Topo

Filipe Ret lança "Audaz" e comemora geração: "A potência virá desses moleques"

Divulgação
Imagem: Divulgação

Osmar Portilho

Colaboração para o UOL

18/08/2018 04h00

Quando tinha dez anos de idade, Filipe Ret costumava desenhar um personagem, como explicou ao UOL: "Cordão, boné e uma galera em volta dele". Hoje, aos 33 anos de idade, ele lança seu quarto álbum, "Audaz", e se dá conta de que aquele personagem dos rabiscos se parece demais com a vida que leva hoje.

"Audaz" encerra uma trilogia composta ainda por "Vivaz" (2012) e "Revel" (2015). Com treze faixas, o disco tem batidas pesadas, versos ácidos e um discurso forte, que fala desde o descaso social da política -- "Senadores, toda plebe tem instinto black bloc", em "A.N.A.R.C.O.S" -- até a legalização da maconha -- "Meu dinheiro é honesto e suado / Fumem maconha / Que mal tem maconha?", em "Maconha", que conta com a participação de Marcelo D2.

Além das rimas afiadas, em "Audaz", Ret se sentiu mais confortável para trabalhar também como produtor. "Participei muito da sonoridade desse disco porque queria deixar ele com a minha cara. Ele tem bastante o meu tempero, musicalmente falando", explicou, citando também a participação de Mãolee e Dallass, que aparecem em boa parte das faixas como produtores também.

Para Ret, o hip-hop impõe ao MC que ele evolua junto com sua música. "O rap não é apenas a lírica e a letra. No jogo do rap, que ainda está começando no Brasil, com o tempo os MCs vão se graduando. Eu acho que é uma tendência. A lírica é um quesito, a musicalidade é outra. São muitos quesitos no hip-hop", explicou.

Evolução e trap

O rap é um dos gêneros musicais que mais cresce no Brasil, tanto que o segmento ganhou uma nova ramificação, o trap, com uma geração que produz uma quantidade enorme de músicas nas plataformas digitais e soma milhões de visualizações no YouTube. Aos 33 anos e sendo um rapper do Rio de Janeiro, Ret está na transição que faz uma ponte entre o rap dos anos 90 para esse novo momento criativo. Uma característica notável destes novos expoentes é a liberdade nas letras e a quebra das amarras com o que se considera "tradicional" no rap.

Divulgação
Filipe Ret lançou o álbum "Audaz" Imagem: Divulgação

"Pode ser que eu seja essa ponte. Eu fico orgulhoso. O papel da arte é esse, ousar e explorar novos limites. O rap é um trunfo muito grande que conversa com todos os gêneros musicais. E ele tem uma essência anarquista. Lá na década de 70, ele nasceu como um jogo de poder e isso vai continuar", disse.

Ret comemora que existam novos espaços para os nichos ligados ao rap, principalmente em função da internet, e que haja uma movimentação entre os jovens que enxergam neste segmento uma forma de prosperar.

"A coisa vai evoluindo e a gente vai tendo mais liberdade de falar mais coisas do jeito que a gente quer. As pessoas se dão mais liberdade. Isso é o mais bacana. Ver uma galera que faz seu som,e já está fazendo sua grana. Eles já entendem o mercado. Ver uma molecada com um sonho de trabalhar com rap, não necessariamente como MC, mas como produtor, beatmaker...o rap é um potencial empregador. Hoje é muito mais fácil", explicou. "A grande potência vai vir desses moleques", completou

Santo Forte

Questionado sobre a música preferida em "Audaz", Ret pensa um pouco, mas afirma: "Santo Forte". A canção foi lançada antes do álbum em forma de clipe, dirigido por Gabriel Camacho. A ideia inicial do vídeo era trazer somente o rapper e seu filho, Theo. Mas o conceito cresceu para que fossem mostradas outras histórias marcantes.

"Ele [Gabriel Camacho] soube traduzir bem. Eu queria mostrar o novo líder e aparecer com meu filho, essa era a ideia inicial, mas tem tanta gente bacana. Queria mostrar as histórias do povo e mostrar que eles são novos líderes e eles também têm o santo forte", contou.

O vídeo mostra personagens reais com histórias de superação, incluindo atletas, líderes comunitários e ativistas. Um destes depoimentos exibido no final do clipe é o de Amanda Carvalho.

"Em 2014, tive 57% do corpo queimado quando fui tentar tirar meu pai de cima da mãe quando vi ele ateando fogo nela. Minha mãe faleceu com mais de 80% do corpo queimado e meu pai se suicidou em seguida. Desde então eu tento alertar outras mulheres sobre o feminicídio na esperança de que tudo o que ocorreu com a minha mãe na ocorra com outras mulheres também", diz ela no vídeo.

"Os protagonistas dos clipes são eles e eu só faço uma trilha sonora ali", completou.

Mais Rap nacional