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"A Forma da Água": Um livro idealizado antes do filme, mas publicado depois

Capa do livro "A Forma da Água", de Daniel Kraus e Guillermo Del Toro - Divulgação
Capa do livro "A Forma da Água", de Daniel Kraus e Guillermo Del Toro Imagem: Divulgação

Carlos Helí de Almeida

Colaboração para o UOL

06/03/2018 04h00

Fã de filmes e livros de fantasia e terror, o americano Daniel Kraus tinha 15 anos quando começou a imaginar uma história de amor entre uma criatura aquática presa em um laboratório do governo e uma faxineira que tenta tirá-lo de lá.

A ideia --uma versão mais feliz para a trama de "O Mostro da Lagoa Negra" (1954), de Jack Arnold-- o perseguiu por anos, foi sendo deixada de lado em função de outros projetos literários e só retomada poucos anos atrás, durante um encontro de trabalho com o cineasta mexicano Guillermo Del Toro.

Nascia ali, durante uma reunião sobre a série de animação "Caçadores de Trolls", produzida por Del Toro e roteirizada por Kraus, a fagulha que deu origem ao filme "A Forma da Água", vencedor do Oscar 2018 de melhor filme, direção, trilha sonora e design de produção.

Também tomava forma ali o desejo quase juvenil de Kraus de ver publicada a história de Elisa e o anfíbio que as plateias aprenderam a amar: escrito simultaneamente à feitura do longa-metragem, e em parceira com Del Toro, o livro "A Forma da Água" chega às livrarias do mundo inteiro esta semana (no Brasil com o selo da Intrínseca), expandindo o universo do longa-metragem. Não trata-se de uma simples novelização de um roteiro: há novos personagens, mais informações sobre a mitologia da criatura, Strickland, vilão do filme, tem um novo significado na história.

"Livro e filme foram escritos separadamente um do outro, e oferecem experiências bastante diferentes", conta ao UOL o escritor de 42 anos, autor de vários livros do gênero, como "The Monster Variations" e "Rotters", na entrevista a seguir.

O escritor americano Daniel Kraus - Divulgação/Suzanne Plunkett - Divulgação/Suzanne Plunkett
O escritor americano Daniel Kraus
Imagem: Divulgação/Suzanne Plunkett

UOL - Você nutre desde a adolescência o desejo de escrever a história de amor entre uma faxineira muda e uma criatura anfíbia. Que tipo de garoto era e o que ocupava sua mente na época?

Daniel Kraus - Era um menino interessado em um tipo de material que estava acima da minha faixa etária. Cresci assistindo a filmes como "A Noite dos Mortos-Vivos" e programas de TV como "The Twilight Zone". Minha mãe talvez tenha ficado preocupada porque, em algum momento, ela passou a me indicar os filmes clássicos de monstros da Universal. Eu gostava deles, mas meus favoritos eram "Frankenstein" e "O Monstro da Lagoa Negra". Eu tinha bonecos de ambos monstros, e eles normalmente venciam os da saga "Guerra nas Estrelas". Minha mente estava sempre flutuando, sonhando com coisas que outras crianças da minha idade ainda não haviam encontrado. 

O que o impediu de desenvolver a história de Elisa e a criatura antes? Sentiu-se inseguro por algum motivo?

A maioria das minhas ideias permanece por muito tempo na minha cabeça antes de serem escritas. E o momento mágico, em que uma ideia se transforma em um romance completo, ainda não tinha acontecido para "A Forma da Água". Eu tinha a premissa, e sentia que era poderosa, mas outros projetos sempre entravam no caminho. E então conheci Guillermo e ele facilitou esse momento mágico.

"A Forma da Água" é uma história sobre os marginalizados. Como espera que as pessoas se identifiquem com eles hoje em dia?

Os marginalizados têm uma paixão que não encontramos naqueles que se consideram inseridos na sociedade --ou se têm, é muito fácil perdê-la. Eles são batalhadores porque precisam ser, têm que lutar por comida, atenção, emprego, carinho. Mas quando duas pessoas se conectam, como Elisa e Giles, ou Elisa e a criatura, podem ser extremamente poderosos e a lealdade que vem com isso pode forjar uma ligação inquebrável. A ideia de que há "outros" entre nós, ao longo da História, tem sido a causa de preconceito e de violência. Se pudéssemos superar essa coisa simples e aceitar uns aos outros, a despeito do que possa ser ou de onde possa vir, estaríamos cheios de amor.

Como foi descobrir afinidades com Guillermo Del Toro? Dois homens gerados em culturas diferentes ligados pelo mesmo tipo de deslumbramento pelo fantástico...

Foi uma surpresa! Somos pessoas muito diferentes, com estilos de escrita muito diferentes. Sou naturalmente um cara cínico; Guillermo é extremamente otimista. Mas em nosso amor por "O Monstro da Lagoa Negra" éramos como uma pessoa só. Nós dois lemos como a criatura havia sido tratada, e nós dois desejamos um fim melhor para ela.

Ilustração do livro "A Forma da Água" - Divulgação/James Jean - Divulgação/James Jean
Ilustração do livro "A Forma da Água"
Imagem: Divulgação/James Jean

Em que momento, depois de Del Toro sugerir transformar seu argumento em filme, que você decidiu desenvolver a ideia como um livro também?

Contei a história para ele já como uma ideia de livro. O conceito do romance estava vinculado ao filme desde aquele primeiro momento. Ambos tínhamos outros projetos para terminar primeiro, então quando Guillermo conseguiu sinal verde para fazer o filme, eu estava começando desenvolver o livro. Por isso eles acabaram sendo criados simultaneamente.

Como você trabalhou com Del Toro na feitura do romance, em termos práticos? Quanto das sugestões dele, que estava filmando "A Forma da Água", você usou para alimentar o romance?

Guillermo usou minha ideia inicial, casou-a com as que ele tinha desde que era criança e criou os ritmos da trama. Daí comecei a escrever grandes pedaços da história e as enviava para ele, para revisões e novas ideias. Trabalhamos de maneira semelhante na série de TV "Caçadores de Trolls". Sou bom em adicionar textura e detalhes em qualquer coisa louca que Guillermo imagine.

O livro não é uma simples novelização de um roteiro. Você vê o livro como um complemento ou um companheiro do longa?

Nenhuma coisa nem outra, de verdade. Você pode ler o livro e nunca ver o filme, ou vice-versa. Eles foram desenvolvidos o mais separadamente possível e não dependem um do outro. Mas ambos podem ser apreciados juntos e oferecer experiências bastante diferentes. É realmente um relacionamento único.

O livro exigiu muitas pesquisas sobre a época em que é ambientado?

Sempre faço muita pesquisa. Li muito sobre a Amazônia, biologia anfíbia, espiões da Guerra Fria, experiências científicas consideradas imorais, vida doméstica dos anos 1960, a Guerra da Coreia. Também fiz pesquisas sobre Baltimore, cidade onde a trama se passa. Sempre é surpreendente o quanto uma história pode ser informada pela história do lugar onde a ação acontece.

Acha que a consagração do filme de Guillermo Del Toro em festivais de cinema e no Oscar coloca gênero de fantasia em um novo patamar de reconhecimento?

Acho que ele resistiria a essa caracterização. A fantasia é um dos gêneros mais ricos em ideias do mundo. O que Guillermo faz com seu filme é enfatizar a humanidade dos personagens, e do monstro. Quando você assiste algo como "O Monstro da Lagoa Negra" você precisa procurar essa humanidade, que está lá, mas requer algum trabalho para encontrar. Guillermo o traz para a dianteira. Esse é o seu instinto e a sua genialidade.