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Marcelo Falcão quer falar de educação antes de debater legalização da maconha

Rodolfo Magalhães/Divulgação
Marcelo Falcão lança novo disco solo "VIVER (mais leve que o ar)" Imagem: Rodolfo Magalhães/Divulgação

Felipe Branco Cruz

Do UOL, em São Paulo

2019-02-15T11:03:07

15/02/2019 11h03

No clipe de "Só Por Você", Marcelo Falcão acende um isqueiro e solta uma grande baforada de fumaça. Na letra, o ex-vocalista d'O Rappa canta "só com você eu sinto me curar". Não por acaso, a faixa tem significativos 4:20 de duração, um número que faz referência ao consumo da maconha.

A música, que está no primeiro disco solo de Falcão, "VIVER (mais leve que o ar)", que chega hoje às lojas e em todas as plataformas de streaming, não fala abertamente sobre a erva, mas a mensagem de Falcão foi dada.

Por que, então, não falar abertamente sobre a descriminalização da maconha? "Porque primeiro precisamos falar sobre o que a gente mais precisa: educação", diz o cantor, que na infância achou que tivesse epilepsia e fez um tratamento pesado contra a doença, que poderia ter sido amenizado com o uso medicinal da erva.

"Eu tenho amigos que têm condições de fazer o óleo medicinal. Conheço um montão de gente que depende desse tipo de medicamento. Eu sei exatamente como essas pessoas se sentem por eu já ter me sentido assim achando que eu poderia ter tido epilepsia", afirmou. "Mas eu sou um rasta nacional e tenho a convicção de que, primeiro, precisamos melhorar a educação e a saúde. Para falar sobre esse assunto, só com educação. Do contrário, vão nos julgar dizendo que estamos querendo legalizar uma coisa que, ainda, é crime".

Paixão por vinil

A outra paixão de Falcão é o vinil, refletida na capa do disco, que remete a um envelope amassado de LP velho.

"Sou um grande colecionador de vinil e amo reggae. Viajo muito para a Jamaica, visito Trenchtown, em Kingston, para ver shows e comprar LPs para a minha coleção. Tenho grandes amigos DJs jamaicanos", disse. "Meu novo disco tem esse viés de reggae. Foi por isso que fiz questão de incluir uma big band de soul, com naipes de metal".

Divulgação
Capa de "VIVER (mais leve que o ar)" Imagem: Divulgação
Nos próximos dias, Falcão vai mandar prensar uma leva de LPs de seu novo álbum. "Vou fazer a venda direta no meu site. Faço questão. E os primeiros discos que saírem, vou dar de presente para vários DJs do país".

Ao contrário do Rappa, em que as letras versavam sobre mazelas políticas e ácidas críticas sociais, em seu primeiro álbum solo, Falcão canta sobre amor, vida, casamento e os fãs. O rock pesado de outrora ficou de lado e ele entrega faixas com mais reggae, dub e ska, alinhadas com suas influências musicais atuais.

Religiosidade

Todas as faixas do álbum foram compostas por Falcão, exceto a última, que é a Oração de São Francisco. A religiosidade de Falcão pode ser sentida em todo o disco, reflexo da sua vida pessoal. No antebraço, o cantor carrega tatuado o nome "Jesus Cristo", além de outras imagens santas, e no pulso, ostenta uma pulseira com a cruz de São Bento. "Para proteger a minha voz".

"Fui batizado católico. Minha mãe é muito católica. Mas eu sou um curioso em religião. Procuro sempre qual vai levar o homem para o melhor lugar sem pedir nada em troca. A oração de São Francisco, por exemplo, é comungada por várias religiões", afirmou.

Falcão contou que só ficou à vontade em explorar toda a sua religiosidade quando notou que seus ídolos Jorge Ben Jor e Jorge Aragão gravaram músicas com o tema. "Jorge Ben tem a Oração de São Jorge e o Jorge Aragão fez aquela maravilhosa interpretação de Ave Maria no cavaquinho. Quantas almas eles não trouxeram para o universo deles?".

Rodolfo Magalhães/Divulgação
O cantor Marcelo Falcão Imagem: Rodolfo Magalhães/Divulgação

Marcelo Yuka

O disco de Falcão sai quase um mês depois da morte de seu ex-colega de banda, Marcelo Yuka. Sobre a morte do amigo, Falcão contou por que não foi ao velório.

"Sou muito respeitoso. Vivi sete anos maravilhosos com o Yuka no Rappa. Mas, depois que ele saiu da banda, a gente parou de se falar. Eu estava 18 anos sem falar com ele. Perdemos um grande cara, tenho ele guardado no meu coração, mas eu jamais desrespeitaria a família. Não dá para ficar 18 anos sem falar com uma pessoa e depois aparecer no velório", contou. "Além disso, eu não lido bem com a morte. Ainda estou aprendendo a perder pessoas queridas. Fiquei muito abalado com a morte do Ricardo Boechat".

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