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This is Brasil: Rincon Sapiência corre pela liberdade e toca na ferida da escravidão

Divulgação
Cena do clipe "Crime Bárbaro", do rapper Rincon Sapiência Imagem: Divulgação

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

18/05/2018 18h12

“Donald Glover brasileiro”. “This  is  Brazil!”. Os comentários dos fãs no YouTube podem levar a crer que o novo clipe de Rincon Sapiência, “Crime Bárbaro”, foi feito sob a mesma medida de “This s America”, clipe de Glover que se tornou um fenômeno no YouTube nas últimas semanas.

Embora “Crime Bárbaro” tenha sido gravado bem antes de Childish Gambino, alcunha usada por Glover na música, chocar a audiência com um quebra-cabeça de referências sobre o racismo nos Estados Unidos, a comparação não é descabida. Lançado em pleno 13 de maio, dia da Abolição da Escravatura, o clipe de Rincon compartilha da mesma estética e crítica.

Dirigido por Nixon Freire, o clipe narra a fuga do escravo Galanga, personagem fictício criado por ele, que se vê diante da sua liberdade após matar um senhor de engenho. A data de lançamento não foi aleatória. É como se passados 130 anos de Abolição, o negro ainda estivesse constantemente fugindo do inimigo. “Isso é história”, observa Rincon ao UOL.

“Matar o senhor de engenho tem um sentido maior. É você matar os valores que privam você de ser você mesmo. Esse conceito você pode aplicar na religião, valores morais e sociais que tentam privar nossa natureza”, explica.

Abrindo mão de uma adaptação literal da canção, Rincon assume a figura de Galanga e empreende uma fuga infindável dentro de um ambiente escuro, de fundo infinito, que lembra o momento de hipnose pelo qual o personagem negro é submetido no terror “Corra!” Ofegante e sangrando ele foge de um agente da lei, que atualiza a figura do capitão-do-mato, encarregado da captura de escravos fugitivos. No final de “This is America”, Glover aparece na mesma condição.

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Imagem: Divulgação
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 “No clipe, uma das formas de retratar isso, e ainda trazendo para o contemporâneo, é a relação que a gente tem com o Estado, com o poder, e a carga que a gente leva por esse histórico racista pós-abolição", observa o rapper. "Aboliram a escravidão, mas criminalizaram as nossas religiões, nossa forma de existir, nossos cabelos. Essa abolição foi até determinada página."

Como toda a internet, Rincon conta que também ficou em choque ao assistir “This is America”. “Mas a primeira coisa que eu pensei foi no meu vídeo que já estava filmado. Pela proposta, por aparecer correndo, suando, com essas sensações reais”.

Mas o que as paridades comprovam é uma realidade cruel que ultrapassa fronteiras. “É rico porque mostra como as coisas se conversam. ‘This is America’, e a gente também é América. Lógico que ele fala da realidade de lá, mas é algo que se aplica em toda a América. A gente é parte disso. No final das contas, são dois raciocínios contemporâneos, só que um da América do Norte e o outro da América do Sul”.

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