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"Não temos essa política do calote", diz Pablo Capilé sobre Fora do Eixo

ALICE VERGUEIRO/FUTURA PRESS//ESTADÃO CONTEÚDO
05.ago.2013 - O produtor cultural Pablo Capilé, fundador do coletivo Fora do Eixo, no programa "Roda Viva" da TV Cultura Imagem: ALICE VERGUEIRO/FUTURA PRESS//ESTADÃO CONTEÚDO

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

09/08/2013 17h49

Na semana em que o Fora do Eixo foi à berlinda nas redes sociais, o produtor cultural Pablo Capilé afirmou ao UOL, por telefone, que a rede de coletivos não é e nunca foi contra o cachê de artistas. Fundador do projeto que promove intercâmbio em produções culturais pelo Brasil, Capilé e seus parceiros receberam uma série de críticas e relatos de artistas e produtores questionando o modus operandi do grupo.

A cineasta Beatriz Seigner, realizadora do filme "Bollywood Dream - O Sonho Hollywoodiano", está entre esses ex-colaboradores. Em nota, ela acusou o Fora do Eixo de ter omitido patrocínio para a exibição de seu longa. Capilé reconhece que esse e outros casos foram erros no processo. "Por um momento alguém pode ter deixado de receber. Isso não pode ser encarado como uma política nossa. Não temos essa política do calote. É um erro que precisa ser corrigido", disse.

A moeda social do grupo (chamada de cubo card), a participação em editais, os relatos de ex-moradores das casas Fora do Eixo e as acusações de ser um chefe intransigente também entraram na conversa. "O que seria meu salário está lá dentro [do sistema da casa]. A principal fonte [de recursos] é nosso próprio investimento no processo".

UOL Entretenimento - Os coletivos que fazem parte da rede têm autonomia para captar recursos e participar de editais, ou é o Fora do Eixo que coordena isso? A rede também funciona como um caixa único?
Pablo Capilé - Cada coletivo tem sua própria autonomia e caixa própria. O Fora do Eixo só ajuda os coletivos a escrever projetos. Por exemplo, se o coletivo de Manaus está desenvolvendo algo, o Fora do Eixo ajuda o pessoal do Amapá a entender como funciona aquele projeto para fazer igual também. Mas não fazemos gestão de recursos da ponta, nada. O recurso é direto do coletivo.

O que é o Fora do Eixo?

O Fora do Eixo é uma rede de coletivos da área cultural, com a proposta de fazer um intercâmbio solidário de produção e conhecimento na produção de eventos. O grupo surgiu do Espaço Cubo, idealizado pelo produtor cultural e publicitário Pablo Capilé, em Cuiabá (MT), que passou a articular coletivos e eventos fora do eixo Rio-São Paulo, como festivais de música, cinema e teatro, entre eles o Festival Calango e Grito Rock. Recentemente, ganhou notoriedade com o surgimento da Mídia Ninja, que passou a cobrir ao vivo, via streaming, as manifestações em todo o País em 2013.


Há muitas dúvidas sobre o pagamento de serviços, bandas, técnicos, produtores e artistas. Quem participa de um evento organizado ou apoiado pelo Fora do Eixo não recebe cachê? Mesmo quando há recursos através de editais, por exemplo, os valores são repassados para os colaboradores?
Você tem milhares de artistas que se apresentam no Brasil. Se tem o show que vai acontecer no Amapá, as passagens são supercaras e, às vezes, o coletivo de lá não tem condição de pagar passagem e cachê. Então, se o cara topar, ele vai, toca e forma público. Só que a gente defende a remuneração dos artistas. Não existe uma política do Fora do Eixo contra o cachê. Quando falam 'ah, não receberam o cachê'... claro que tem exceções nesse processo, mas a regra é que o que é combinado, acontece. Isso não é só Fora do Eixo, é na produção independente no Brasil inteiro.

Isso depende se o festival tem recursos?
Tem a ver. Você tem R$ 50 mil para fazer [um festival] no Amapá, mas quatro passagens já dão R$ 15 mil. Aí você quer fazer um festival com 20 bandas. Então você conversa e nem sempre vai dar para todas as bandas receberem. Vai do artista entender se é importante formar público lá. O xis da questão é que o Fora do Eixo defende a remuneração dos artistas.

