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Muito além da Globo: como a Netflix abriu portas para atores brasileiros

Divulgação/Netflix e Montagem/UOL
Bianca Comparato, Fernanda Vasconcellos e Maria Flor: atrizes que fizeram fama na Globo estão em "3%", da Netflix Imagem: Divulgação/Netflix e Montagem/UOL

Beatriz Amendola

Do UOL, em São Paulo

25/04/2018 10h40

A TV brasileira não é mais a mesma. A Lei da TV Paga, que estabeleceu cotas para produção nacional, foi implementada há sete anos, e a Globo tem privilegiado, desde 2015, os contratos por obra em detrimento daqueles de longo prazo --política que deixou nomes como Malu Mader, Maitê Proença e Carolina Ferraz sem contratos com a Vênus Platinada pela primeira vez em décadas. Nesse meio tempo, o Brasil também entrou de cabeça no streaming, com a Netflix lançando no final de 2016 sua primeira série nacional, "3%".

A aposta deu certo. Apesar de ter sido alvo de críticas negativas, a série teve boa repercussão internacional e foi rapidamente renovada para sua segunda temporada, que estreia nesta sexta-feira (27) com uma produção notavelmente mais afinada e sofisticada. E, de quebra, ainda abriu caminhos para outras produções “made in Brazil” tomarem o serviço de streaming. 

Em março, a Netflix estreou “O Mecanismo”, a ambiciosa (e polêmica) série de José Padilha (“Tropa de Elite”) sobre a Operação Lava Jato. E outras três produções, ainda inéditas, estão em desenvolvimento pela plataforma: a sitcom “Samantha!” e os dramas “Coisa Mais Linda”, de época, e “Sintonia”, uma parceria com o produtor musical Kondzilla, dono do canal brasileiro mais visto no YouTube.

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Esse cenário abriu um leque de possibilidades para os atores brasileiros. Não é só Wagner Moura --que viveu o traficante Pablo Escobar na superprodução internacional “Narcos”-- que tem chances de se destacar na plataforma. E nem só de Globo os artistas precisam viver agora.

Bianca Comparato, que está em “3%” desde a primeira temporada como a protagonista Michele, acredita que o streaming é mais um palco de oportunidades para os atores. “São muitas possibilidades de personagens, formatos, escritores novos. O que mais me entusiasma é você ter a formação de uma nova geração de tudo, de escritores, de diretores, mais espaço pra gente criar”, diz ela ao UOL.

“A Netflix está vindo com mais três séries [no Brasil], quatro com ‘O Mecanismo’. Isso que é o mais gratificante pra mim, ver que ‘3%’ cumpriu esse papel também de poder abrir e [fazer] a Netflix ver que o Brasil é tão legal”, completa. 

Novas caras

Para sua nova temporada, “3%” reforçou o elenco com dois rostos já bem conhecidos do público brasileiro: Fernanda Vasconcellos e Maria Flor, que tiveram seus últimos papeis nas novelas “Haja Coração” (2016) e “A Lei do Amor” (2016), respectivamente. E as duas são entusiastas das possibilidades trazidas pelos serviços de streaming, entre os quais se incluem também o Amazon Prime Video e o Hulu (que não está disponível no Brasil, mas fez “The Handmaid’s Tale”, série mais comentada de 2017).

Pedro Saad/Netflix
Fernanda Vasconcellos, Maria Flor e Silvio Guindane em cena da segunda temporada de "3%" Imagem: Pedro Saad/Netflix

“Eu acho que é muito legal e muito respeitoso com o espectador você disponibilizar os episódios ao mesmo tempo e a pessoa ter a liberdade de assistir quando ela quiser. O mundo contemporâneo é assim, você pode escolher o que você vê”, afirma Maria Flor.

“Cada um hoje em dia tem sua própria televisão, digamos assim”, reflete. “Eu tenho os meus stories [do Instagram], posso falar com quem quero falar, a pessoa pode me assistir se quiser; ou se não quiser, é só passar com o dedinho. Eu acho que o futuro, sim, é o streaming e acho muito interessante que todos os outros meios de comunicação estejam se transformando por esse movimento que a Netflix começou”.

Já Fernanda ressalta a grande variedade de gêneros que essas novas plataformas oferecem. “Isso dá ao público ferramentas para se informar e conhecer questões diferentes. Que questão nova é essa da distopia? Qual é esse gênero de terror, de suspense e de ação, que você fala questões diferentes? Acho que são ferramentas para o público se informar e pensar de uma maneira diferente e abrangente”.

“E tem a liberdade de escolher”, completa Maria, referindo-se à fala da colega. “Você assiste o que você quer assistir. Você tem um cardápio de coisas, e isso é muito legal”.

As duas assistiram a “3%” antes de serem escaladas para a nova temporada – e aprovaram. Mas o que as fez aceitar entrar na produção foram suas personagens: duas mulheres envolvidas na criação do Maralto, o lugar utópico para onde vão os três por cento do título que conseguem sobreviver a um extenuante processo seletivo e deixar para trás uma vida miserável.

“Eu gosto muito da série, gosto muito do tema que a série trata, e achei uma personagem completamente diferente de tudo que eu já tinha feito”, diz Fernanda. “A Laís é uma cientista com seus ideais, e a gente não sabe se essas bandeiras que ela levanta vão chegar num lugar positivo ou negativo”. Maria sentiu algo semelhante com sua personagem, Samira: “Achei interessante voltar pro começa o de tudo. Foi por isso que eu resolvi topar fazer”.

Por trás das câmeras

Para Pedro Aguilera, criador e produtor executivo de “3%”, o streaming é uma possibilidade que reforça o bom momento que o mercado de séries vem vivendo no Brasil nos últimos tempos.

“Nessa última década, a gente tem começado a ter essas produções independentes para TV crescendo muito em número e qualidade. A Lei da TV Paga me beneficiou muito antes do ‘3%’, fazendo outras séries para canais de animação e outros da TV paga. Essa lei aqueceu a indústria, e a chegada da Netflix e outros serviços de streaming talvez amplie ainda mais”, avalia.

Aguilera acredita que o mercado de séries ainda tem muito espaço para crescer no País. “Acho que a gente tem que aproveitar bem essa onda. Eu estou torcendo que ela dure bastante para nos irmos aperfeiçoando cada vez mais as nossas obras, porque acho que já estamos num momento muito legal. Já tem muito talento no Brasil capaz de fazer coisas impressionantes que pessoas do próprio Brasil e do resto do mundo gostem bastante, acho que a gente tem esse poder. Mas a gente também é uma indústria que está se especializando e agora entendendo [as séries]”.

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