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Onde encontrar uma boa cena de sexo na literatura? Não procure em "50 Tons"

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Cena do filme "Cinquenta Tons de Cinza", baseado na trilogia de E.L. James Imagem: Reprodução

Rodrigo Casarin

Colaboração para o UOL, em São Paulo

25/09/2015 07h00

Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.
Trecho do conto "O Primeiro Beijo", de Clarice Lispector

Com o lançamento do romance "Grey", da escritora E. L. James, que traz a versão do personagem principal da trilogia "Cinquenta Tons de Cinza" para a famosa e polêmica história erótica, as discussões sobre o que é uma boa cena de sexo na literatura voltam à tona, juntamente com as críticas ao livro.

Não há um padrão definido para isso – tal qual o próprio sexo, as possibilidades são infinitas e há gosto para tudo. Uma boa cena de sexo escrita pode ter a sutileza da citação que abre esta reportagem, por exemplo, retirada do conto "O Primeiro Beijo", de Clarice Lispector, que retrata as descobertas de um garoto no assunto. Mas também pode ser direta, explícita, sem rodeios quanto ao ato, formato preferido de autores respeitados, como o cubano Pedro Juan Gutiérrez e o alemão – que fez sua carreira nos Estados Unidos – Charles Bukowski.

Muitos escritores admitem que criar o sexo na literatura é uma tarefa bastante complicada. "Toda cena é difícil de escrever, mas a de sexo é três vezes mais. Pelo menos pra mim", afirma Carol Bensimon, autora de "Todos Nós Adorávamos Caubóis" e "Pó de Parede". Para ela, esses momentos no texto precisam seguir o clima do livro para que tenham um resultado satisfatório. "Se se trata de um romance cheio de sutilizas, as cenas de sexo também vão ser carregadas de sutilezas, e assim por diante. Então eu diria que, antes de qualquer coisa, uma boa cena de sexo é aquela que não causa 'ruído' de leitura, que parece natural e perfeitamente integrada ao resto do texto."

Paulo Scott, autor de "Habitante Irreal" e "O Ano em que Vivi de Literatura", tem opinião semelhante à de sua colega. Para ele, a boa cena de sexo é aquela que "colabora para a narrativa, a que se justifica em função do arco narrativo dos personagens; caso contrário, é perda de tempo, ornamento dispensável" e deve estar integrada à linguagem da obra. "Arriscaria dizer que na prosa contemporânea o melhor caminho é o que não floreia, é a linguagem direta, sem metáforas ou alegorias açucaradas, sem a erotização mecânica da velha e desgastada figura do macho-alfa conquistador, infalível."

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Cena do filme "Contos Proibidos do Marquês de Sade", com Geoffrey Rush e Kate Winslet Imagem: Reprodução

O doutorando em literatura brasileira pela USP (Universidade de São Paulo) e pesquisador de erótica literária Ronnie Cardoso vai um pouco além. Para ele, é necessário que a cena rompa com a expectativa do leitor, o que acontece quando "se esquadrinha o lado obscuro da nossa sexualidade". Para exemplificar, cita um trecho do livro "Três Filhas da Mãe", de Pierre Louys, que envolve incesto e alguma escatologia. "Nele, a filha engravida a própria mãe em meio a uma orgia", sintetiza o pesquisador. Quem Cardoso aponta como "grande mestre" nesse quesito é o o francês Marques de Sade, do qual cita um trecho com bestialismo de "Os 120 Dias de Sodoma", que mostra um homem se relacionando com uma cabra e com o filho monstruoso que acaba por fazer no bicho.

Aqueles que ao lerem “Cinquenta Tons” se impressionaram com as práticas de sadomasoquismo, com certeza se chocarão ainda mais ao conhecerem obras com trechos como os apontados acima. Mas, na visão do pesquisador, está aí o mérito dos escritores. "Penso que a boa cena de sexo, mais do que excitar, deve inquietar o receptor e lhe colocar em estado de interrogação."

Claro que os grandes exemplos não ficam apenas nos autores estrangeiros. Em entrevista aqui mesmo para o UOL antes da Flip deste ano, Eliane Robert Moraes, professora de literatura brasileira da USP e organizadora da "Antologia da Poesia Erótica Brasileira", já havia apontado alguns nomes nacionais que, ao seu ver, destacam-se na hora de narrar o ato. São escritores como Hilda Hilst, por conta de sua trilogia pornográfica, Roberto Piva, autor de "Mala na Mão e Asas Pretas", João Ubaldo Ribeiro, principalmente por "A Casa dos Budas Ditosos", e Reinaldo Moraes que, com seu "Pornopopéia", quase sempre é citado como uma referência no assunto.

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Ela obedece e ponho a venda em seus olhos. Ficando de pé, pego sua mão esquerda e prendo seu pulso na algema de couro no canto superior da cama. Deixo meus dedos percorrerem seu braço estendido e ela reage se contorcendo. Enquanto ando vagarosamente em torno da cama, a cabeça dela acompanha o som dos meus passos. Repito o processo com a mão direita, algemando seu pulso.

A respiração de Ana fica alterada, saindo irregular e acelerada por seus lábios entreabertos. Uma onda de excitação cresce em seu peito, e ela se contorce e ergue o quadril em expectativa.

Ótimo.

Na base da cama, agarro seus dois tornozelos.
Trecho de "Grey", de E.L. James


Se os bons exemplos estão dados, por outro lado podemos tentar definir o que é um sexo mal feito --ou mal escrito-- na literatura. Nesse aspecto, o doutorando e pesquisador Ronnie Cardoso cita exatamente "Cinquenta Tons". "Ele mostra claramente os limites da imaginação e da representação do sexo. Ainda que haja cenas de sadomasoquismo, tudo ali é controlado”, diz, lembrando do contrato entre Christian Grey e Anastasia Steele como ápice desse "enquadramento".

Continuando a justificar sua opinião, Cardoso refuta o que, segundo ele, mostra apenas a superficialidade do sexo e neutraliza a força que a cena poderia ter. "Tudo já se sabe, tudo já se espera. A pornografia comercial domestica o receptor com a gramática do sexo: nesse movimento regulador, a anatomia genital e o coito são esvaziados de erotismo, cujo campo de atuação está relacionado sobretudo às operações de violência e da violação, de supressão de limites, principalmente no plano estético.”

Já para a escritora Carol Bensimon, a má cena de sexo é aquela que constrange o leitor. "Não constrangimento pelo sexo (isso poderia ser uma boa cena), mas que o tira da história e faz com que se pergunte: 'Ó, meu deus, por que o autor descreveu desse jeito?'". Para a escritora, ainda há palavras que lhe parecem sempre ruins para esse momento, como as que "estariam melhor em uma consulta ginecológica, por exemplo". "Além disso, metáforas muito manjadas para descrever ereções também são péssimas".

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