E você pessoalmente também defende? Há relatos de que você é contra artistas receberem cachês.
Eu também defendo. Há cinco anos eu dei uma entrevista falando que o mais importante em festivais é apresentar as bandas em determinadas cidades para 30 mil pessoas, para que elas voltem a fazer shows remunerados. Nunca defendi a não remuneração do artista. Mas cada caso é um caso, e cada artista negocia com cada produtor para decidir o que é melhor para ambos. Tudo que estamos fazendo é para ter sustentabilidade na música. Quando se organiza um circuito de festivais e auxilia a distribuição de CDs, a gente está defendendo uma política de sustentabilidade para eles.

De acordo com uma ficha de inscrição, relacionada na tabela de editais dos coletivos, há a informação de que vocês tiveram a entrada de US$ 4 milhões como financiamento em 2012...
Dólares?

É o que aparece nesse documento...
Ah, velho, eu não sei. Não tive acesso a esse documento. Mas isso não é o que nós temos durante o ano no Fora do Eixo.

Quanto é?
Eu não tenho o número exato, mas esse número não corresponde. Isso aí pode ter sido alguém que escreveu o projeto, não fui eu que escrevi. A rede é grande, alguém pode ter escrito isso para um edital... não sei como foi feito isso aí. A rede é distribuída, o sistema de gestão é um fluxo, né? Não é um panteão de empresas que todo mundo é ligado pelo mesmo caixa. É difícil dimensionar quanto circulou ao todo. É um recurso que circulou lá na ponta e a gente só ajuda eles a entender como esquematizar isso melhor.

Pablo Capilé explica o Fora do Eixo no "Roda Viva"

A "ponta" que você diz é o projeto em si?
Isso, é o coletivo do Amapá, o Goma, por exemplo. O que eles arrecadam fica direto para eles. Mesmo sendo uma ponta no Fora do Eixo, ele não manda esse recurso para nenhum outro tipo de gerenciamento.

O Fora do Eixo em si não recebe nenhum valor nem porcentagem em cima desses recursos?
Nenhuma porcentagem, nenhum valor. Mas às vezes é óbvio que o coletivo de Uberlândia pode emprestar recursos para o coletivo de Manaus. A gente tem um banco que ajuda as duas pontas dialogarem.

É o Banco Fora do Eixo?
É da soma dos coletivos. Cada coletivo também tem um banco, e a soma desses bancos a gente chama de Banco Fora do Eixo. Serve para eles trocarem informações. Um tem a solução e o outro tem o problema, cada um se fortalece.

Como funciona o "cubo card"?
O cubo card é a verdadeira moeda que nos financia. Eu moro em uma casa Fora do Eixo, em São Paulo, que custa R$ 20, 25 mil por mês. Como moram muitas pessoas lá, o custo de cada uma é de R$ 1 mil, mas cada uma faz mais do que isso por mês. É isso que nós chamamos de card. A gente tem um serviço de transmissão ao vivo que no mercado normal custa R$ 5 mil, só que a gente transforma isso em card e oferece isso a parceiros quando eles precisam. Por exemplo, o coletivo do Amapá tem um serviço de design e o coletivo Mundo, lá em João Pessoa, tem o serviço de transmissão. Cada valor tem um serviço e eles vão trocar serviços, então a moeda serve para entender essa troca. Se fosse circular só em real, não ia dar a noção verdadeira do que está sendo movimentado ali. Se fosse em um lugar normal, as pessoas estariam recebendo salário, cerca de R$ 1 mil, mas como ele está no coletivo e não tem um salário, o cubo card é o que vale.

Os próprios colaboradores usam esse card para comprar coisas mais triviais, do dia a dia, como alimentos?
Tem alguns lugares que tem serviços integrados, mas o mais importante do card é o pedagógico. Isso faz as pessoas entenderem que aquilo vale mais do que entrou em real. O card é basicamente uma compreensão de quanto custa aquele serviço disponibilizado. Cada R$ 1 que entra, a gente multiplica por 10 e consegue visualizar como fazer aquilo com pouco.

E como vocês conseguem pagar o custo das casas?
Tem uma série desses serviços que a gente oferece também em real. Coletivo com coletivo fazem troca de serviço, mas se você tem outro parceiro que quer contratar um serviço, também dá. A gente faz palestras remuneradas em alguns lugares, organizamos festivais, fazemos transmissão ao vivo. A soma dos serviços dessas 2 mil pessoas subsidiam as casas, mas tem editais públicos também.

