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"Super Drags" diverte, abraça causa LGBTQ+ e deixa gosto de "quero mais"

Divulgação/Netflix
As protagonistas de "Super Drags", animação brasileira da Netflix Imagem: Divulgação/Netflix

Caio Coletti

Colaboração para o UOL

10/11/2018 04h00

"Super Drags" se envolveu em polêmica antes mesmo de seu lançamento. Após a divulgação das primeiras imagens e vídeos da série animada, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) pediu à Netflix que cancelasse a produção, que supostamente usava de "linguagem iminentemente infantil" (a animação), mas tinha conteúdo adulto.

O argumento, que ganhou tração em meios conservadores, foi respondido pela plataforma de streaming: a série nunca foi destinada a crianças. A classificação indicativa, afinal, é para maiores de 16 anos, e a Netflix não incluiu o título em seu catálogo infantil.

"Super Drags" conta a história de três jovens, que trabalham em uma loja de departamentos, escolhidos a dedo pela diva Vedete Champagne para se tornarem super-heroínas. Armadas com artefatos mágicos e muita "lacração", elas buscam neutralizar ameaças à comunidade LGBTQ+.

Animação adulta não é novidade. "Os Simpsons" está no ar há quase trinta anos, e a própria Netflix já produziu títulos como "Bojack Horseman" e "F is For Family", usando o formato do desenho animado para criar universos com conteúdos e implicações mais maduras. 

Assim como estas e outras séries, "Super Drags" explora as possibilidades ilimitadas da animação para contar histórias que encontrariam dificuldades no formato live-action. Na produção criada por Paulo Lescaut, Anderson Mahanski e Fernando Mendonça, realidade e fantasia se misturam em uma fórmula voltada claramente ao público adulto.

Uma indicação disso são as referências que a série faz. Já durante a divulgação de "Super Drags" era possível detectar a influências de "Meninas Superpoderosas" na produção. O visual lembra, de fato, a série que entrou no ar no final dos anos 1990, assim como outros trabalhos do animador Genndy Tartakovsky ("O Labortatório de Dexter", "Samurai Jack", "Hotel Transilvânia").

Na criação do seu mundo ficcional, "Super Drags" também usa elementos de outros desenhos animados famosos e produtos da cultura pop. Por exemplo: a relação das três heroínas principais com a "chefe" Vedete, a exemplo das chamadas repentinas para as missões, lembram a dinâmica de "Três Espiãs Demais".

Enquanto isso, as coloridas transformações das personagens principais, que trocam roupas de vendedores pelo visual "montado" das drag queens, remetem a "Sailor Moon". E o confronto final entre as três e a vilã Elza é uma referência a "Power Rangers".

Todas essas são atrações assistidas e adoradas por uma geração que já passou da adolescência. Aos 20 (ou 30) e poucos, o público dessas séries encontrará em "Super Drags" uma mistura rara de nostalgia e novidade.

Reprodução/Netflix
A personagem Vedete Champagne, dublada por Silvetty Montilla, em "Super Drags" Imagem: Reprodução/Netflix

Vale frisar que, em meio a todos esses "empréstimos", "Super Drags" é bem-sucedida em criar uma identidade própria. Seu humor é brasileiro seja derivado de situações da nossa comunidade LGBTQ+ ou dos sotaques e expressões interpretados pelo elenco de vozes.

Por falar no elenco, Silvetty Montilla é destaque absoluto no papel de Vedete. A personagem incorpora trejeitos que a tornaram famosa entre as drag queens, mas Montilla adiciona temperos surpreendentes e encontra graça em cada fala do roteiro. "Super Drags" é sempre mais divertida quando ela está em cena.

A série da Netflix pode ter verniz internacional na produção e referências, mas a forma como usa tudo isso e conta sua história é espertamente tupiniquim. "Super Drags" tem tudo para se tornar motivo de orgulho para a comunidade LGBTQ+ e para quem torce pelo sucesso da animação brasileira.