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Cinzas de Gárcia Márquez serão divididas entre México e Colômbia

Fernanda Brambilla

Do UOL, na Cidade do México (MEX)

18/04/2014 20h09

O embaixador da Colômbia no México, José Gabriel Ortiz, anunciou no fim da tarde desta sexta-feira (18) que as cinzas do escritor colombiano Gabriel García Márquez serão divididas entre os dois países. A informação foi dada na porta da casa do Prêmio Nobel de Literatura, onde estão reunidos os familiares do escritor no dia seguinte a sua morte.

A repartição acontecerá porque a Colômbia é a terra natal do escritor e o México foi o país que o acolheu há quase cinco décadas.

O corpo de García Márquez foi cremado ainda no final da noite desta quinta-feira (17). A informação foi confirmada ao UOL por telefone pela funerária - local onde ocorreu seu velório. No entanto, a família do colombiano não se pronunciou sobre a cremação.

Márquez morreu nesta quinta, aos 87 anos, em sua residência na Cidade do México. O autor de clássicos da literatura universal como "Cem Anos de Solidão", que enfrentou um câncer linfático em 1999, chegou a ser internado no mês passado com infecção pulmonar e a saúde bem debilitada. De acordo com o site da Rádio Caracol, na Colômbia, a morte do escritor foi provocada por uma insuficiência renal.

Na quinta à tarde, a família divulgou um comunicado à imprensa dizendo que velório seria restrito a parentes e que optou-se pela cremação do corpo - sem divulgar horários. Essa decisão está sendo considerada quebra de protocolo no México.

Há grande expectativa para a homenagem que será prestada ao escritor no Palácio de Bellas Artes na segunda-feira - única oportunidade do público se despedir do escritor que é considerado um dos mais influentes do século 20. O presidente colombiano Juan Manuel Santos, já confirmou presença ao lado de sua mulher.

Henry Romero/Reuters
18.abr.2014 - Velório fechado e lágrimas marcam a despedida do escritor colombiano, prêmio Nobel de Literatura, Gabriel García Márquez, morto por volta do meio-dia de quinta-feira (18). A despedida é restrita a familiares e assegurada por mais de 40 policiais que tomam a frente do local Imagem: Henry Romero/Reuters
O dia seguinte à morte do escritor colombiano prêmio Nobel de literatura Gabriel García Márquez foi marcado pelo silêncio de seus familiares, que passaram a sexta-feira santa (18) na residência na Rua Fuego, no bairro de Pedregal, zona sul da Cidade do México.

Na manhã, os filhos de García Márquez Gonzalo e Rodrigo chegaram à casa do pai em carros separados e sem falar com a imprensa, que permanece em frente ao local acampada. Um carro de polícia e quatro policiais guardam o portão e o tráfego da pacata rua foi restrito a moradores.

Logo depois, a cantora colombiana Shakira enviou uma coroa de flores amarelas e brancas à família. Amigos próximos da família, como o cineasta mexicano Felipe Casalz e o escritor mexicano Javier Velasco, além de Carmen Miracle, viúva do escritor colombiano Álvaro Mutis, foram prestar suas condolências.

Vizinhos também deixaram arranjos de flores e levaram cartas, que foram recebidas por um amigo que atendia à porta. A viúva do escritor, Mercedes, não foi vista. 

O velório

Umas poucas coroas de rosas de cor amarelo vivo destoavam do branco dominante das flores que decoraram a fachada da funerária García Lopez Casa de Pedregal, região sul da Cidade do México, que recebeu na tarde desta quinta-feira o velório do escritor colombiano, prêmio Nobel de Literatura, Gabriel García Márquez, morto por volta do meio-dia desse mesmo dia. Essa era a pouca beleza da despedida, restrita a familiares e assegurada por mais de 40 policiais que tomavam a frente do local.

A atitude dura dos policiais, que desviavam o tráfego local, afastou também o público, resumido a um mar de jornalistas e fotógrafos. Admiradores do escritor, tímidos, eram minoria. Mas uma minoria de olhos marejados, cheios de reverência, saudade e tristeza.

Considerado o escritor de língua espanhola mais popular desde Miguel de Cervantes, no século 17, García Márquez alcançou celebridade literária que gerou comparações com clássicos das letras universais como Mark Twain e Charles Dickens. Suas obras ficcionais extravagantes e melancólicas --entre elas "Crônica de uma Morte Anunciada", "O Amor nos Tempos do Cólera" e "Outono do Patriarca"-- superaram em vendas qualquer outra publicação em língua espanhola, com exceção da Bíblia.

