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Brasil é alvo de terroristas e espionagem industrial em livro de Tom Clancy

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Capa do livro "Morto ou Vivo", de Tom Clancy, lançado nesta semana pela editora Record Imagem: Divulgação

Daniel Buarque

Do UOL, em Londres

05/10/2013 06h00

"Cadê o Baiano", perguntava, em sessões de tortura improvisada, o Capitão Nascimento, herói controverso de "Tropa de Elite", um dos maiores fenômenos do cinema brasileiro recente. É em um clima parecido de caçada moralmente questionável que os agentes do Campus, fictícia instituição americana antiterrorista que opera às margens da lei, vão atrás de Emir, personagem criado por Tom Clancy para representar Osama Bin Laden em "Morto ou Vivo". O livro, de 2010, só chegou ao Brasil nesta sexta-feira (4), menos de uma semana  após a morte do autor de best-sellers americano.

Em uma narrativa simples e muito veloz (apesar das 700 páginas do livro), Clancy, um dos escritores mais populares dos Estados Unidos, descreve a guerra maniqueísta entre os "mocinhos" americanos e os "terroristas" islâmicos do mal. E, no meio do conflito, sobra até para o Brasil, que sofre "o maior desastre da sua história" em um ataque que visa afetar o fornecimento de petróleo para os Estados Unidos.

Em "Morto ou Vivo", um grupo de ativistas islâmicos viaja ao país com a intenção de sabotar uma refinaria de petróleo, "a maior do país", em Paulínia, no estado de São Paulo. "Por que o Brasil?", pergunta um dos personagens. "Eu não acho que isso tenha nada a ver com o Brasil", responde um dos protagonistas, dos Estados Unidos. A explicação é que o ataque visa atrapalhar um acordo assinado entre os dois países, na obra, para que os EUA tenham acesso às "enormes reservas" de petróleo descobertas recentemente na costa brasileira.

Conhecido por seu estilo detalhista e por apego a descrições de cenas com forte realismo, Clancy narra a viagem dos terroristas pela SP-348 (a rodovia dos Bandeirantes), traça um mapa com os dutos por onde o petróleo seria transportado no país, detalha o funcionamento da refinaria a ser atacada e descreve até um almoço dos vilões no restaurante Fazendão Grill. A cena do ataque à refinaria, com direito a labaredas e explosões, é mostrada ao presidente americano por meio de uma transmissão do helicóptero da Record News.

No mundo de Clancy, o ataque ao Brasil é mais uma fagulha para incendiar a caçada aos terroristas que querem "destruir a América".

"FILHOS DA MÃE"

A presença do Brasil nesta obra de Clancy vai além das explosões e do terrorismo islâmico. No livro há várias cenas que descrevem debates políticos em Washington, riscos à segurança nacional americana, relações internacionais e espionagem política e industrial, e o Brasil tem destaque ali.

Durante uma reunião do alto escalão do governo americano, antes do atentado ao Brasil, as descobertas de petróleo na costa brasileira, e o desenvolvimento de pesquisas da Petrobras, são discutidos do ponto de vista dos interesses americanos.

"Os campos de Tupi são mais ricos do que eles pensavam, ou do que eles diziam", relata um assessor, dando a entender que o Brasil pode ter escondido informações.

"Filhos da mãe", diz o fictício presidente Ed Kealty, que buscava no Brasil a parceria para diminuir os preços de combustível nos Estados Unidos. "O problema é que o governo brasileiro, por mais que seja amigo agora, tem em suas mãos uma força considerável.

A questão que ninguém sabia responder era se Brasília continuaria benevolente ou se seguiria o caminho da Arábia Saudita - uma mão oferecida à amizade, e outra escondida com uma adaga."

Caça a Bin Laden
Apesar da curiosa referência ao Brasil, o foco do livro é mesmo a caçada a Saif Rahman Yasin, o Emir, um personagem que é o próprio Osama bin Laden em uma versão "clancyana". "Maior inimigo do Ocidente", este “sósia” de Bin Laden é caçado sem piedade pelos justiceiros do Campus, uma organização antiterrorista que opera à revelia do governo, mas com "licença para matar" e perdão prévio do presidente para o caso de qualquer "problema colateral" (como tortura ou morte de civis e inocentes).

Mesmo sendo longo, o thriller de Tom Clancy é envolvente e é interessante por poder abrir debate sobre limites de ações de segurança dos EUA. O Campus é descrito como um grupo de homens "dispostos a proteger seu país por qualquer meio que seja necessário", com o objetivo de "caçar, localizar e eliminar terroristas e todos os que os protegem".

