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"Índios são mostrados como exóticos, nunca como são", diz brasileira premiada em Cannes

REUTERS/Jean-Paul Pelissier
Diretores João Salaviza e Renee Nader Messora posam com integrantes do elenco de "Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos", Henrique Ihjac Kraho e Raene Koto Kraho. Imagem: REUTERS/Jean-Paul Pelissier

Felipe Branco Cruz

Do UOL, em São Paulo

18/05/2018 15h11

A diretora brasileira Renée Nader Messora e seu marido, o português João Salaviza, ganharam nesta sexta-feira o prêmio especial do júri, em Cannes, na França, pelo filme "Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos", gravado em uma tribo indígena da etnia Krahô, em Tocantins, e falado na língua deles.

Renée conversou com UOL por telefone para comentar a vitória. Quase sem voz, de tanto comemorar, a cineasta afirmou que o prêmio foi realmente uma surpresa. "Não esperávamos nem participar de Cannes, quanto mais ganhar", ela disse.

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Pôster do filme "Chuva e Cantoria na Aldeia dos Mortos" Imagem: Reprodução
"Este foi um trabalho feito entre amigos. Eu, o João, e alguns outros amigos que vivem na aldeia. Não tivemos equipe e passamos nove meses gravando. É muito incrível perceber que o festival está aberto a outras formas de fazer cinema", afirmou. "Foi um privilégio para nós mostrar o Brasil em Cannes. Mostramos um Brasil negado pelo Brasil. O país não reconhece a existência desses povos".

Renée comentou ainda sobre o protesto que ela, o marido e os dois atores principais do filme, os índios Ihjac Kraho e Koto Kraho, fizeram no tapete vermelho de Cannes. Eles exibiram cartazes com os dizeres "Pelo Fim do Genocídio Indígena" e "Demarcação Já".

"Usamos o espaço que tínhamos para falar coisas que são importantes para a gente. 'Aquarius' deu um grande exemplo no ano passado. A receptividade para o protesto foi muito grande em Cannes. Temos que ocupar os espaços para defendermos as nossas causas. Quero que a minha filha cresça num lugar onde os povos têm suas terras respeitadas", completou.

Sobre o dia da exibição do longa-metragem, Renée afirmou que ficou muito emocionada com os aplausos. "Foram mais de dez minutos de aplausos. Muitos brasileiros vieram falar conosco e agradecer por apresentarmos o contexto indígena de uma outra forma. Os índios são mostrados sempre como seres exóticos ou como inimigos, nunca como eles realmente são", analisou.

"No nosso longa-metragem, mostramos como um adolescente lida com as questões dele, que não têm nada a ver com os brancos. Contamos o cotidiano da aldeia. Eles existiam no Brasil muito antes do descobrimento. Contamos seu cotidiano e isso é uma grande coisa do filme", finalizou.

O longa mostra a história de um jovem Krahô que está prestes a se tornar xamã após a morte de seu pai. O jovem, no entanto, não quer ser xamã e parte, temporariamente para a cidade.

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