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Novo "Trainspotting", cena punk e Brexit: um papo com Irvine Welsh na Flip

Keiny Andrade/Folhapress
30.jun.2016 - Irvine Welsh durante mesa "Na pior em Nova York e Edimburgo" na Flip 2016, em Paraty Imagem: Keiny Andrade/Folhapress

André Barcinski

Colaboração para o UOL, em Paraty

01/07/2016 10h25

Nem um atraso de 5 horas no voo consegue tirar o bom humor de Irvine Welsh. O escocês de 58 anos, conhecido mundialmente por livros como "Trainspotting" (1993), chegou a Paraty para participar da Flip 2016 (Festa Literária Internacional de Paraty), onde divulga "A Vida Sexual das Gêmeas Siamesas" (Rocco). Welsh veio de Chicago, onde mora com a mulher, depois de uma temporada na Escócia filmando "Trainspotting 2".

Em entrevista exclusiva, o autor falou do novo filme, de sua vida na cena punk de Londres e da saída do Reino Unido da União Europeia.

UOL - Como tem sido a filmagem de "Trainspotting 2"?
Irvine Welsh -
Fantástica. É sempre divertido reencontrar velhos amigos. A única diferença é que agora temos um bom orçamento.

A equipe é a mesma?
Exatamente a mesma. Até o sujeito que serve chá no set é o mesmo. Ele, infelizmente, não melhorou de vida desde o primeiro filme. Todo mundo está lá: Danny [Boyle, diretor], John [Hodge, roteirista], o elenco todo. Eu reprisei meu papel [do traficante Mikey Forrester]. Foi muito divertido.

A história é baseada em "Porno" (2002), continuação de "Trainspotting"?
Sim, com trechos de histórias de outros livros meus, inclusive algumas histórias de "Trainspotting" que ficaram de fora do primeiro filme. Mas "Porno" foi lançado no início dos anos 2000, em plena explosão da internet, e achamos que a história poderia ficar um pouco datada, então a adaptamos para os tempos atuais. Há elementos também de "The Blade Artist" [novo livro de Welsh, ainda inédito no Brasil, que acompanha o personagem psicopata Begbie depois de mudar de nome e virar artista plástico]. John vem trabalhando nesse roteiro há 15 anos e fez um trabalho espetacular. Geralmente acho continuações uma merda, mas esta vai surpreender muita gente.

Você tem ideia de quantas cópias "Trainspotting" vendeu desde 1993?
Não tenho ideia. No Reino Unido vendeu mais de 1 milhão, com certeza. Ainda recebo cheques gordos todo ano. Parece que sempre há uma nova geração de leitores que descobre o livro.

Como um escocês acaba morando em Chicago?
Culpa da minha mulher, que é americana. Também temos uma casa em Miami.

Miami? Quer dizer que o autor de "Trainspotting" gosta de praia? Isso é inesperado.
Claro. Sou de Edimburgo, a cidade com o pior clima do mundo, sempre com um vento congelante que destrói seu peito e aquela chuva que não para, então ficar deitado ao sol é uma experiência maravilhosa. Gosto da Flórida, mas assim que desembarco no aeroporto de Miami e sinto aquele calor, meu QI cai vários pontos. É impossível estar debaixo do sol e ter ânimo para ler livros sérios.

Você poderia falar um pouco sobre a cena punk de Londres do fim dos anos 1970?
Fui muito sortudo. Eu tinha uma tia que morava perto de Londres e passei férias lá desde que tinha 17 anos, em meados dos anos 1970. Eu era obcecado por música e pela cena punk e continuei indo à cidade todos os anos. Aquilo era um mundo novo para mim e representava uma sensação de liberdade. O pessoal mais antenado e "cool" via as bandas mais hypadas, como Sex Pistols, Clash e Siouxsie and the Banshees, mas eu nunca fiz parte dessa turma e gostava mais de 999, Chelsea, UK Subs e Angelic Upstarts, que eram bandas de classe trabalhadora. Foi um período muito interessante.

