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Passada a fase "gringo", Silva abraça a brasilidade, a sexualidade e Anitta

Keiny Andrade/UOL
O cantor capixaba Silva lança seu novo disco, "Brasileiro" Imagem: Keiny Andrade/UOL

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

25/05/2018 04h00

Talvez seja a proximidade dos 30 anos ou a própria brasilidade redescoberta que fez o cantor e compositor capixaba Silva passar por um momento de desconstrução em seu quinto disco, que chega às plataformas de streaming nesta sexta-feira (25).

“Brasileiro”, como o título indica, é uma viagem em tons e timbres essencialmente brasileiros, mas é também um claro movimento fora da curva ascendente que o colocava como um artista alternativo e de vanguarda desde o primeiro disco, “Claridão” (2012).

Ele mesmo, durante muito tempo, conta que embarcou no mar de expectativas e críticas. “Eu sempre fui muito gringo”, disse ao UOL. “Eu ouvia muito a opinião das pessoas de como soar. Lia muito o que falavam de mim. Agora, se eu quiser fazer um samba, eu faço.”

A chave virou com força ao revisitar a obra de Marisa Monte, em disco e show que o colocaram de encontro com uma plateia maior, e  que firma agora, como ele canta em “Prova dos Nove”: “Então fitei o mundo como nunca antes / Ergui minha cabeça, encarei meu viver”. "Tem essa coisa de ficar fascinado com o que é de fora. É uma briga com o espelho", observa.

O verso pode ser lido também como alguém que tem abraçado ainda mais sua sexualidade, ponto tocado no clipe de “Feliz e Ponto” em 2015, quando ele próprio aparecia em uma cena de pegação com um homem e uma mulher. O vídeo, na época, fez abrir um canal de comunicação dentro da própria família de raízes evangélicas. A referência agora volta à baila de forma sutil no clipe do novo single “A Cor é Rosa”. “Eu tento encaixar isso no que eu faço, de forma sutil, com beleza, com refrão”, diz. “Você influencia as pessoas de alguma forma, sem fechar portas."

Entre as cobranças para ser mais ativista, Silva se sente mais confortável em quebrar a barreira entre a “música de crítica” e “música popular”. E faz bem feito. A balada com pitada de reggae “Fica Tudo Bem” traz um dueto com ninguém menos que Anitta. “Estou mais à vontade com as coisas, até para flertar com um furacão como ela”.

UOL - Como surgiu essa vontade de abraçar essa brasilidade que antes aparecia mais tímida no seu trabalho?

No começo da carreira eu tinha acabado de voltar da Irlanda, era muito novo, vim com toda a influência do som que estava rolando por lá naquela época. Tinha toda uma estética eletrônica envolvida, mas que era uma necessidade também por eu não ter muita estrutura. Era muito caro o que eu queria fazer no estúdio. O projeto “Canta Marisa” me mudou muito, me levou de volta para várias coisas da minha formação musical. E depois que eu a conheci, ela mesmo me apresentou muita coisa antiga que eu não conhecia, muito samba, além das coisas clássicas que todo mundo conhece, mas que eu me reconectei de novo, como João Gilberto, Caetano, Gil, João Donato, Edu Lobo.

É um disco calcado no violão.

Exatamente, fiz as pazes com o violão que era um instrumento que eu já estudei, deixei de lado porque fiquei apaixonado pelo sintetizador. Eu sempre fui muito gringo, tinha muita referência de fora. Eu era o tipo de pessoa que entrava em sites de crítica musical de fora e ouvia tudo que era lançado. Comecei a enjoar disso. Fui para Tóquio em 2014, em um evento de música, e quando eu falava que era brasileiro achavam lindo. Fiquei pensando nisso, de como as pessoas ainda -- e eu mesmo me coloco nisso -- tem essa coisa de ficar fascinado com o que é de fora. É uma briga com o espelho. Poxa, é tão legal ser brasileiro. Juntou isso tudo com meu melhor amigo que me deu Darcy Ribeiro para ler, aí eu pirei (risos).

A mudança foi mais profunda então?

Acho que agora estou me encontrando realmente musicalmente. Isso está me dando muito prazer. Antes eu ouvia muito a opinião das pessoas de como eu deveria soar. Eu lia muito o que falavam de mim. Agora, se eu quiser fazer um samba, eu faço. No começo da carreira, eu não me permitiria fazer isso. “Ah, isso é tão clichê, tão MPB”. E fazer o que todo mundo fazia, o que saia na “Pitchfork” (site americano especializado em crítica), não era.

É interessante como é um disco pra cima em um momento em que pedem para os músicos sejam mais políticos.