Divulgação
Capa da edição brasileira mais recente de "Cem Anos de Solidão" Imagem: Divulgação

O romance épico "Cem Anos de Solidão" vendeu mais de 50 milhões de cópias em mais de 25 idiomas. Publicado em 1967, é um dos exemplos principais do chamado realismo fantástico e marcou um boom da literatura latino americana que durou duas décadas. A obra narra a saga de gerações da família Buendí e foi "o primeiro romance em que os latino-americanos se reconheceram, que os definiu, que celebrou sua paixão, sua intensidade, sua espiritualidade e superstição, sua grande propensão ao fracasso", disse o biógrafo Gerald Martin à agência Associated Press.

Ao receber o Nobel, em 1982, García Márquez descreveu a América Latina como uma "fonte de criatividade insaciável, cheia de tristeza e beleza, do qual este errante e nostálgico colombiano não é mais que uma fração, destacada pelo destino. Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e malandros, todas as criaturas daquela realidade desenfreada, deixaram pouco a extrair da imaginação, porque nosso problema crucial tem sido a falta de meios convencionais para tornar nossa vida verossímil".
 

Biografia
Gabo, como era carinhosamente chamado, nasceu no dia 6 de março de 1927, em Aracataca, na Colômbia. Criado pelos pais de sua mãe, cresceu ouvindo as histórias de seu avô, Nicolas Márquez, veterano da Guerra Civil colombiana, enquanto sua avó, Tranquilina Iguarán, costumava lhe contar lendas que misturavam fantasia e realidade. Essas narrativas foram fundamentais para que mais tarde o garoto se tornasse escritor.

As histórias de seus avós se tornariam também material para a ficção de García Márquez, e Aracataca inspirou Macondo, a vila cercada por plantações de banana no pé das montanhas da Sierra Nevada, onde "Cem Anos de Solidão" se passa. "Minha família me contou muitas vezes que comecei a recontar histórias e coisas assim quase desde que nasci", contou García Márquez em uma entrevista. "Desde que comecei a falar".

Enquanto atuava em jornais, esboçou os seus primeiros contos e uma extensa reportagem sobre o sobrevivente de um naufrágio na costa colombiana resultou no livro “Relato de um Náufrago”, hoje tido como um exemplo de bom jornalismo literário. Ao lado de escritores incluindo Norman Mailer e Tom Wolfe, García Márquez também foi um pioneiro da narrativa de não-ficção que se tornaria conhecida como New Journalism ou Novo Jornalismo.

Pobre e esfarrapado durante grande parte de sua vida adulta, García Márquez foi transformado por sua fama e riqueza tardias. Um "bon vivant" com personalidade travessa, o escritor era um anfitrião gracioso, que contava histórias longas, com animação, para os hóspedes. Ferozmente protetor de sua imagem, uma característica compartilhada por sua esposa, ele ocasionalmente se rendia a um temperamento explosivo quando se sentia menosprezado ou deturpado pela imprensa.

O homem político
Como muitos escritores latino-americanos, García Márquez transcendeu o mundo das letras. Desde cedo, Gabo tornou-se um herói para a esquerda latino-americana, aliando-se cedo ao líder revolucionário cubano Fidel Castro e criticando as intervenções violentas de Washington, do Vietnã ao Chile. Seus textos perfilaram o ex-presidente da Venezuela, Hugo Chávez, além de retratarem como traficantes de cocaína liderados por Pablo Escobar abalaram o tecido social e moral de sua Colômbia natal, sequestrando membros da elite, tema de "Notícias de um Sequestro".

A escrita de García Márquez foi constantemente informada por seus pontos de vista esquerdistas, forjados em grande parte por um massacre de militares a trabalhadores bananeiros em greve contra a United Fruit Company (mais tarde, Chiquita) em 1928, perto de Aracataca. Ele também foi muito influenciado pelo assassinato, 20 anos mais tarde, de Jorge Eliécer Gaitán, candidato presidencial esquerdista em ascensão.
Ao longo da vida, García Márquez recusou ofertas de postos diplomáticos e tentativas de o lançar à presidência da Colômbia, embora tenha se envolvido nos bastidores das negociações de paz entre o governo da Colômbia e os rebeldes de esquerda.

Os últimos anos
Os últimos anos de vida de Gabo foram marcados por relatos sobre problemas de memória , que não foram confirmados oficialmente. As aparições públicas de García Márquez também foram mais escassas, apesar de ele continuar a socializar com amigos.

Em março deste ano, quando fez 87 anos, o escritor foi homenageado diante da imprensa por amigos e simpatizantes, que lhe deram bolo e flores do lado de fora de sua casa, em um bairro de elite na Cidade do México. Na ocasião, o autor mostrou-se sorridente, recebeu presentes e tirou fotos, mas não falou com os jornalistas. Nos últimos anos, restringiu ao máximo suas aparições em público e declarações por motivos de saúde.

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