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Cinco discos de Madonna que criaram a música que você ouve hoje

16.set.2015 - Madonna no palco durante a "Rebel Heart Tour" - Robert Altman /Invision/AP
16.set.2015 - Madonna no palco durante a "Rebel Heart Tour" Imagem: Robert Altman /Invision/AP

Caio Coletti

Colaboração para o UOL

16/08/2018 04h00

Madonna não ostenta o título de "rainha do pop" à toa. A popstar, que faz 60 anos nesta quinta-feira (16), deixou uma marca na cultura pop difícil de ser alcançada por qualquer outro artista de sua época.

A fórmula mágica de Madonna não é só inteligência musical e faro para composição, mas também uma afiada noção de publicidade e uma incansável vontade de cutucar tabus e refazer convenções. A cantora usou símbolos do que já estava sendo produzido na cultura pop e os reinventou em um novo contexto.

O que nos leva a ficar de olho nos próximos passos artísticos de Madonna.

A cantora não lança um disco desde 2015, quando saiu "Rebel Heart". Ela também não sai em turnê desde o fim de 2016, quando decidiu tirar 2017 para aproveitar a vida em família em Portugal, onde vive hoje com os filhos. Mas em uma entrevista recente, no programa "Live With Kelly & Ryan", Madonna avisou: "2018, eu estou voltando, baby". E já temos uma pista: "Beautiful Game", uma canção inédita que ela apresentou durante o Met Gala 2018, deve ser seu novo single.

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Enquanto a canção não sai e ficamos no escuro sobre qual será sua próxima reinvenção, vale lembrar como seus discos criaram os artistas e a música (pop ou não) que ouvimos em hoje em dia.

"Like a Virgin" (1984)

Foi o segundo disco de estúdio de Madonna, "Like a Virgin", que definiu o que é ser uma popstar. A cantora trabalhou junto com o músico e produtor Nile Rodgers, que já havia marcado os anos 70 com sua banda Chic e suas produções para Diana Ross.

Musicalmente, sua contemporânea Cyndi Lauper não fazia algo tão diferente quanto ela. Lançado um ano antes, "She's So Unusual", de Lauper, provocou impacto no mercado, mas foi Madonna quem farejou a necessidade cultural de um ícone feminino que representasse um equilíbrio entre ousadia e aceitação mainstream estável. Seja cutucando a obsessão masculina com a virgindade na faixa-título ou emulando uma das grandes sedutoras de público de todos os tempos em "Material Girl", eternizada como homenagem a Marilyn Monroe, Madonna entendia como se colocar na posição para preencher esse vácuo.

Virtualmente qualquer artista que ocupou esse lugar desde então deve muito a "Like a Virgin". Não é a toa que Katy Perry ascendeu ao estrelato encarnando uma versão fetichizada da homossexualidade feminina em "I Kissed a Girl", ou que Miley Cyrus fez sua transição para o pop criando uma personagem exagerada em "We Can't Stop". Foram riscos calculados para satisfazer um nicho de mercado detectado com o mesmo olho arguto que Madonna ensinou em 1984.

"Like a Prayer" (1989)

Antes da década de 1980 acabar, Madonna usou sua posição de popstar para abordar de forma mais explícita e provocadora os tópicos polêmicos que definiram sua carreira: religião, sexualidade, feminismo. "Like a Prayer" é o álbum definidor dessa abordagem política da música pop contemporânea.

No vídeo da faixa-título, ela aborda supremacismo branco, encena uma queima de cruz como as realizadas pela organização racista Ku Klux Klan nos Estados Unidos, e beija um santo negro. Condenado pelo Vaticano, o clipe e o disco abriram as portas para o uso de simbolismos religiosos de todos os tipos na música pop.

Sem o clipe de "Like a Prayer", esqueça Lady Gaga como uma freira vestida em vinil e engolindo um terço em "Alejandro". Sem a mensagem poderosa de "Express Yourself", esqueça Gaga e sua "Born This Way", ou Ariana Grande e sua "God is a Woman". Sem o pioneirismo deste disco, esqueça até o roqueiro Hozier entoando "Take Me to Church" enquanto um casal gay se vê separado pelas circunstâncias no clipe.

