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O que demissão em "Máquina Mortífera" diz sobre os machões de Hollywood

Clayne Crawford como Martin Riggs na série "Máquina Mortífera" - Divulgação
Clayne Crawford como Martin Riggs na série "Máquina Mortífera"
Imagem: Divulgação

Caio Coletti

Colaboração para o UOL

20/07/2018 04h00

A segunda temporada de "Máquina Mortífera", que estreia nesta sexta-feira (20) às 23h15 na Rede Globo, é a última antes da demissão do protagonista Clayne Crawford, que interpreta o detetive encrenqueiro Martin Riggs (papel imortalizado por Mel Gibson no cinema nos anos 80 e 90). E diz muito sobre como Hollywood vê hoje os machões -dentro e fora das telas.

Crawford foi dispensado em maio após a segunda temporada ir ao ar nos EUA por conta de seu comportamento agressivo, que supostamente tornava o ambiente no set "tóxico". Entre seus maiores críticos estava o colega Damon Wayans, que faz Roger Murtaugh na série. Wayans dividiu com a imprensa um vídeo em que é atingido por um pedaço de metal em uma explosão, chegando a sangrar no set. O episódio em que isso aconteceu foi dirigido por Crawford.

Outros incidentes de agressão física e abuso emocional fizeram com que Crawford fosse demitido, com a contratação de Seann William Scott  ("American Pie") para a terceira temporada, que estreia no final de setembro nos EUA. 

A mudança de atores pode ser lida como sintomática de uma mais profunda, acontecendo lentamente com cada grande lançamento de ação no cinema e na TV nos últimos anos. Enquanto outros gêneros tiveram que reconhecer mais prontamente o aumento de visibilidade de movimentos que apontam e condenam padrões de injustiça social (a ficção científica ganhou mais heroínas, a comédia teve que fugir de piadas preconceituosas cansadas, etc), os filmes e séries de ação, por sua própria natureza e presumido público-alvo, posicionaram-se por anos a fio como um réquiem dos "velhos tempos". 

Como qualquer movimento social, essa mudança de paradigma nos filmes de ação foi testada em casos pontuais antes de dominar o mainstream. O Jason Bourne de Matt Damon e o James Bond de Daniel Craig, similares como são, foram pioneiros essenciais - eles estrelaram filmes que realçavam sua humanidade, e não sua invencibilidade, e que, no caso de Bond especialmente, retratavam seu endurecimento emocional e seu tratamento frio e violento das mulheres em sua vida como consequência negativa de um trauma emocional, e não característica glamourizada do herói de ação.

E então, depois, deles, apareceu Dwayne "The Rock" Johnson. É realmente impressionante como Johnson conseguiu modular sua persona desde a época em que apareceu como astro da luta livre. Libertando-se do personagem que interpretava no ringue, "The Rock" ressurgiu, especialmente nos anos 2010, como um dos astros mais "boa praça" de Hollywood. Ele se tornou o fenômeno que é após a entrada para a franquia "Velozes e Furiosos" (casa de outro herói de ação típico dessa mudança de paradigma, Vin Diesel), a escalação em comédias como "Um Espião e Meio" e "Baywatch: S.O.S. Malibu", e a notoriedade de suas entrevistas e posts no Instagram, onde mostra devoção à família, suas três filhas e a afeição pela herança cultural polinésia, que interpretou com orgulho na animação "Moana: Um Mar de Aventuras".

Essa imagem "relaxada" de Johnson é o estandarte maior, em Hollywood, de uma nova masculinidade que inclui também vulnerabilidade, sinceridade sobre as próprias limitações, humor bem-intencionado e uma confiança injetada de gratidão e gentileza - qualidades sem dúvida positivas que, embora não eliminem todos os problemas da nossa concepção de masculino, os trazem para um contexto mais contemporâneo, o que o gênero de ação desesperadamente precisava.

Hoje em dia, quando Johnson simula essa masculinidade exagerada, é em referência ao seu passado na luta livre (vide as brigas flagrantemente falsas com os colegas de "Velozes e Furiosos"), ou mesmo zombando desse exagero ("Sem Dor, Sem Ganho"). Enquanto isso, em seu filme mais recente ("Aranha-Céu: Coragem Sem Limites", em cartaz no Brasil), "The Rock" interpreta um veterano de guerra traumatizado e com uma perna amputada que, se vendo em meio a uma sabotagem no prédio mais alto do mundo, frequentemente precisa que sua esposa, interpretada por Neve Campbell ("Pânico"), o salve do perigo. 

Assim, não há espaço para Clayne Crawford's em um mundo dominado por Dwayne Johnson's. Em uma Hollywood que, pressionada pelo público, cada vez mais denuncia assédio e busca representatividade, comportamentos abusivos e agressivos de seus heróis de ação são, também cada vez mais, intoleráveis tanto na frente quanto atrás das câmeras.

Um contraste completo com a realidade que existia lá nos anos 1980 e 1990, quando os filmes originais de "Máquina Mortífera" foram concebidos e lançados com um Mel Gibson que mais tarde seria exposto por seu comportamento repulsivo dentro e fora de sets de filmagem. Com a reestreia da série na Rede Globo, é uma boa ideia pensar no quanto os Martin Riggs's do cinema e da TV mudaram nos últimos 30 anos.