E as controversas opiniões políticas de Clancy ficam evidentes em sua narrativa. A partir do momento em que é impossível capturar Bin Laden (ops, o Emir, digo) com o uso da estrutura oficial das agências de inteligência e combate ao terrorismo, Clancy diz que é importante fazer isso "extra-oficialmente", já que as pessoas que estão no poder estão presas a ideias arcaicas de "certo e errado". Chega, então, a vez de o Campus entrar em ação. E com o Campus não tem brincadeira, missão dada é missão cumprida.

O livro também não gosta de nuances morais. Enquanto os mocinhos são competentes e bons, os inimigos, por sua vez, são simplesmente "do mal". O Emir, por exemplo, é descrito como um assassino sádico, que planeja um atentado devastador contra o "coração da América".

Premonições
"Morto ou Vivo" foi publicado em dezembro de 2010 nos Estados Unidos e é o 15º livro publicado por Tom Clancy desde que ele se tornou um dos maiores best-sellers dos EUA, com "Caçada ao Outubro Vermelho". Lançada como ficção, a obra em muitos momentos poderia ser comparada a um livro de não-ficção lançado mais tarde. Assim como em "Não Há Dia Fácil", escrito por um dos militares envolvidos na caçada real que matou Bin Laden, Clancy descreve detalhes de treinamento, equipamento e ação em uma missão de soldados de elite do exército dos Estados Unidos. O tom dos dois livros muitas vezes se assemelha.

Em maio de 2011, quando Osama Bin Laden foi finalmente encontrado e morto por militares americanos do mundo real, a obra lançada meses antes por Clancy se tornou ainda mais popular por "antecipar" na ficção muito do que realmente aconteceu. O mais curioso é não apenas que o Emir foi caçado como foi Bin Laden, mas que ele é encontrado escondido em uma mansão confortável, e não em uma caverna, como se pensava anteriormente - exatamente como aconteceu na realidade.

Algo parecido, de a ficção ser comparada a premonição, já havia acontecido com o trabalho de Clancy depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Sete anos antes, em 1994, o autor havia lançado "Dívida de Honra", livro em que narra um ataque suicida em que um avião é lançado contra o Capitólio durante uma reunião do Congresso norte-americano.

  • AP Photo/Kathy Willens

    24.mai.2004 - O escritor americano Tom Clancy

Apologia militar
O tom pró-militar de suas obras de ficção fez Clancy ganhar muita admiração dos "falcões" da política americana, e dizia-se que ele conseguia acesso a informações privilegiadas graças a isso (o que ele negava).

Os livros do autor costumam ser comparados a uma série de obras em que os mesmos personagens voltam a aparecer. Clancy costumava retratar os Estados Unidos em um mundo imaginário em que, apesar da troca de nomes, tudo se parece muito com o país real das últimas décadas.

Neste mundo de "faz de conta" quase real, o personagem principal (presente em quase todos os livros de Clancy) é Jack Ryan, ex-agente da CIA, que se tornou presidente dos EUA. No poder, Ryan conseguiu estruturar um aparato de segurança inspirado em uma formação linha-dura contra terroristas e inimigos em geral. É dessa administração que surge o Campus.

A obra, entretanto, às vezes fantasia demais. Seus protagonistas são quase super-heróis. No caso do presidente-espião Jack Ryan, quando já não pode mais estar presente na ação, é substituído no campo de batalha contra os vilões por seu filho, que leva o "criativo" nome de Jack Ryan Jr.

Apesar de ser um detalhista em sua narrativa, e de se prender em descrições de tom realista em uma leitura fácil, Clancy não é exatamente um escritor reconhecido pela profundidade da sua literatura. "Morto ou Vivo" é um exemplo disso, uma leitura de entretenimento, cheia e descrições e sem um apego muito grande à forma e à estilística respeitada por críticos literários. Mas nem por isso deixa de ser uma leitura divertida, como assistir a um blockbuster no cinema - e em muitos momentos é fácil associar a leitura a possíveis imagens da obra transformada em filme (ou vídeo-game).

Mesmo com todas as críticas quanto à qualidade literária do trabalho de Clancy, e controvérsias sobre a legalidade, ou a moral, das ações de seus personagens à parte, o autor morto nesta semana era uma das mais fortes marcas do mundo do entretenimento. Estimativas dos seus editores indicam que Clancy vendeu mais de 100 milhões de livros em todo o mundo. Sua narrativa veloz e com forte apelo descritivo funcionava muito bem também no cinema, e algumas das suas principais obras se tornaram filmes, como o já citado "Caçada ao Outubro Vermelho", "Jogos Patrióticos" e "Perigo Real e Imediato". O nome dele também está associado a uma franquia de jogos de videogame sobre ações militares e de espionagem.

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