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Como os abusos mudaram cenas de sexo e contratos das atrizes de Hollywood

Rooney Mara e Cate Blanchett em cena de "Carol" (2015) - Reprodução
Rooney Mara e Cate Blanchett em cena de "Carol" (2015) Imagem: Reprodução

Osmar Portilho

Colaboração para o UOL

24/08/2018 04h00

A cena é - ou era - corriqueira em Hollywood. A atriz se prepara para uma sequência de sexo simulado descrita no roteiro de um filme. Depois de alguns takes não darem certo, o diretor insiste, faz pressão e, diante de uma equipe inteira apressada para encerrar o trabalho, a artista é obrigada a ceder e mudar o que havia sido acordado. Seja tirar uma camiseta, fazer um nu frontal ou simplesmente ir além do que havia sido combinado. De acordo com uma matéria publicada no "The Hollywood Reporter", em meio à explosão de denúncias após o caso de Harvey Weinstein e o movimento #MeToo, a indústria teve que rever seus métodos de trabalho quando o sexo entra em cena.

Em "The Handmaid's Tale", Elisabeth Moss aprova cenas com nudez que vão ao ar ou não - Divulgação - Divulgação
Em "The Handmaid's Tale", Elisabeth Moss aprova cenas com nudez que vão ao ar ou não
Imagem: Divulgação

Com o despertar de histórias envolvendo assédio ou abuso em gravações de grandes filmes de Hollywood, atrizes têm feito uma tentativa mais efusiva de barrar episódios como os citados com cláusulas cada vez mais específicas em seus contratos. Assim como bandas e músicos enviam aos contratantes o seu "rider técnico" com suas exigências, os artistas têm feito tópicos mais detalhados.

Segundo o advogado Jamie Feldman, que atende diversas atrizes, como Juno Temple e Gillian Jacobs, existe uma conversa intensa nos bastidores para as mulheres se sintam mais empoderadas nos sets, além do fato de que os pedidos de cenas com nudez têm caído. "As pessoas certamente estão mais sensíveis em relação aos pedidos", explicou.

No entanto, ele pontua que a hierarquia de um set - como na situação narrada no início do texto - segue como uma questão pertinente. Em seus contratos, Feldman chega a citar até 40 tópicos específicos com detalhes sobre cenas que exigem nudez parcial ou completa de suas clientes. Estes detalhes vão desde protetores adesivos para cobrir as partes íntimas até a exigência de que o número de pessoas no set seja reduzido.

Evangeline Lilly diz que foi forçada a fazer cena em "Lost" - Reprodução - Reprodução
Evangeline Lilly diz que foi forçada a fazer cena em "Lost"
Imagem: Reprodução

Jon Rubinstein, que é CEO da agência Authentic Talent & Literary Management, afirmou que as situações de abuso são constantes, principalmente em produções menores. "O problema sempre começa quando um diretor ou produtor chega na atriz e pede para fazer algo que não foi discutido. Eles dizem algo como 'olha, é meia-noite, a equipe quer ir embora, estamos exaustos, você pode tirar a toalha?'", disse ele, cuja agência cuida de nomes como Brie Larson e Vera Farmiga. "Isso acontece o tempo todo", completou.

Recentemente, foi esta a narrativa contada por Evangeline Lilly, estrela de "Lost", que disse ter sido coagida a fazer uma cena em que aparece nua. "Eu estava petrificada e tremendo quando terminou", disse na ocasião.

Como agente, Rubinstein tem gastado parte de seu tempo para fazer com que suas clientes se defendam caso algo deste tipo aconteça.

Joanne Wiles, agente da ICM Partners, disse que o novo clima das negociações tem exigido que ambas as partes sejam muito mais cuidadosas. "Outros nomes do mercado que foram muito liberais com esses casos não estão mais agindo assim porque esse é um assunto muito relevante", afirmou.

Courtney Kemp, roteirista de "The Good Wife", diz que deixa o minímo de pessoas no set em cenas de sexo - JC Olivera/Getty Images - JC Olivera/Getty Images
Courtney Kemp, roteirista de "The Good Wife", diz que deixa o minímo de pessoas no set em cenas de sexo
Imagem: JC Olivera/Getty Images

Do lado de lá, entre produtores e diretores, a questão também despertou um novo debate. Courtney Kemp, produtora de "The Good Wife" e criadora da série "Power", explicou que tem uma rotina para reduzir o número de pessoas presentes no set quando há uma cena de sexo. "[Pergunto] 'Por que você está aqui? Qual é sua função?' Há uns dez trabalhos necessários para uma cena de sexo. Fora isso, pode ir embora. E eu saio expulsando as pessoas", explicou.