Então o próprio Fora do Eixo também recebe recursos públicos.
A Universidade Fora do Eixo tem o patrocínio da Petrobras. A gente tem a Rede Brasil de Festivais, que começou no Fora do Eixo, mas incentivamos e agora ela anda com as próprias pernas e recebe recursos públicos. Em cada projeto, o recurso é investido no plano de trabalho. Por exemplo, na Universidade tem que promover tantas oficinas, debates, fazer intercâmbios pelo país. Todo esse recurso é voltado para o trajeto que está no plano de trabalho. A Universidade facilita a circulação de pessoas entre os coletivos.

Você leu todos os relatos e críticas ao Fora do Eixo que surgiram essas semanas? Um dos casos mais compartilhados foi o da cineasta Beatriz Seigner. Ela acusou a rede Fora do Eixo de tê-la enganado sobre exibições da produção e omitido patrocínio.
Pelo valor da demanda e o número de pessoas que trabalham, é um processo que é passível de erro. Por um momento, alguém pode ter deixado de receber, um coletivo não pagou o outro. Isso faz parte do processo. Isso não pode ser encarado como uma política nossa. Não temos essa política do calote. É um erro que precisa ser corrigido. Estamos em processo, temos gente no Brasil inteiro. É uma rede em formação.

Você já tinha conhecimento dessas acusações?
Tem várias pessoas cuidando de coisas diferentes. Eu não tenho condições de ter noção de todas as informações. A gente também está trabalhando para que isso não aconteça com frequência. Mas, no caso dela, ela disse ter recebido depois, não?

Ela disse que cobrou publicamente e recebeu nove meses depois. E tem o caso do cantor Daniel Peixoto...
Ele diz que o CD dele foi registrado em outro ISRC [registro das músicas] e que o recurso não foi para ele. O Daniel não era filiado a nenhuma entidade arrecadadora filiada ao Ecad. Como ele queria lançar o disco com a gente, um dos coletivos de São Carlos tinha como fazer esse cadastro e registrou. Esse foi o equívoco: foi registrado em nome de outra banda. Daniel alega que o Fora do Eixo ficou com esse recurso, mas esse recurso fica retido no Ecad. Quando ele regulariza a situação dele com uma arrecadadora, o Ecad repassa esse valor para ele. Ele alega também que teve uma distribuição de CDs e o recurso não foi repassado, mas não tem mais distribuidora de CDs no Brasil, houve um esforço nosso para que isso acontecesse. Alguns foram distribuídos e outros não entraram na prestação de contas. Isso foi feito a posteriori. Como se está tentando dar solidez na distribuição, nem sempre vai dar contento. A regra é facilitar a vida do artista, mas é uma engenharia muito complicada. Se a gente fosse um coletivo só, com algumas ações apenas, teríamos resolvido de modo mais fácil. Mas como são muitas ações, a possibilidade de ter algumas exceções existe. O que não podemos é transformar essas exceções em erros.

Pablo Capilé fala do uso de verbas públicas no Fora do Eixo

No programa "Roda Viva" você disse que cerca de 3 a 7% dos recursos dos coletivos vêm de editais públicos...
Isso. Na real, a gente não é o Estado. O Estado é quem precisa estar dentro da lei da transparência, mas damos o maior número de informações possíveis. A gente presta conta para os órgãos responsáveis, senão seríamos processados. É o único que temos essa obrigação. Nosso banco tem as contas abertas para todo mundo. Não é uma obrigação, mas a gente se esforça para computar qual é a porcentagem de recursos públicos que existe dentro de uma rede como essa. Como o coletivo faz sua própria gestão, não tem como saber exatamente. Um serviço de hotelaria, que recebe subsídio público, não presta contas assim. A gente se esforça para isso, por isso as pessoas cobram

Mas no site de vocês não tem essa informação.
A gente vai lançar um site do Fora do Eixo para tentar disponibilizar o maior número de informações. O que temos é algumas planilhas abertas de forma difusa, sem organização. Elas estarão nesse portal. Quando formos aprovados em um edital, vai entrar nesse portal, já com o plano de trabalho para as pessoas acompanharem.