Você chegou a tocar em várias bandas. Alguma fez sucesso?
Nenhuma. Eu tentei cantar, tocar guitarra e baixo, mas era tão ruim que assim que a banda melhorava um pouco, me despediam. Mas vários amigos meus fizeram muito sucesso.

Quem, por exemplo?
Eu ia muito a Manchester e fiquei amigo do pessoal do Joy Division, especialmente de Bernie [Bernard Sumner] e Hookie [Peter Hook]. Depois o Ian [Curtis] se matou e Bernie e Hookie fundaram o New Order. Somos bons amigos até hoje. Quando conheci minha mulher, ela era a maior fã do New Order e não acreditou que eu conhecia os caras.

Você também é amigo do pessoal do Primal Scream. Você os conhece da Escócia?
Sim, conheço Bobby [Gillespie, vocalista] e Alan [McGee, dono do selo Creation, que lançou Primal Scream, The Jesus and Mary Chain, entre outros] há mais de 30 anos. Encontrei McGee recentemente, ele voltou a trabalhar com os irmãos Reid [William e Jim, do The Jesus and Mary Chain] e me disse que eles continuam os mesmos filhos da puta de sempre.

Como assim?
Jim e William são irmãos, mas eles realmente se odeiam, não é um ato. Eles não conseguem ficar por mais de dois minutos no mesmo recinto sem saírem na porrada. Além do mais, não são as pessoas mais fáceis do mundo. Eles estavam sem ganhar dinheiro há uns 25 anos, fizeram uma turnê ano passado com McGee e terminaram com 330 mil libras cada. Aí, William foi reclamar com McGee que não era suficiente, e McGee disse: "William, você estava falido, morbidamente obeso e sem um tostão no bolso, e fica reclamando? Vá se foder!".

Você foi DJ de house music no início dos anos 2000. Como passou do punk rock para a música eletrônica?
Sempre gostei de música eletrônica e adorava discotecar, mas perdi o interesse quando a música começou a ficar digital e os DJs passaram a usar laptops. Eu usava vinis e gostava de ir a lojas pesquisar, mas depois que as gravadoras passaram a mandar links para músicas, abandonei. Aquilo não era mais para mim.

O que você tocava?
Basicamente house e disco music. Qualquer coisa que levasse as garotas para a pista.

Conhecendo seu passado no punk rock, achei que você tocaria coisas mais pesadas, como techno.
Gosto muito de techno, mas não na pista de dança. Morei um tempo na Bélgica e vi de perto a cena de hard techno e gabba, e achava horrível aqueles caras sem camisa, loucos de anfetamina, pulando e socando o ar. Era uma visão do inferno. Eu gostava de tocar música para as meninas.

O que você achou da saída do Reino Unido da União Europeia e toda a questão do Brexit?
Tenho de dizer que não fiquei tão arrasado quanto muitas pessoas. O pior aspecto do Brexit é que a campanha ganhou o apoio de muita gente da extrema direita, não só na Inglaterra, mas em toda a Europa, e isso vem causando muitos ataques contra imigrantes, o que é terrível. Por outro lado, a saída pode significar o fim desse projeto neoliberal de expansionismo a todo custo. Acho que a Europa precisa trabalhar para países como a Grécia, e não contra a Grécia. Se queremos uma comunidade europeia de verdade, ela não pode apenas significar a Alemanha mandando e o resto obedecendo. Isso nos dá uma chance de fazer isso.

Mas a saída do Reino Unido não pode dificultar a vida dos imigrantes?
Esse problema dos imigrantes é completamente inventado pela mídia. Nós temos que importar imigrantes, porque temos uma população velha e que está envelhecendo cada vez mais. Outro aspecto importante do Brexit é que pode ajudar a revitalizar a ideia de independência da Escócia do Reino Unido.

O que você achou da derrota da Inglaterra para a Islândia na Eurocopa?
Foi hilariante. Divertido demais. A Inglaterra fodeu a Europa, e a Europa retribuiu fodendo a Inglaterra.

Teaser de "Trainspotting 2"

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