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Bernardo Bertolucci: Como lidar com a herança de um artista violento?

Bernardo Bertolucci em 1970 - Divulgação
Bernardo Bertolucci em 1970 Imagem: Divulgação

Caio Coletti

Colaboração para o UOL

29/11/2018 04h00

Com a morte do cineasta italiano Bernardo Bertolucci aos 77 anos, nesta segunda-feira (26), após longa batalha contra o câncer, o mundo do cinema encara um dilema importante: como conciliar o imenso legado cultural de um artista com suas atitudes abusivas?

É impossível falar de Bertolucci sem mencionar "Último Tango em Paris", um de seus filmes mais célebres, lançado em 1972. E é impossível falar de "Último Tango em Paris" sem contar a polêmica em torno da cena de estupro protagonizada por Marlon Brando e Maria Schneider.

Vale esclarecer o que é fato e o que é mito na história dos bastidores da cena: ela estava, sim, no roteiro original do filme, quando Schneider aceitou o papel; e o sexo nela foi simulado, o que significa que Brando nunca de fato penetrou a atriz. Isso não significa que o processo de filmá-la não tenha sido abusivo.

Ultimo Tango em Paris - Reprodução - Reprodução
Cena de "O Ultimo Tango em Paris"
Imagem: Reprodução

Segundo o próprio Bertolucci, o que Schneider não sabia é que haveria o uso de manteiga como "lubrificante" na cena. "Eu me senti humilhada e, para ser sincera, tive um pouco a impressão de ser violentada, por Marlon e Bertolucci. No fim da cena, Marlon não veio me consolar, ou se desculpar. Felizmente, uma tomada foi suficiente", desabafou a atriz em entrevista ao "Daily Mail", em 2007. 

À luz de tudo isso, celebrar ou não a herança gigantesca de Bertolucci, um dos grandes cineastas italianos do século 20, é uma decisão tanto ética quanto artística. A dor que ele infligiu a Schneider esmaece diante de sua obra, ou é a obra que perde o sabor diante da consciência do que ele fez?

A questão deve ser respondida no íntimo de cada apreciador do cinema, e fugir dela hoje pouco adianta. A morte de Bertolucci sinaliza uma era em que teremos que resolver dilemas semelhantes com artistas como Woody Allen e Roman Polanski, ambos já na casa dos 80 anos de idade.

Não se trata de fugir da realidade: a obra destes homens existe, e sua influência no cinema é ampla e irreversível. A escolha que precisamos fazer é se continuaremos a elogiá-los e venerá-los em um quase culto de personalidade.

O diretor franco-polonês Roman Polanski apresenta o filme "D'Après une Histoire Vraie" fora da competição do Festival de Cannes - Valery Hache/AFP Photo - Valery Hache/AFP Photo
Polanski no Festival de Cannes em 2017
Imagem: Valery Hache/AFP Photo

Dentro de um set de filmagens, cineastas têm o poder de guiar o processo criativo e a ética de trabalho. Na história do cinema, alguns diretores abusaram deste poder para colocar seus atores em situações constrangedoras e/ou abusivas para "extrair deles a melhor performance possível".

Stanley Kubrick levou Shelley Duvall à exaustão física e emocional com suas dezenas de tomadas para uma mesma cena em "O Iluminado". O próprio Polanski (condenado por um estupro acontecido fora dos sets de filmagem) impediu Faye Dunaway de fazer intervalo para ir ao banheiro em "Chinatown". Alfred Hitchcock obrigou Tippi Hedren a aguentar ataques de pássaros reais por horas em "Os Pássaros". 

Cena de "Veludo Azul" com Isabella Rossellini - Divulgação - Divulgação
Cena de "Veludo Azul" com Isabella Rossellini e Dennis Hopper
Imagem: Divulgação

Colocar estes homens como exemplos em sua área, ao celebrarmos seus feitos sem restrição, pode trazer consequências adversas para o futuro do cinema e de quem trabalha nele -- e a verdade é que existe uma alternativa ao comportamento que eles demonstram.

Isabella Rossellini conta que, no set de "Veludo Azul", onde interpretou uma mulher abusada, o clima estabelecido pelo diretor David Lynch era diametralmente oposto ao da trama do filme.

"Era um set muito caloroso", disse em evento para discutir o filme, no ano passado. "Muitas pessoas acham que, porque eu estava interpretado uma personagem que é abusada, isso tinha que se refletir no ambiente. Para mim, se um set é ameaçador de qualquer forma, você congela, não consegue trabalhar. Se um set é caloroso como os de David, cheio de apoio, você se torna mais criativa e mais ousada".

No livro "Catching the Big Fish", que escreveu sobre seu processo criativo, Lynch fala sobre isso: "Quando as pessoas estão com medo, elas não querem trabalhar. O medo vai se transformando em ódio, e elas começam a odiar o trabalho. Se eu comandasse os meus sets com o medo, eu conseguiria 1%, e não 100%, dos meus atores".

A atriz Maria Schneider em foto tirada em 2003, em Marrakesh - AFP - AFP
A atriz Maria Schneider em foto tirada em 2003, em Marrakesh
Imagem: AFP

As sequelas

A vida de Maria Schneider nos anos após o lançamento de "Último Tango em Paris" pinta um retrato doloroso das consequências do abuso sexual. Durante toda a década de 1970, a atriz lutou contra o vício em drogas, a depressão e as tentativas de suicídio, se internando em centros de reabilitação e em clínicas psiquiátricas diversas vezes.

Da sua parte, Bertolucci justificava tudo o que aconteceu no set do filme como consequência do processo criativo. "Eu queria que ela reagisse como uma garota, não como uma atriz. Para fazer filmes, às vezes, para obter algumas coisas, precisamos ser completamente livres", disse o cineasta.

Ele dizia também que gostaria de ter-se desculpado com Schneider. "Maria me acusava de ter roubado sua juventude e, somente hoje, eu me pergunto se isso em parte não era verdade. Na verdade, ela era jovem demais para poder segurar o impacto que o imprevisível e brutal sucesso do filme teve", sugeriu.

A atriz se reergueu a partir dos anos 1980, estabelecendo reputação como ativista pelos direitos das mulheres e dos idosos no cinema. Creditava a reviravolta em sua vida a um amor misterioso, um parceiro ou parceira cujo nome nunca revelou, e que a acompanhou até sua morte, em 2011, aos 58 anos, vítima do câncer.