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Análise: Nem Jorge Amado salva a Flip deste ano

André Barcinski

Colaboração para o UOL, em Paraty (RJ)

02/07/2016 07h00

"Trabalho em Paraty desde 82 e nunca vendi tão pouco", diz Jesualdo Rodrigues Martins, mais conhecido por Pará, dono de um conhecido carrinho de venda de bebidas alcoólicas na Praça da Matriz, no Centro Histórico. O carro-chefe da Caipi Fruta do Pará é o drink Jorge Amado - cachaça paratiense com cravo e canela, maracujá e limão - mas as vendas dessa edição da Flip, a 14ª do evento, foram decepcionantes. "Nem o Jorge Amado me salvou esse ano."

Pará não está sozinho em sua avaliação pessimista da festa. Donos de pousadas, bares e restaurantes têm reclamado muito do baixo número de turistas. Hotéis e pousadas que em anos anteriores estavam lotados ostentavam placas anunciando vagas disponíveis.

José Carlos Pimpão, gerente do Hotel e Pousada do Forte, diz que nem descontos de 50% nas diárias animaram os turistas. Dos 18 quartos, dez estavam vagos na noite de sexta-feira. "Nunca vi isso na Flip. Geralmente temos o hotel lotado em fevereiro, mas tivemos um cancelamento de uma empresa no início do ano e não conseguimos preencher os quartos nem com anúncios e promoções."

Os comerciantes culpam a crise econômica, mas a maioria reclama do que considera pouca atratividade da programação da Flip. "O Bourbon (festival de jazz e blues) aconteceu em maio, no meio da crise, e a cidade estava lotada. Arrebentei de vender caipirinha", diz Pará.

Murilo Monticeli, gerente da Pousada Villas de Paraty, diz que clientes que costumam vir à Flip todo ano cancelaram as reservas por não conhecerem a poeta Ana Cristina César, homenageada este ano. "Para o turista, o homenageado da Flip é muito importante, assim como um show de abertura atraente, e esse ano não tivemos show de abertura e o único nome mais conhecido na programação era o Caco Barcellos", diz Gegê, gerente do restaurante Thai Paraty, que estava às moscas às 21h30 de quinta-feira.

A verdade é que a programação da Flip 2016, embora tenha nomes muito importantes da literatura mundial, como o norueguês Karl Ove Knausgard e a russa Svetlana Aleksiévitch, vencedora do Nobel de Literatura, teve pouco apelo ao público médio. Só para comparar, ano passado, já em meio à crise econômica, o homenageado foi Mário de Andrade, e entre as atrações dos debates estavam nomes como o cubano Leonardo Padura. Em 2014, o homenageado foi Millôr Fernandes e a lista de convidados incluiu Fernanda Torres, Michael Pollan e Marcelo Rubens Paiva. O show de abertura foi de Gal Costa, que trouxe um bom público a Paraty.

Keiny Andrade/Folhapress
Irvine Welsh durante mesa "Na pior em Nova York e Edimburgo", em Paraty Imagem: Keiny Andrade/Folhapress
Um dos autores mais pop da edição deste ano foi o escocês Irvine Welsh, autor de "Trainspotting", livro que deu origem a um filme icônico dos anos 90. Mas Welsh foi subaproveitado e acabou escondido numa mesa às 21h30 de quinta-feira, dividida com o norte-americano Bill Clegg. A mesa foi batizada "Na pior em Nova York e Edimburgo", um nome que não diz absolutamente nada sobre os debatedores, quando a simples menção ao título "Trainspotting" certamente multiplicaria o interesse do público pelo debate.

A impressão é de que a Flip está cada vez mais fechada em um mundinho próprio, e pouco interessada em atrair um público mais amplo e diversificado. É perfeitamente possível conciliar uma programação de qualidade com nomes mais conhecidos do grande público. Afinal, o nome do evento é FESTA Literária Internacional de Paraty, e todo o comércio da cidade espera a Festa com ansiedade.

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