Livros e HQs

Livros de celebridades do YouTube são a nova aposta do mercado editorial

Rodrigo Casarin

Colaboração para o UOL, em São Paulo

02/10/2015 06h00

Nem a própria Companhia das Letras esperava tamanho sucesso quando fechou o contrato para publicar o livro de estreia de Kéfera Buchmann, 22, celebridade do YouTube com o canal “5inco Minutos”, seguido por mais de 13 milhões de internautas.

A obra, “Muito Mais que 5inco Minutos”, saiu pela Paralela, um dos selos da editora, com a imponente tiragem inicial de 75 mil exemplares. Desses, 16 mil foram comercializados já na pré-venda. Logo, a editora providenciou a reimpressão de 50 mil livros e já programou um novo pedido à gráfica. Até aqui, este é o maior exemplo de um novo fenômeno que começa a despontar no mercado editorial nacional: os livros de youtubers.

Na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, Kéfera foi uma das autoras que mais atraiu público e seu livro encabeçou as listas de mais vendidos do evento. O sucesso foi tamanho que até Paulo Coelho, em sua conta no Twitter, mandou um conselho à garota: "Bravo Kéfera! Agora vem troll frustrado, pseudointelectual incomodado, escritor sem leitor, mas vale a pena!".

Se nos vídeos para internet Kéfera fala de tudo, no livro ela expõe sua própria experiência. “Ela tem uma história para contar", diz Bruno Porto, publisher da Paralela. "Ela enfrentou bullying e outras dificuldades na infância e sem a assistência de ninguém se tornou um fenômeno de comunicação, que hoje tem 13 milhões de seguidores. Ela chegou nesse público usando só a intuição e o carisma, ela não é um produto de marketing. É espantoso o seu talento”, afirma o editor, justificando a relevância do livro.

Divulgação
Os livros "Diário de Um Adolescente Apaixonado", de Rafael Moreira, e "Eu Fico Loko: As Desaventuras de Um Adolescente Nada Convencional", de Christian Figueiredo Imagem: Divulgação

Tendência internacional

O fenômeno não é exatamente inédito. Em um passado recente, muitos blogs viraram livros –e continuam virando–, mas a popularidade dos vídeos parece dar a esses novos astros uma força de mercado inédita. Na própria Bienal, Christian Figueiredo, autor do “Eu Fico Loko”, que migrou para o papel com dois títulos homônimos ao canal, também arrastou pequenas multidões por onde passava.

Olhando para fora, é possível detectar que em países como Espanha, Inglaterra e Estados Unidos, essa tendência já está consolidada, com livros de personalidades do YouTube despontando com frequência em listas dos mais vendidos e editoras apostando em selos dedicados exclusivamente ao nicho.

No Brasil, a lista desses quase sempre jovens que fazem sucesso na web e agora começam a lançar seus livros é grande. Dentre os que já publicaram ou que preparam a publicação de algo estão nomes de peso, como Felipe Neto, do “Não Faz Sentido”, Rafael Moreira, de “Diário de um Adolescente Apaixonado”, Danielle Noce, que tem um canal com seu nome, e Frederico Elboni, do “Entenda os Homens”.

Para Porto, as publicações de livros dessas personalidades são “absolutamente previsíveis e naturais, uma vez que elas ocupam um espaço cada vez maior na vida e na imaginação das pessoas, sobretudo dos jovens. Alguém se espanta com livros escritos por atores e cantores? Não. Então por que achar que personalidades que 'falam' com milhões de pessoas não têm histórias para contar?”.

Outra casa que vem apostando no nicho é a Planeta. São dela os livros “Manuel da Mulher Bem Resolvida”, de Taty Ferreira, do canal “Acidez Feminina”, que já vendeu 13 mil exemplares, “Por Onde Andam as Pessoas Interessantes”, de Daniel Bovolento, e “Uma Nova Mulher em 30 Dias”, de Fabiana Bertotti --esses dois últimos, cada um com 6 mil exemplares vendidos.

Vale lembrar que, se os números estão bem abaixo dos de Kéfera, por outro lado eles representam mais que o dobro das tiragens que os livros de literatura normalmente recebem no país. Investindo no segmento, a editora já tem programado para o ano que vem os lançamentos de títulos de Fabiola Melo e Bruno Miranda.

Reprodução/YouTube
A youtuber Pam Gonçalves Imagem: Reprodução/YouTube

Livros de booktubers

No YouTube, aliás, Miranda fala justamente sobre livros no canal “Minha Estante”. O crescimento das publicações dessas celebridades coincide com o aumento de popularidade dos booktubers, leitores que fazem vídeos na internet para comentar suas leituras. Com isso, é natural que essas pessoas também estejam publicando os seus próprios livros.

É o caso de Bruno Miranda e também de Pâm Gonçalves, que está para lançar pela Galera Record a obra que criou pensando em um público jovem adulto. “Não posso dizer muita coisa, mas a história se passará na faculdade”, adianta a autora, que aposta em um diálogo entre as mídias.

“Quem se torna 'celebridade' na internet é porque tem um público que para para ver o que ele tem a dizer. O conteúdo sendo transformado para uma mídia diferente só tem a acrescentar e a apresentar para outros públicos. Por ter um canal no YouTube exatamente de livros eu fico ainda mais feliz, porque para boa parte das pessoas, os livros de celebridades do YouTube acabam sendo uma porta de entrada na literatura, como foram outros best-sellers”, argumenta.

Importância para o mercado

Em um momento de economia delicada para o país e em um ano em que outro fenômeno –o dos livros para colorir– ajudou a segurar o setor editorial, os editores assumem que o nicho poderá se tornar bastante interessante. "O mercado indica que o filão é forte e pode funcionar. Mas pessoalmente acho que depende muito do tipo de livro que essas personalidades vão escrever. Quem tiver talento literário, vai se sobressair", aposta Ana Lima, editora da Galera Record.

Porto, por sua vez, vê que essas obras atingem um público que até então não buscava por livros. "O sucesso do título da Kéfera e de outros sinalizam que há um público leitor enorme que parece não estar sendo atendido. O que vimos na Bienal são meninas e meninos que não têm o hábito de frequentar livrarias. No Twitter, muitos dizem que estão lendo um livro pela primeira vez. Não há como negar que é uma ótima notícia", constata o editor da Companhia das Letras. Resta saber se tudo isso irá durar muito mais do que cinco minutos.

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