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Doação recorde da Receita Federal salva 2015 dos museus

Jotabê Medeiros

Colaboração para o UOL, em São Paulo

21/12/2015 11h40

O que era para ser um ano medíocre acabou sendo, surpreendentemente, uma temporada bastante proveitosa na área de arte e museus no Brasil. Isso por conta de uma insólita combinação de ações: a apreensão recorde de obras de arte por parte da Receita Federal e a intensificação da política de doações (tanto de entes privados quanto públicos) para museus.

Segundo a assessoria de imprensa da Receita Federal, foram destinadas 149 obras para museus federais (pinturas, gravuras e tapeçarias) no ano que termina, peças avaliadas em cerca de R$ 8 milhões. A destinação de bens apreendidos é recente e foi regulada pela Lei 12.840/2013 (e pela portaria MF/MinC 506/2014). Acontece que em 2014, pela Lei Eleitoral, não foi possível à Receita fazer as doações - a legislação proíbe. Assim, pelo acúmulo de obras sob sua guarda, 2015 acaba com uma marca excepcional.

O Museu Nacional de Belas Artes, do Rio, por exemplo, recebeu em 2015 um lote de vinte obras de arte repassado pela Receita Federal. Estão nesse momento em exibição na mostra Apreensões e Objetos do desejo: obras doadas pela Receita Federal ao MNBA. A exposição inclui trabalhos do italiano Michelangelo Pistoleto, do indiano Anish Kapoor, do inglês Antony Gormley, da francesa Niki de Saint-Phale, do argentino Miguel Ángel Ríos, entre outros.

O Museu da Abolição, em Recife (PE), e o Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, receberam seis bens culturais apreendidos pela Receita Federal. Integram o conjunto a pintura Bahia-Brasil, atribuída a Wim L. Van Dÿc (que foi para o Museu Histórico Nacional); além de quatro telas sem moldura de autoria de Maurício Kuhlman e o livro Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil (Paris, 1955), de Jean-Baptiste Debret, e gravuras associadas (estes últimos doados ao Museu da Abolição).

Em outro lote doado, o Museu Nacional de Belas Artes recebeu ainda a pintura Mangueïrengruppe (grupo de mangueiras), do artista austríaco naturalista Joseph Selleny, do século 19; o Museu da Abolição (PE) recebeu duas esculturas intituladas Negros Venezianos suportando resposteiros, representação artística de escravos do século 19; o Museu da República (RJ) recebeu a obra de Luís Ribeiro, Rio de Janeiro – Baia de Guanabara, de 1899, cena marítima da então capital federal, nos primeiros momentos da República. A tela Le Corcovade, de Henri Langerock, de cerca de 1880, foi destinada ao Museu Imperial (RJ); outra pintura, O Martírio das onze mil virgens, da escola flamenca do século 17, foi destinada ao Museu Histórico Nacional (RJ), que também recebeu a série de tapeçarias Noblemen in the Garden e uma tapeçaria em fio de lã, de 1739. Ruth Beatriz, diretora do MHN, diz que, com essas peças, o museu forma um conjunto de tapeçarias jamais visto no Brasil.

Novas aquisições

As notícias são boas também da esfera privada. Neste mês, o Instituto Brasileiro de Museus (órgão do Ministério da Cultura), em parceria com o Itaú Cultural, anunciou a doação de 2.200 obras de arte às secretarias de Cultura e sistemas de museus dos Estados para distribuição a museus e demais acervos públicos do país. As obras são, principalmente, gravuras, nas mais variadas técnicas: litogravura, xilogravura, serigrafia e metal, de artistas brasileiros e estrangeiros. A iniciativa tem como foco a formação e ampliação de acervos públicos.

O Itaú já tinha doado, em 2013 (também com intermediação do Ibram), 500 obras, que foram destinadas a cinco Estados: São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Pernambuco. Agora, as obras vão para 11 estados: Bahia, Ceará, Espírito Santo, Maranhão, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Pernambuco, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Segundo o Ibram, essa destinação foi definida em função da existência de sistemas de museus estruturados e do montante de museus em cada Estado.

Aquisições, que são raras em tempos de crise, chegaram de diversas fontes. O Museu Imperial (RJ) recebeu de Deirdre Atmore e George Andrews, descendentes do viajante inglês William Rickford Collett (1810-1882), uma caderneta (travel-log) com anotações sobre a viagem do aventureiro entre os estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais – realizada de fevereiro a abril de 1848.

Eduardo Ortega/Divulgação
Cavaletes criados por Lina Bo Bardi voltaram ao Masp Imagem: Eduardo Ortega/Divulgação
No Museu de Arte de São Paulo (Masp), a boa notícia teve mais a ver com museologia do que com arte propriamente dita: desde o início do mês, voltaram a ser utilizados nas atividades do museu o cavalete de vidro original desenhado pela arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, um símbolo do moderno design brasileiro. Agora eles estão redefinidos em concreto, madeira e cristal, com algumas leves mudanças em seu sistema de fixação das obras de arte. A volta dos cavaletes marca uma mudança de filosofia da nova direção do museu em relação à anterior, que ficou décadas no controle da instituição.

Reaberturas e inauguração

O país também recebeu de volta três museus que estiveram fechados por muito tempo. Foram reabertos ao público este ano: Museu Lasar Segall (SP), Museu da Boa Morte (GO) e Museu de Arte Sacra de Paraty (RJ).  O Museu Lasar Segall, na Vila Mariana, possui 3 mil peças em seu acervo e ficou um ano e meio em reforma. Reabriu em setembro, após um investimento de R$ 2,5 milhões..

Já o Museu de Arte Sacra de Paraty reabriu após quatro anos fechado. A renovação incluiu o restauro da Igreja Santa Rita e a adoção de uma nova estratégia expositiva que deverá revalorizar o patrimônio histórico que o conjunto ali representa. Já o Museu de Arte Sacra da Boa Morte (GO), tombado pela Unesco, consumiu R$ 500 mil em recursos e reabriu nesta segunda a primeira etapa de suas obras de restauração. Edifício de 1779, possui mais de 900 peças em seu acervo.

Neste fim de semana, dia 19, após cinco anúncios de abertura que não se concretizaram, espera-se finalmente a inauguração, na Praça Mauá, no Rio de Janeiro, do Museu do Amanhã. Projeto do espanhol Santiago Calatrava, é um dos mais ousados projetos da museologia brasileira atual e integra eixo do plano de revitalização da cidade. "O Museu do Amanhã é um novo tipo de museu de ciências onde você é convidado a examinar o passado, conhecer as transformações atuais e imaginar cenários possíveis para os próximos 50 anos por meio de ambientes audiovisuais imersivos, instalações interativas e jogos disponíveis ao público em português, inglês e espanhol", diz curadoria.

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