Tive no ano passado uma briga homérica com uma amiga minha da música. Ela disse que eu não me posicionava, não falava nada. Eu já lancei um clipe que falava sobre poliamor na época que a Dilma saiu. Eu deixo claro às vezes para que lado eu vou. Mas também não gosto de colocar isso à frente da minha música. Essa crise vai passar. Sou positivista. Tinha tudo para não ser, sou canceriano, superdramático. O momento não é fácil, mas ser leve não quer dizer que você seja alienado. Eu não acho legal essa coisa de ‘ah, se você é de direita nem venha ao meu show’. Não, vivemos em uma democracia. Minhas ideias são todas de esquerda e não escondo que gosto de fumar maconha e que as pessoas precisam tratar a sexualidade de forma mais aberta, mais livre. Eu tento encaixar isso no que eu faço, de forma sutil, com beleza, com refrão, com riffs, com melodias que as pessoas gostam de ouvir. Se você se esforça para isso, você influencia as pessoas de alguma forma, sem fechar portas.

A sexualidade passou a estar presente no seu trabalho com o clipe de “Feliz e Ponto” e também está sugerida no vídeo de seu novo single, “A Cor é Rosa”. Ainda assim, eu percebo que os fãs pedem muito um posicionamento mais claro nesse sentido.

Eu sou tímido, sou um cara reservado. As pessoas enxergam um lado sexual aqui que é engraçado. Minha família mesmo é toda evangélica, super careta. Meu avô era pastor da primeira igreja Batista de Belém (PA). Eles ficaram chocadíssimos com “Feliz e Ponto, mas hoje eles entendem. Vejo o quanto que eu fiz eles evoluírem de forma saudável. Eu acredito mais em achar o ponto sensível nisso tudo do que vir batendo, quebrando tudo.

Keiny Andrade/UOL
Silva: "Eu já ouvi de uma pessoa que é da música e que tem essa preocupação com o cool: 'Você vai largar essas coisas e vai começar a aparecer gente feia nos seus shows'" Imagem: Keiny Andrade/UOL
Na sua última turnê “Silva Canta Marisa” houve uma mudança no público, inclusive.

Eu senti também. Elas se sentem representadas. Eu lembro que teve alguém que escreveu sobre o show e me comparou com Ana Carolina, cara. Disseram que o efeito era igual (risos).

Como aconteceu a parceria com Anitta em “Fica Tudo Bem”?

Eu fiz uma lista de pessoas que eu queria e a primeira foi a Anitta, mas eu achava que seria impossível. Eu a admirava muito como artista, acho uma loucura o que ela faz. Eu mandei a música para ela, ela ouviu e escreveu um direct no Instagram: “Eu amei”. Ela passou o telefone e já falamos sobre o clipe. Eu estava acostumado com essa galera meio indie, que demora muito tempo para fazer alguma coisa, e ela já tinha me mandando o vocal logo depois do Carnaval, depois de ela trabalhar para caramba. Que mulher a mil!

Fiquei feliz porque foi a música que nos juntou ali. Gravamos o clipe e ela é uma especialista nisso, a câmera adora ela. Para mim foi uma aula, estou em um momento mais desenvolto, com menos medo de câmera, menos medo de falar, menos medo de palco. Estou mais a vontade com as coisas, até para flertar com um furacão como a Anitta.

Vocês dois fazem pop, mas vêm de mundos completamente distintos que, mercadologicamente falando, não se conversam. É algo antigo, mas que sempre volta à baila em premiações que separam votações populares com as do júri especializado.

É uma segregação clara do mercado. Quando vem um grupo seleto para selecionar o que é música eu já fico cabreiro. Minha família vem toda da música, sou formado em violino clássico, fiz curso superior, toquei piano desde novinho, tive formação erudita. Eu achava que eu seria concertista, antes de começar a compor e gostar de música pop. Sempre tinha essas discussões. As pessoas sempre me associaram como um menino bem-criado, só que eu fui criado em um bairro de periferia em Vitória, o Consolação. Tinha escola de samba, baile funk, terreiro de Umbanda.

Eu já ouvi de uma pessoa que é da música e que tem essa preocupação com o 'cool': “Você vai largar essas coisas e vai começar a aparecer gente feia nos seus shows”. Você acredita? Eu adorei essa coisa de ter Anitta no disco por ser alguém que a galera da alta crítica musical vai dizer: “Isso é muito popular”. E eu comecei adorado por essa galera. No começo da minha carreira, nossa, eu era a nova invenção da MPB, o futuro. Existia uma expectativa como uma coisa vanguardista. Não vou ficar correndo mais atrás disso. Quero que cada vez mais as pessoas entendam o que eu estou fazendo.

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