Vocês tiverem essa ideia nesta semana?
Há uns 30 dias. A gente jogou a ideia, muita gente apoiou e um grupo de desenvolvedores está nesse projeto. A gente produz 300 [eventos] Grito Rock, temos uma estimativa de 3 milhões [de eventos]. É difícil computar quanto circulou em cada Grito. Não é uma conta simples.

Pretendem divulgar também as doações particulares? Parece ser uma grande porcentagem.
Existe um caixa coletivo em cada casa e as pessoas moram nessas casas. Eu sou uma dessas pessoas. O que seria meu salário está lá dentro, então essa é minha doação particular. O Fora do Eixo não me paga um salário. Eu invisto isso no próprio processo. A principal fonte é nosso próprio investimento no processo.

Algumas pessoas relataram que Fora do Eixo adota meios centralizadores de organização, deixando pouca margem ao diálogo.
Eu desafio as pessoas a acharem uma rede que tem tantos parceiros e dialoga com tanta gente como o Fora do Eixo. Eu acho complicado acreditar que tem uma juventude que está no dia a dia trabalhando a não ser pela satisfação de estar ali. Agora, se entre 2 mil pessoas que atuam diretamente, cinco não ficarem satisfeitas, isso não significa o todo. Ao mesmo tempo, não quer dizer que não tenhamos que avaliar as críticas. Nem o céu, nem a terra. Precisamos fazer uma avaliação para que isso não volte a acontecer. É que nem a história dos cachês, não é uma ironia nossa, saca? Nem todas as expectativas das pessoas que estão ali vão ser cumpridas, como qualquer coisa do mundo. Mas está longe de ser a regra. É só conversar com as pessoas que moram lá. Teve várias manifestações das pessoas do Fora do Eixo também nas redes. Isso não significa que vamos reprimir essas manifestações contrárias.

Existem pessoas que dizem ter morado na casa ou participado da rede e que relatam pressão psicológica, até mesmo cerceamento de liberdade com os integrantes. Nesses textos, você é também apontado como um chefe intransigente.
Não, cara. Ninguém fica obrigado em um ambiente como esse. As portas estão abertas o tempo inteiro. Se a rede continua sólida, com cada vez mais gente entrando, é porque o índice de satisfação é grande. Não tem razão você ficar em um lugar em que o cerceamento acontece. O número de pessoas que está lá dentro traduz melhor que minha explicação. Deve ter tido uma ou outra experiência que a pessoa ficou desconfortável. Como esses depoimentos são maiores que as pessoas que estão lá, de 18 a 30 anos, e que podem fazer qualquer coisa da vida? É claro que vamos olhar para ver o que podemos melhorar para que essa interpretação não aconteça. Não se analisa um processo desse pela regra da perfeição. São seres humanos que estão dialogando.

Tem até uma criança morando lá?
Não é isso. As pessoas casam, namoravam, tem filhos. Não é uma casa de marte. É uma casa normal.

O que aconteceu com a favela do Moinho? Há relatos de que vocês não são bem vindos lá.
Tem dois casos lá. Um deles alega que a gente teria feito um evento no Studio SP [casa de shows] em prol da favela do moinho e não repassamos o recurso. Esse evento nunca existiu. Não tivemos envolvimento nenhum com isso. A outra questão que teve foi um evento que aconteceu lá. Recebemos pedidos para ser apoiador de dezenas de iniciativas e um fórum de mulheres solicitou que um dos eventos fosse feito na Casa Fora do Eixo. Depois, ligaram dizendo que não precisava mais, mas o logo do apoio eles mantiveram no panfleto. Eles estavam acusando a gente de ter recebido esses recursos, mas o apoiador é quem investe, não quem recebe recursos.

Há conflitos com outros coletivos de esquerda e movimentos populares?
A gente tenta travar o maior número de parcerias, também somos da periferia do Brasil. Sou de Cuiabá, no Mato Grosso. A gente busca se inserir, mas se tem alguma insatisfação, eu não sei.

Recentemente você postou uma foto com Lula. Como foi esse encontro? Foi em busca de uma parceria com o Instituto Lula?
A gente dialoga com todo mundo, com centenas de deputados e senadores do Brasil, com o Randolfe [Rodrigues], com a Marina [Silva], com o [Marcelo] Freixo. O Lula é ex-presidente da República, né? Para nós é uma coisa normal. Não temos uma parceria, mas também não nos vemos inviabilizados de um dia ter.
 

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