Paul Feig, diretor de "A Simple Favor", conduziu as gravações como Anna Kendrick e Blake Lively, que assinaram termos para fazerem algumas cenas com nudez. "O negócio para qualquer cena de sexo é que todos precisam estar em sincronia", disse, ressaltando que nunca exigiu nada das atrizes, mesmo a nudez estivesse descrita em contrato e elas tivessem mudado de ideia.

A atriz Sarah Jessica Parker tem cláusula específica em contratos - Divulgação - Divulgação
A atriz Sarah Jessica Parker tem cláusula específica em contratos
Imagem: Divulgação

Uma das atrizes que faz uso de um contrato bem específico é Sarah Jessica Parker, que o empregou tanto em "Sex and  the City" quanto na atual "Divorce", da HBO. "Sempre tenho um. Algumas pessoas têm listas de exigências que são hilárias a ponto de pedir velas brancas em seu camarim. Eu não. Só tenho uma cláusula de não aparecer nua", explicou.

Estrela de "The Handmaid's Tale", Elisabeth Moss, que também é produtora executiva da série, faz uma filtragem das cenas em que aparece nua. "Eu tenho 100% de autoridade sobre as filmagens e posso literalmente dizer: 'Você não pode usar aquilo'", afirmou. Caso a atriz não esteja confortável com a sequência, ela é apagada do episódio, algo parecido com que foi negociado por Emilia Clarke em "Game of Thrones". A atriz ganhou o direito de vetar cenas após uma renegociação de contrato.

Mas e aí? Apaga a cena?

Esta é a parte onde a história segue um pouco turva. Isso porque os contratos com certeza têm deixado algumas questões sensíveis mais claras, mas o que acontece com uma cena não utilizada?

Ainda segundo com o artigo da "The Hollywood Reporter", os contratos somente citam "boa fé" no destino das imagens não aproveitadas. Depois de tantas questões específicas para a captação, o termo abrangente de "boa fé" soa estranho. Mas sua existência é porque raramente há um consenso entre artistas e produtora sobre o material bruto das produções.

Rachel Weisz e Rachel McAdams em cena de "Desobediência" - Reprodução - Reprodução
Rachel Weisz e Rachel McAdams em cena de "Desobediência"
Imagem: Reprodução

Uma fonte não-identificada da matéria disse que cenas de sexo entre Cate Blanchett e Rooney Mara no drama "Carol" teriam ido parar em uma "coleção particular" de Harvey Weinstein, cuja produtora fez a distribuição do longa. "Creio que seja impossível apagar algo totalmente na era digital. A ideia de algo foi realmente apagado é ingênua", disse.

A questão da destruição das filmagens já foi discutida nos bastidores, como pontua Jamie Feldman, mas as resoluções são sempre evasivas. "Nós costumávamos dizer 'você tem que destruir isso' e eles respondiam 'nós vamos manter em um lugar seguro'. Mas as coisas podem ser roubadas, hackeadas... e nós pressionamos para que tudo seja destruído. Mesmo que a gente coloque tudo nos parágrafos do contrato, vai um estagiário e coloca na internet e de repente está online para sempre", concluiu o advogado.

Este tipo de incerteza é que tem desmotivado a indústria a investir em sequências com nudez ou cenas de sexo. Veja por exemplo o filme "Desobediência": Rachel Weisz e Rachel McAdams atuam sempre de sutiã. "É óbvio que é algo que estava no contrato delas não mostrar os seios. Pareceu estranho. Se você está fazendo uma cena de sexo, não tenha uma cláusula contra nudez", disse outra fonte da matéria, uma produtora de grandes filmes, mas não envolvida neste projeto em particular.

Otimismo com cautela

Uma coisa é certa, o que era prática tem tudo para ser tornar exceção com essas medidas. "Da mesma maneira que esse tipo de atitude [o assédio sexual] era ignorado anos atrás e não está sendo mais, esse tipo de pressão dos diretores e produtores não é mais defensável. Isso é insustentável da maneira que estava acontecendo", disse o agente Rubinstein.

Tara Kole, advogada de Gwyneth Paltrow e Michelle Dockery, afirmou estar "cautelosamente otimistas" com toda a situação. "Eu espero que isso mude a nossa cultura e crie ambientes mais seguros, independentemente do que está escrito em um pedaço de papel", finalizou.