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"O Mau Exemplo de Cameron Post" leva adolescência a sério ao abordar cura gay

Chloë Grace Moretz, protagonista do filme "O Mau Exemplo de Cameron Post" - Divulgação
Chloë Grace Moretz, protagonista do filme "O Mau Exemplo de Cameron Post" Imagem: Divulgação

Renata Nogueira

Do UOL, em São Paulo

25/10/2018 04h00

"Cameron é um nome muito masculino", diz a diretora do centro de reabilitação para jovens que "sofrem" de SSA (same sex attraction, ou atração pelo mesmo sexo em bom português) ao dar as boas vindas à novata Cameron Post. Começa assim a experiência da jovem de 17 anos na clínica que pretende ajudá-la no que seus responsáveis acreditam ser um desvio de personalidade.

A frase curta, mas cheia de significados, é um exemplo do conservadorismo que conduz os líderes do local, cenário de "O Mau Exemplo de Cameron Post", que chega ao Brasil na programação da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Sem previsão de estreia por aqui, o filme será exibido nesta quinta (25), às 17h30, na sala 1 do Espaço Itaú de Cinema do Shopping Frei Caneca.

Desiree Akhavan e Emily M. Danforth - Nicholas Hunt/Getty Images - Nicholas Hunt/Getty Images
Desiree Akhavan e Emily M. Danforth, diretora e autora de "O Mau Exemplo de Cameron Post"
Imagem: Nicholas Hunt/Getty Images

Baseado no livro homônimo de Emily M. Danforth, "O Mau Exemplo de Cameron Post" se passa no ano de 1993 e mostra a rotina do God's Promise (Promessa de Deus), um centro de cura gay cristão conduzido por preceitos religiosos. Lá, adolescentes levados por suas famílias envergonhadas tentam se livrar da atração por pessoas do mesmo sexo louvando a Deus e passando por rodas de conversa similares às adotadas por grupos de viciados em álcool e drogas, entre outras atividades.

Vinte e cinco anos depois, estabelecimentos deste tipo ainda existem nos Estados Unidos, cada um com suas técnicas. A autora do livro que originou o filme se baseou em relatos de pessoas que passaram pelas instituições além de sua própria experiência como lésbica que cresceu em uma cidade conservadora naquela mesma época. Desiree Akhavan, que assina a direção, também é uma mulher gay.

Chloe Grace Moretz convence no papel Cameron Post, uma adolescente órfã e confusa criada pela avó e uma tia bastante conservadoras. Ao descobrirem que Cam sente atração por meninas, depois de um flagra na festa de formatura da escola, resolvem interná-la no God's Promise para que ela tenha a "oportunidade de construir uma família", seguindo a ideia delas do conceito ideal de família.

Questionando o conservadorismo

Apesar de conter ironia em seu título, "O Mau Exemplo de Cameron Post" é bastante realista ao escancarar a difícil relação entre a natural liberdade dos jovens e a máscara religiosa que cega os adultos que os cercam. O filme acerta ao desenvolver bem todos os personagens e não tratar superficialmente questões delicadas. Há mais diálogo do que conflitos diretos, o que às vezes deixa o enredo um pouco arrastado.

Resistente à internação no início, Cameron acaba encontrando sua real identidade pela primeira vez ao passar a conviver lado a lado com pessoas como ela. A adolescente desenvolve um forte laço de amizade com Jane Fonda (Sasha Lane) e Adam (Forrest Goodluck). A primeira é uma menina criada em uma comunidade hippie e o segundo, filho de um importante político.

Jane foi parar na God's Promise depois que sua mãe começou a namorar um homem muito religioso. E Adam precisa ficar recluso para não envergonhar a família enquanto o pai faz campanha, já que é assumidamente gay (e bem resolvido com isso, para a ira da diretora do lugar).

Cameron também passa a refletir mais sobre sua condição ao observar, com choque, o sofrimento real de sua colega de quarto e de outros que tentam se encaixar no processo da clínica.

"O Mau Exemplo de Cameron Post" - Divulgação - Divulgação
Cameron (Chloe Grace Moretz), Jane (Sasha Lane) e Adam (Forrest Goodluck) em cena de "O Mau Exemplo de Cameron Post"
Imagem: Divulgação

Entre momentos de reflexão e até cenas cômicas, o clímax acontece quando um dos internos, confuso entre seus sentimentos genuínos e a religião em que tenta se encaixar, se mutila.

A situação desesperadora faz com que não só os adolescentes reflitam sobre tudo o que estão vivendo lá dentro, como os diretores responsáveis --um "ex-gay" e sua irmã-- também entrem em conflito com suas próprias crenças. "Vocês não têm a menor ideia do que estão fazendo, né?", conclui Cameron, parecendo finalmente se encontrar em sua personalidade.

A jovem vinha se questionando desde quando recebeu um documento chamado de iceberg, em que cada paciente tenta encontrar os motivos que os levaram a se interessar por pessoas do mesmo sexo. Ela não consegue relacionar questões cotidianas com o sentimento genuíno, enquanto os responsáveis pela clínica tentam ligar a atração com fatos como gostar de esporte ou determinadas músicas. 

"Escrevi pensando na Emily de 14 anos que ainda estava dentro do armário, e buscava uma obra infanto-juvenil em que se sentisse representada, mas nunca a encontrava", contou Emily M. Danforth em entrevista ao UOL quando o livro foi lançado no Brasil, no começo deste ano.

Transformado em filme, "O Mau Exemplo de Cameron Post" levou o principal prêmio do júri no Festival de Sundance, em janeiro. Ainda assim, a obra ainda é tabu nos EUA e chegou a ser barrada em escolas mais conservadoras.