longe de ser solucionado, mesmo após a prisão do policial reformado Ronnie Lessa, apontado como autor dos disparos contra Marielle e Anderson, e o ex-policial militar Élcio Vieira de Queiroz, que estaria dirigindo o carro usado no crime.

"Usamos a música porque é a forma mais fácil de explicar essas coisas. A notícia mostra, mas as palavras são difíceis. A ficha da galera ainda não caiu que o vizinho do Bolsonaro é assassino da Marielle. Como um presidente sofreu uma tentativa de assassinato, e todo mundo ficou preocupado, e do lado dele mora um homicida?", questiona.

"Não apaguei o celular de Marielle"

Ativistas contra o racismo e em defesa dos direitos humanos, Doralyce e Marielle Franco se encontravam em shows e manifestações. Hoje, a cantora está presente em atos pela memória da vereadora. A artista, que falou com a amiga pouco antes da morte, mantém o luto e confessa não conseguir nem apagar o celular dela de sua agenda.

Reprodução/Instagram
Marielle Franco e a cantora Doralyce Imagem: Reprodução/Instagram
"Marielle ia aos meus shows. Eu tinha o telefone dela, falei com ela em 14 de março, trocávamos mensagens. Era uma pessoa muito querida. A sensação é de querer ligar e não poder falar com ela, é de não apagar o telefone, e eu não apaguei o número da Marielle no celular. É difícil lidar com esse tipo de perda", admite.

Doralyce sente necessidade de "desmascarar as verdades do sistema", como os privilégios da "elite branca" e o racismo estrutural presente no Brasil em músicas como "O Bicho" e "Miss Beleza Universal", tocada no "BBB19". Porém, a cantora teme ser morta por colocar o dedo nas feridas da sociedade.

Estou com medo porque Marielle morreu. Ela só morreu porque questionou o poder militar. Tenho medo de levar um tiro e as pessoas dizerem que morri porque falo demais. Porque falo a verdade, não é falar demais. Jesus morreu por falar demais, porque ia aos lugares pregar para as pessoas: 'Esse lugar é passageiro; o que temos de valor para preservar e passar às pessoas é o amor. Amem o próximo como se fossem vocês mesmos. Amem Deus sobre todas as coisas, pois Deus é amor'. Jesus foi crucificado por defender ideias como essas. Como uma sociedade cristã é conivente com um assassinato? Doralyce.