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Virada Cultural

Virada Cultural tem fila para carrinho bate-bate e sensação de esvaziamento

Roberto Sungi / Futura Press/ Folhapress
Público se movimenta no Parque de Diversões montado no Anhangabaú, durante a Virada Cultural de 2018, na região central de São Paulo Imagem: Roberto Sungi / Futura Press/ Folhapress

Daniel Lisboa

Colaboração para UOL, em São Paulo

20/05/2018 07h53

O centro de São Paulo voltou a ser o cenário principal da Virada Cultural depois da tentativa da prefeitura de dispersar as atrações pela cidade ano passado. Mas isso não significa que o evento voltou a ser exatamente o mesmo de outrora.

A não ser pelas aglomerações localizadas em frente a determinados palcos, o ambiente nesta noite de sábado (19) e madrugada de domingo é relativamente tranquilo. Caminha-se pela região entre a Praça da República e o Vale do Anhangabaú sem que seja necessário atravessar multidões.

Ricardo Matsukawa/UOL
Gretchen se apresenta na Virada Cultural em São Paulo Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL
Não se trata de afirmar que há pouco público, longe disso. Mas a diferença para outras edições da Virada Cultural, quando o centro inteiro vibrava ensandecido, é visível. Em que pese o frio que faz em São Paulo, a impressão geral é de que a mobilização do paulistano pelo evento perdeu, em um nível ainda difícil de mensurar, algo de sua intensidade.

Os gramados do Vale do Anhangabaú, em outras edições apinhados de gente descansando, assistindo aos shows ou simplesmente embriagada, têm bastante espaço livre na hora do show da Gretchen. Em alguns bares, é possível simplesmente chegar, comprar a bebida e sair. E até sentar, algo inimaginável há cerca de dez anos. 

Se o centro não está tão abarrotado quanto em um passado recente, isso não significa que o evento não tem seus bolsões de entusiasmo e ferveção. O bloco Tarado Ni Você, por exemplo, arrasta uma pequena multidão pela Rua da Consolação.

Parece uma versão mais sóbria do Carnaval, quando também desfilou pelas ruas do centro. No lugar do glitter, da fantasia e do topless, cachecol, malhas e casacos. Apesar de que lá está também uma típica figura paulistana: a pessoa que não acompanha a previsão do tempo ou parece imune às intempéries.

Não há massa de ar polar capaz de botar medo em certos foliões, bravos o bastante para usarem regata ou top mesmo quando nossos olhos parecem que vão gangrenar de frio só de observá-los.

O Tarado Ni Você lembra o Carnaval também em outro aspecto. Apesar de a ideia do trio elétrico agradar, impõe ao público um velho desafio: ou você se acotovela para chegar perto do trio ou dificilmente ouvirá realmente a música.

“Os paulistanos precisam fazer umas aulas com os baianos para melhorar isso. É muito difícil ouvir o som”, diz Arina Alba, que veio de Florianópolis de ônibus só para passar o aniversário na Virada Cultural.

Logo ali ao lado, o trânsito na Rua Augusta está completamente travado. Parece que houve quem achasse uma boa ideia ir ao centro de carro mesmo com tantas vias interditadas.

“A Virada Cultural está passando uma impressão de desmonte”, diz Amina Urasaki, sentada em um bar ao lado de um palco na rua Barão de Itapetininga. “Está meio melancólico mesmo se comparada com o ano passado.”

Nem só de shows, vale lembrar, vive a Virada Cultural. Uma atração para lá de prosaica, por exemplo, diverte muita gente em frente ao Teatro Municipal. É um tablado com refletores onde as pessoas podem subir e ver suas sombras projetados no prédio em frente (o da antiga loja Mappin).

O público se empolga vendo silhuetas de beijos apaixonados, mãos que fazem às vezes de bocas e danças que escandalizariam as tradicionais famílias paulistanas que compravam ali antigamente.

E que tal curtir um barco viking ou um chapéu mexicano em plena madrugada gelada? Pois o parque de diversões montado em pleno Vale do Anhangabaú também agrada ao público

O barco viking é aquele brinquedo que vai para lá e para cá num movimento pendular e estimula um friozinho na barriga. Pouco depois da meia-noite, a fila para a atração (gratuita) é de cerca de quarenta minutos.

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Já o chapéu mexicano consiste em várias cadeirinhas ligadas a um eixo que gira loucamente. Neste caso, o rapaz que controla a entrada do público calcula em uma hora e quarenta minutos o tempo na fila para desfrutá-lo.

Mas também há atrações mais tranquilas. O clássico carrinho bate-bate, por exemplo, atrai principalmente casais com crianças. “É ele quem vai dirigir, então tudo bem. Além disso, moro aqui do lado”, brinca Aldair Tomaz. Ele espera a vez para que o filho Luis Gabriel, de nove anos, possa brincar, enquanto degusta uma caipirinha.

Ricardo Matsukawa/UOL
Rua da Consolação é tomada pelo público durante a passagem do bloco Tarado Ni Você Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL
 

“A prefeitura tentou dar uma esvaziada na Virada, mas acho que tem a ver também com a qualidade das atrações”, diz Fernando Cirillo sobre atual momento do evento. “Antes você vinha e assistia um Buena Vista Social Club (famoso grupo musical cubano), por exemplo. Hoje não tem isso, e acho que começou, não sei bem o porquê, já no último ano do Haddad.”

Na Líbero Badaró, a festa Javali anima um público relativamente pequeno. O efeito “cânion urbano” dificulta um pouco as coisas. O vento encanado pelos prédios da rua sopra tão forte na madrugada que só mesmo ritmos dançantes como “Ana Júlia” parecem capazes de fazer as pessoas esquecerem que não sentem mais suas extremidades.

E nada melhor que assistir a um bom filminho de terror em uma noite fria, certo? Pois é possível fazê-lo na rua 15 de novembro. Claro que o ambiente não é tão confortável quanto o do lar, mas, mesmo assim, o cinema ao ar livre montado no local está quase todo lotado perto das duas e meia da manhã.

O filme em cartaz é “The Poughkeepsie Tapes”, um falso documentário sobre um serial killer. Foi supostamente banido dos cinemas por quase dez anos por conta do alto grau de crueldade e realismo de suas cenas. Nada que impeça alguns de aproveitar as cadeiras para dormir um pouco e, quem sabe, acordar com a energia renovada.