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Eterno vice, por que o incensado Murakami nunca leva o Nobel de Literatura?

Eugene Hoshiko/AP
Vendedor em Tóquio anuncia novo livro de Haruki Murakami, best-seller absoluto no país Imagem: Eugene Hoshiko/AP

Rodrigo Casarin

Colaboração para o UOL, em São Paulo

08/10/2015 16h40

Na manhã desta quinta-feira (8), o Nobel de Literatura foi anunciado para a escritora bielorrussa Svetlana Alexievich. Mais uma bola na trave para o japonês Haruki Murakami, uma espécie de "Vasco da literatura", que todo ano aparece como um dos favoritos a levar a honraria, mas não leva.

Desde 2004 é possível encontrar notícias que apontam o autor de “O Incolor Tsukuro Tazaki e Seus Anos de Peregrinação” como forte candidato ao maior dos reconhecimentos literários, sondagem que se intensifica após 2009, quando foi lançada a trilogia “1Q84”, sucesso em todo o mundo. Seu nome quase sempre vem acompanhado do norte-americano Philip Roth, outro "eterno vice" do título oferecido pela Academia Sueca. Justiça aos apostadores seja feita: neste ano, pelo menos, a escolhida era a nº1 nas listas de apostas em Londres.

Mas o que faz com que Murakami não caia nas graças da Academia Sueca? Ele não teria o estilo que agrada a Academia? Seria um escritor popular demais para a tal prêmio? Essa última possibilidade está em alta entre críticos e escritores brasileiros.

Para Henrique Rodrigues, doutor em Letras pela PUC-RJ e autor de “O Próximo da Fila”, “Murakami vem disputando com o Roth para ver quem fica no eterno segundo lugar, um tipo de Vasco da Gama literário. Talvez o japonês seja pop demais para o vetusto prêmio da Academia Sueca. E por ser mundialmente lido por muitos jovens, talvez o coloquem num lugar menos 'sério' na hierarquia literária”.

É porque estão esperando ele ficar mais velho. [Vão premiá-lo] quando ele não tiver mais o que fazer com a grana
Marcelino Freire, escritor

Autor de “As Fantasias Eletivas” e “História da Chuva”, o escritor Carlos Henrique Schroeder, segue linha semelhante. “Eu sou fã da literatura japonesa, sempre retorno às leituras de [Yukio] Mishima, [Jun'Ichiro] Tanizaki e [Yasunari] Kawabata. Mas sinceramente acho que é mais fácil algum autor ou alguma autora obscura japonesa ganhar o prêmio do que o Murakami. Gosto e respeito ele, mas acredito que essa pegada pop não agrade a Academia Sueca, um tanto conservadora".

Já Rafael Gallo, autor do recém-lançado “Rebentar”, imagina que o fato de o Nobel ser decidido por um grupo de poucas pessoas possa ser uma das razões para que Murakami não tenha sido agraciado até aqui. “Talvez alguém ali tenha votado pelo Murakami, mas pode ser uma pessoa menos incisiva, diferente de quem defendeu o vencedor de cada ano. Ainda que as forças externas entrem no jogo, no fim das contas isso tudo cai na mão de um grupo de seres humanos que toma decisões tão passíveis de acordo ou desacordo quanto qualquer outra opinião, inclusive essas que damos aqui, ou a de que o Murakami seja realmente um candidato mais próximo do Nobel, e não só uma expectativa de quem não está no comitê de decisão.”

Questões políticas

É senso comum que o Nobel não olha apenas para a qualidade literária de seus premiados, mas também para como eles lidam com questões políticas, algo lembrado por Rogério Pereira, editor do jornal literário Rascunho e autor de “Na Escuridão, Amanhã”. “Murakami é apenas um bom autor pop japonês, interessante como ficcionista. Mas nunca apostei nele para o Nobel de Literatura. E, além disso, a obra de Murakami tem pouca força política — algo que o Nobel valoriza muito, basta ver os últimos vencedores. Há muitos autores com mais chances do que Murakami de levar o Nobel. Para citar apenas um: [o israelense] Amós Oz”.

Editor da E-Galáxia e da revista literária Peixe-elétrico, além de mestre em história social pela USP, Tiago Ferro, por sua vez, traz um outro viés para a questão: “por que Murakami deveria ter levado?”. Para ele, a procura pelos motivos da não premiação do japonês “parte do princípio de que há uma recorrente injustiça em não premiá-lo. Ele seria então uma unanimidade? Certamente entre as figuras bem cotadas ele se tornou o mais pop. Não tenho a informação exata, mas provavelmente é um do que mais vende livros em todo o mundo entre os finalistas.”

Continuando em seu argumento, o editor afirma que não acha errado que critérios políticos – que entende como “Iluminar certos momentos históricos opacos e realidades pouco exploradas” – interfiram na escolha do Nobel, desde que as qualidades literárias estejam comprovadas. Por fim, juntando as duas frentes e ponderando que é um “prêmio concedido a partir do cânone ocidental, portanto há sempre certa confusão entre política e literatura, o que só atesta nossa ignorância...”, conclui: “Sucesso de vendas e público não confere qualidade literária ou justificativa política para a escolha do vencedor. O que não quer dizer que Murakami não seja um bom escritor.”

E há ainda quem enxergue uma espécie de “trollagem” da Academia para que Murakami por ora não tenha recebido o prêmio. “É porque estão esperando ele ficar mais velho. [Vão premiá-lo] quando ele não tiver mais o que fazer com a grana”, brinca o escritor Marcelino Freire, de livros como “Angu de Sangue” e “Contos Negreiros”.

Vale lembrar que o Nobel rende vencedor 8 milhões de coroas suecas (cerca de R$3,7 milhões pela conversão atual) e que o japonês está com 66 anos anos.

Enquanto o prêmio não vem – se é que um dia virá –, Murakami segue como um dos escritores mais populares do mundo, com livros traduzidos para mais de 50 línguas. Os japoneses, por sua vez, ainda depositam nele a esperança de terem o terceiro Nobel de Literatura da história do país, que já comemorou as nomeações de Yasunari Kawabata, em 1968, e Kenzaburo Oe, em 1994.

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