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"A indústria de HQ sempre foi machista", diz brasileiro de capa da Batgirl

Reprodução
Capa variante da 41ª edição da HQ "Batgirl", em comemoração aos 75 anos de Coringa Imagem: Reprodução

Guilherme Solari

Do UOL, em São Paulo

18/03/2015 08h28

O quadrinista Rafael Albuquerque, criador da polêmica capa da HQ da Batgirl que foi cancelada após uma campanha nas redes sociais, disse ao UOL que entende a resposta que sua capa teve e por isso pediu o seu cancelamento à DC Comics.

"A indústria de HQ sempre foi machista. É importante revermos nossos valores e nossas posições", afirmou. "É preciso aprender a ouvir, ter empatia por quem tem uma opinião diferente da sua. Se colocar no lugar do outro e considerar. Discussões na internet tendem a virar birras infantis, de um lado ou de outro".

O cancelamento da capa variante da 41ª edição da HQ "Batgirl" foi anunciado nesta segunda (16) pela editora. A imagem, que mostra Batgirl chorando apavorada e rendida nas mãos do Coringa, é uma referência à clássica HQ "Batman: A Piada Mortal" (1988), de Alan Moore, na qual o vilão tortura a Batgirl (com insinuações de abuso sexual), atira nela e a deixa paraplégica.

Albuquerque acredita que o problema não foi propriamente sua ilustração, mas onde ela seria publicada --uma revista com público-alvo de garotas adolescentes. Ele também reiterou que a decisão do cancelamento foi dele e que não sofreu nenhum tipo de pressão por parte da DC Comics.

"Uma revista voltada para o público feminino adolescente não deve ter uma capa pesada como essa. Independente da questão de quem está certo ou errado, a capa que eu fiz não serve a proposta que deveria ter", disse o artista. "Não acho que uma revista que tenha a intenção de elevar a autoestima feminina deva ter uma imagem que pode sugerir o contrário".

Leia abaixo a entrevista completa.

UOL - Você acha que a sua capa foi mal-interpretada?
Rafael Albuquerque - Acho que a capa trouxe muitas interpretações. No final das contas, não é a capa em si o problema, é a revista onde ela seria publicada. Uma revista voltada para o público feminino adolescente não deve ter uma capa pesada como essa. Indiferente da questão de quem está certo ou errado, a capa que eu fiz não serve a proposta que deveria ter.

A clássica HQ "Batman: A Piada Mortal" mostrava, 25 anos atrás, uma violência muito maior contra a Batgirl do que a sua ilustração. Você acha que as pessoas criticaram a sua capa sem conhecimento do material original?
Não sei. Acho que quem conhece a "Piada Mortal" entendeu o ponto. Mas, novamente, jovens de 14 a 17 anos não tem a obrigação de conhecer, e acho que tanto eu quanto a editora, mesmo que não intencionalmente, erramos em pensar que a imagem seria apropriada.

A capa foi retirada por seu pedido, mas você chegou a receber algum tipo de pressão por algum setor ou pessoa da DC Comics para que ela não fosse veiculada?
Não. Partiu mesmo de mim. Vejo muita gente comentando sobre liberdade de expressão e que cedi a pressões. Sempre defendi minorias. Acho que é o certo e o íntegro. Não acho que uma revista que tenha a intenção de elevar a auto estima feminina deva ter uma imagem que pode sugerir o contrário. Em outra revista, talvez isso fizesse sentido. Não para a revista atual da Batgirl. Liberdade de expressão também significa não dizer o que você não quer, e foi exatamente o direito que exerci aqui.

Cada vez mais vemos o conteúdo dos quadrinhos sendo questionado com relação a questões como violência excessiva e sensualização da mulher. Você acha que esses questionamentos são válidos? Você acha que, mesmo válidos, eles podem ser exagerados e tolher a liberdade criativa de desenhistas e roteiristas?
C
ompletamente válidos. A indústria de maneira geral sempre foi machista. Estamos acostumados com isso e vivemos um momento de abertura dessa indústria. É importante revermos nossos valores e nossas posições. Acho que, independente da postura de cada um, diálogo e respeito é fundamental para que a indústria não se divida. Respeito é minha principal bandeira aqui.

O que você gostaria que ficasse como legado desse caso?
Acho que, independentemente de sua posição sobre a capa, feminismo ou liberdade de expressão, é importante aprender a ouvir. Ter empatia por quem tem uma opinião diferente da sua. Se colocar no lugar do outro e considerar. Discussões na internet tendem a virar birras infantis, de um lado ou de outro. Isso é o que faz as pessoas perderem o interesse nas coisas. Acho que críticas são sempre bem-vindas. Mas respeito por quem faz, por quem publica e por quem discorda é sempre o que valida sua crítica. A liberdade de expressão não pode se resumir apenas ao que você gosta ou quer. Liberdade tem que vir com responsabilidade.

Reprodução/Facebook
Rafael Albuquerque, desenhista Imagem: Reprodução/Facebook

Leia o comunicado anterior de Rafael na íntegra:

"Minha arte da capa variante da Batgirl foi concebida para homenagear uma história em quadrinhos que eu realmente admiro, e eu sei que é uma das favoritas de muitos leitores. "A Piada Mortal" é parte do cânone de Batgirl e, artisticamente, eu não poderia evitar retratar a situação traumática entre Barbara Gordon e o Coringa.

Para mim, era apenas um 'disfarce assustador' que trouxe algo do passado da personagem que eu interpretei artisticamente. Mas tornou-se claro que, para outros, ela tocou em um nervo exposto. Eu respeito essas opiniões, sejam elas certas ou erradas, pois geraram uma discussão que não deve ser desacreditada.

Minha intenção nunca foi ferir ou incomodar ninguém pela minha arte. Por essa razão, recomendei à DC que a capa variante fosse retirada. Estou muito satisfeito que a DC Comics tenha entendido as minhas preocupações e não vá publicar a arte da capa em junho, como anunciado anteriormente.

Com todo o respeito,

Rafa"

Leia a nota oficial da DC Comics:

"Nós publicamos revistas dos maiores heróis do mundo, e os vilões mais malvados que se possa imaginar. As capas variantes do mês de junho são um reconhecimento ao 75º aniversário do Coringa.

Independentemente se fãs acharam que era incompatível falar sobre temas como ameaças de violência e assédio na fase atual da Batgirl, entendemos que era uma homenagem de Rafael Albuquerque ao Alan Moore, pela graphic novel 'A Piada Mortal', uma obra de 25 anos atrás.

Vamos honrar o talento criativo, e por solicitação do Rafael, a DC Comics não vai publicar a capa variante da Batgirl."

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