Livros e HQs

Cotado ao Nobel, queniano convidado da Flip tem vida marcada por violência

Daniel A Anderson
O escritor queniano Ngugi Thiong'o, convidado da Flip 2015 Imagem: Daniel A Anderson

Rodrigo Casarin

Do UOL, em São Paulo

03/07/2015 06h00

Ngugi wa Thiong'o. O nome não é fácil de ser pronunciado e tampouco é amplamente conhecido entre os leitores brasileiros. Contudo, o queniano é uma das principais atrações da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). Aos 77 anos, ele participará de uma mesa na Tenda dos Autores nesta sexta-feira (3), às 17h15, ao lado do australiano Richard Flanagan.

Thiong'o é reconhecido internacionalmente tanto pelo engajamento político, que já o levou à prisão, quanto pelo talento com as palavras, o que o faz ser apontado como um dos candidatos ao Nobel de Literatura. “Minhas chances não são maiores ou menores do que a de outros milhares ao redor do mundo. Naturalmente, caso votassem em mim, gostaria de receber o prêmio, principalmente como um reconhecimento à escrita em línguas africanas”, diz em entrevista ao UOL.

Na conversa,  Thiong'o também se revela fã de Jorge Amado, apesar de confessar não ser nenhum grande conhecedor dos escritores brasileiros. Deslumbrou-se ao ler “Terra do Sem-Fim” e “Gabriela, Cravo e Canela”. “Eles fizeram com que eu me sentisse um profundo conhecedor da Bahia, embora nunca tivesse ido ao Brasil.”

Obra chega ao Brasil
Se Thiong'o nunca tinha vindo ao país, seus livros também não. A participação na Flip marca suas primeiras traduções para o português: “Um Grão de Trigo” sai pela editora Alfaguara, enquanto “Sonhos em Tempo de Guerra”, volume inaugural de suas memórias, será lançado pelo selo Biblioteca Azul.
Tido como um clássico da literatura africana, “Um Grão de Trigo” foi publicado originalmente em 1967 e retrata a independência do Quênia, mostrando como o processo repercutiu de maneira distinta na vida das pessoas.

Divulgação
Capa da edição brasileira de "Um Grão de Trigo" Imagem: Divulgação

“Nesse romance eu estava muito preocupado com a traição das esperanças e das aspirações de uma vida com dignidade econômica e espiritual da maioria dos trabalhadores no período pós-colonial. Camponeses e operários pegaram em armas para lutar contra o Estado colonial a fim de erradicar a pobreza, as moléstias, a ignorância. Contudo, o que vivemos depois foi o crescimento, aprofundamento e alargamento do fosso de riqueza e poder que separa a nova classe média da maioria da população”, relembra o escritor.

 Segundo Thiong'o, a obra permanece atual da mesma forma que esse abismo entre classes em todo o mundo. A diferença entre pobres e ricos continua aumentando, seja dentro de cada país, seja comparando um país com outro. “Não sei muito bem como é no Brasil, mas presumo que os trabalhadores, os pequenos agricultores e os cidadãos marginalizados de origem africana ainda estejam lutando pelo seu lugar ao sol.”

  Temporada na prisão

Essa posição de confronto já causou sérios problemas a Thiong'o. Em 1977, ele publicou o romance “Petals of Blood”, escrito em gikuyu, língua local, no qual criticava a sociedade queniana da época, profundamente marcada pelo neocolonialismo. O livro fez sucesso e foi transformado, inclusive, em peça teatral, o que desagradou os mandatários do país, então imerso em uma ditadura. Thiong'o foi preso. Na cela, escreveu o romance “Devil on the Cross”, publicado em 1982, e decidiu que, dali em diante, não teria mais o inglês como língua principal, passando a privilegiar o  gikuyu.

“Se você conhece todas as línguas do mundo, mas não a sua língua materna ou a de sua cultura, isso é escravidão. Mas se você sabe o seu idioma ou o de sua cultura e a ele adiciona todas as línguas do mundo, isso é apoderamento. Há muito tempo a literatura em línguas africanas tem tido suas identidades literárias roubadas pelas línguas europeias. Literatura africana escrita em alguma língua europeia deve ser chamada de literatura africana eurófona”, argumenta Thiong'o. “Literatura africana é a literatura escrita nas línguas faladas na África”, enfatiza.

E opina não como um simples escritor, mas como um professor da Universidade da Califórnia, onde leciona Inglês e literatura comparada, e membro da “Academia Americana de Artes e Letras”. Hoje o autor vive nos Estados Unidos, para onde se mudou após ser exilado de seu país ao deixar a prisão.

Mais violência

A detenção, no entanto, não foi o único episódio de violência marcante na vida de Thiong'o. Longe disso, aliás. Na infância, ele já havia sido proibido de falar sua língua nativa, forçado a fazer a circuncisão e a se converter ao cristianismo. Na vida adulta, em 2004, depois de já ter se estabelecido como escritor e tocado a vida fora de seu país, regressou ao Quênia após mais de 20 anos sem pisar por lá. Teve, no entanto, uma triste experiência: bandidos invadiram o apartamento onde estava, roubaram diversos de seus pertences e estupraram sua mulher, Njeeri, na frente de Thiong'o, que foi agredido ao tentar defendê-la.

Dois anos depois, em 2006, o escritor lançou “Wizard of the Crow”, uma sátira política que marcou seu retorno à literatura após quase duas décadas dedicadas, sobretudo, ao ativismo. Ainda hoje, apesar de muitos pregarem o contrário, Thiong'o não acredita que o Quênia ou qualquer outro país de terceiro mundo seja de fato independente. “A independência precisa ser econômica, política e cultural. Quando a economia de um país é controlada por forças que estão além de suas fronteiras, a política e a cultura também estão comprometidas.”

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