"Erotica" (1992)

Não bastou eternizar a imagem da estrela pop vestida de noiva se movendo pelo palco em "Like a Virgin": o tabu sexual que Madonna queria quebrar era ainda mais radical. Com "Erotica", ela provou que não se tornaria relíquia dos anos 1980 em um álbum que tratou de sexo, fetiche e amor da forma mais aberta e provocativa que a música pop já havia visto.

Sem este disco não haveria "...Baby One More Time" e diversas músicas de Britney Spears apoiadas na sensualidade da estrela. Também não haveria explorações do sadomasoquismo na cultura pop, como "S&M", de Rihanna, e todo o seu disco "Rated R". Nicki Minaj, Selena Gomez e Shakira também estão na lista infindável de popstars que beberam da fonte de liberação sexual de Madonna.

Um dos singles predecessores do "Erotica" --embora não esteja na tracklist oficial do álbum-- foi "Justify My Love". Lançada em 1990 na coletânea "The Immaculate Collection", a canção traz muitos dos temas e da estética do disco seguinte. Em seu clipe, quase todo em preto e branco, Madonna mostra breves cenas sensuais de todas as inclinações e fetiches. "Haunted", lançada por Beyoncé em 2013, é uma homenagem inconfundível a ele.

"Ray of Light" (1998)

DJs não vendiam milhões de álbuns e lotavam estádios em 1998. Se David Guetta, Calvin Harris, Zedd, Skrillex e Diplo são sucessos mainstream hoje em dia, a culpa é muito provavelmente de "Ray of Light", sétimo álbum de estúdio de Madonna, que chacoalhou um cenário pop dominado por boybands e Britney Spears para entregar o choque eletrônico que ele precisava.

Com a ajuda do produtor William Orbit, Madonna trouxe a música que se ouvia nas então ilegais raves para o topo das paradas, misturando-a com a espiritualidade asiática que regia sua vida pessoal naquela época. De uma tacada só, a artista rejuvenesceu o pop como música e deu-lhe uma nova referência estética da qual se alimentar.

A exploração que Gwen Stefani fez da cultura japonesa no disco "Love, Angel, Music, Baby", oito anos depois, se aproveitou da porta aberta por Madonna em 1998. Charli XCX frequentemente lança mão de recursos parecidos. E, é claro, o estouro de "Jai Ho" e outras canções derivadas do pop indiano só aconteceu por causa de "Ray of Light".

"Confessions on a Dance Floor" (2005)

Fala-se muito sobre Lady Gaga, Daft Punk, La Roux e Kylie Minogue ao discutir-se o movimento de revival oitentista na cultura pop durante o final dos anos 2000 e começo dos anos 2010. O que muita gente se esquece é que, em 2005, Madonna já estava colocando bolas de discoteca e samples do ABBA em "Confessions on a Dance Floor".

O disco reflete a parceria da cantora com Stuart Price, que nos anos seguintes apareceu por todo lado no cenário pop rock, trabalhando com Kylie Minogue, Pet Shop Boys, The Killers, Keane, Scissor Sisters e Robbie Williams, entre outros. "Confessions" trouxe de volta os pacotes de cordas, os sintetizadores graves, os collants e os passos de dança da disco e do new wave, muito antes de a maioria dos artistas pop abraçarem essa estética.

Está andando por aí com as músicas do filme "Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo" estourando nos fones de ouvido? Curiosamente, a adaptação para o cinema do musical teatral que estreou em 1999 só virou prioridade para os estúdios de Hollywood depois de Madonna trazer os anos de 1980 (e o ABBA) para os holofotes da cultura pop de novo.

O "Confessions" é o precursor esquecido da geração que cresceu regada pela fase popstar de Rihanna, pelas harmonias à la Duran Duran de Lady Gaga, e pela versão sintetizada, cheia de paetês e neon, de artistas que nasceram em outros gêneros, como Coldplay, Miley Cyrus e Taylor Swift.

Errata: o texto foi atualizado
A legenda da foto foi alterada. O texto informava erroneamente que o título do álbum da Madonna era "Turn Blue". O correto é "True Blue".