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"Quero um teste de paternidade", brinca Art Spiegelman sobre título de 'pai da graphic novel'

Sean Gallup/Getty Images
Imagem: Sean Gallup/Getty Images

Diego Assis

Do UOL, em São Paulo

28/05/2012 23h32

Destaque do primeiro dia do 4º Congresso Internacional Cult de Jornalismo Cultural, realizado no teatro da PUC, em São Paulo, o artista norte-americano Art Spiegelman superou o desagradável furto de seu computador pessoal minutos antes de sua palestra e levou o público a uma interessante viagem de mais de uma hora pela história das histórias em quadrinhos, apoiada em obras suas como "Breakdown", "MetaMaus" e "Maus", seu trabalho mais famoso, publicado originalmente como série na década de 70 e vencedor do único prêmio Pulitzer dado a uma HQ.

Chamado por alguns de "pai das graphic novels" - expressão usada em oposição a "gibis" ou "revistinhas" para se referir a histórias em quadrinhos densas, geralmente direcionadas ao leitor adulto -, Spiegelman fez troça do termo e disse que queria um "teste de paternidade" para livrar-se do título.

"'Maus' [que retrata a história de sobrevivência do pai do quadrinista em um campo de concentração na Polônia] foi compilada em livro em 1986, mesmo ano em que 'Watchmen' e 'Cavaleiro das Trevas' [duas HQs de super-heróis que também costumam ser tratadas como graphic novels]. Precisavam de um nome para se referir a isso. E aí veio Will Eisner, com uma HQ chamada 'Contrato com Deus', que também não era para crianças, e cunhou o termo graphic novel", explica o artista, sem poupar este último, mais conhecido pelo personagem The Spirit, e tido por especialistas como um dos maiores mestres das HQs nos EUA. "[Eisner] não era grande em estética, mas era muito bom em marketing", alfinetou.

Pode-se concordar ou não com Spiegelman, mas é impossível subestimar o seu conhecimento sobre o meio dos quadrinhos. Criado em Nova York sob educação judaica, o autor contou que foi fisgado para esse universo na década de 50 através dos quadrinhos de humor da revista "Mad". "Eu estudei a 'Mad' como algumas crianças estudavam o Talmud [livro sagrado dos judeus]."

Mais tarde, ganhou do pai uma coleção de HQs de horror comprada em uma liquidação por apenas 50 centavos de dólar, que virou ainda mais a sua cabeça. "Percebi que meu pai sabia tudo de pechincha, mas nada de quadrinhos e das discussões que estavam sendo travadas no Senado sobre eles", ironizou, citando a histeria anticomics vivida na época pelos EUA, resultado dos ataques promovidos pelo psiquiatra Frederic Wertham, para quem os quadrinhos eram um veículo para a delinquência juvenil.

A resistência aos quadrinhos, apontou o autor de "Maus", acompanha o meio desde seus primeiros anos, na virada do século XIX para o XX. "A igreja recusava, dizia que as páginas dominicais de HQs publicadas nos jornais não eram a leitura apropriada para crianças. Os melhores jornais, no início, também não queriam publicar as tirinhas, mas no final acabaram cedendo, porque elas vendiam mais jornais", defende, traçando um paralelo das HQs com o jazz. "No começo, o jazz era só a música que tocava em bordéis. Foi só nos anos 20 e 30, quando surgiram as orquestras como a de George Gershwin, que o jazz foi ganhar respeito como arte."

Pato Donald x Peter Parker
Entre os standards desse "jazz" dos quadrinhos, nos quais Spiegelman debruçou-se mais profundamente nos anos 2000 quando começou as pesquisas para publicar "À Sombra das Torres Ausentes", uma HQ-ensaio sobre os precursores do gênero nos EUA,  ele cita tirinhas como "Little Nemo", "Krazy Kat" e "Little Orphan Annie", todas da primeira metade do século XX, período imediatamente anterior à ascensão das revistas em quadrinhos de super-heróis que, por lá, ganharam o nome de "comic books".

"'Little Orphan Annie' foi a única tirinha que já me fez chorar. É claro que há referências a Charles Dickens e outras coisas ali, mas é uma prova de que quadrinhos podem carregar um peso emocional", justificou.

Avesso aos super-heróis das grandes editoras de quadrinhos - com exceção do Homem Elástico, que descreveu como "uma viagem de ácido no papel com a turma do Pernalonga" -, o artista defendeu que o movimento dos quadrinhos underground do qual fez parte deve menos aos superseres da Marvel e DC do que aos personagens que ele e seus colegas liam na infância, como Luluzinha e os bichos falantes da Disney. "Pato Donald tinha muito mais personalidade do que Peter Parker", provoca ele, que nos anos 80 criou com sua mulher, a também quadrinista Françoise Mouly, a publicação de HQ alternativa "Raw".

Depois de um período de pessimismo quanto ao futuro dos quadrinhos - "Graphic novels tomam muito tempo. Escritores digitam 300 palavras por dia e isso é um saldo razoável para um dia de trabalho. Para um quadrinista, é só o café da manhã!" -, Spiegelman se diz otimista agora. "Tudo mudou em 2002, quando muitos quadrinhos longos foram lançados e apresentaram a todos um mundo novo nas graphic novels. Um mundo tão novo que não consigo dar conta de acompanhar", afirmou, listando entre os bons exemplos as HQs de autores como Joe Sacco, Marjane Satrapi, Charles Burns e Chris Ware. "Suspeito que este seja 'o garoto mais inteligente dos quadrinhos na Terra' hoje em dia", completou, fazendo uma brincadeira com o título da obra mais famosa de Ware, "Jimmy Corrigan - The Smartest Kid on Earth".

Apesar do entusiasmo com as novas gerações, o autor admite que não tem a mesma empolgação quando ouve falar na migração dos quadrinhos para suportes digitais, como iPads ou a tela dos computadores. "Nos EUA, os livros estão sob ameaça. Mas a verdade é que tudo é informação, e ela viaja fácil de um meio para o outro. Tenho certeza de que haverá uma boa HQ para ser lida em iPad, mas ainda assim acho que os livros oferecem algo de diferente. Da mesma forma que as revistas de quadrinhos não são iguais às tirinhas, a forma da HQ eletrônica também será diferente. Aposto que as revistas e livros vão sobreviver a mais essa, ainda que com bem menos leitores."

Sumiço do laptop
Marcada para as 19h desta segunda (12) em São Paulo, a palestra de Spiegelman sofreu atraso de cerca de meia hora depois que o laptop do autor desapareceu do palco minutos antes do início do evento. Os organizadores suspeitam de furto e disseram que registrariam um boletim de ocorrência.

Aparentando certa irritação, entre uma tragada e outra em um cigarro eletrônico, o autor da premiada graphic novel "Maus", lançada 25 anos atrás, decidiu manter o compromisso e fazer a palestra com um computador emprestado.

"Eu deveria estar bem preparado para lidar com isso. Escrevi muitos quadrinhos policiais no início da carreira. Mesmo sabendo que o crime não compensa, descobri que isso pode não ser verdade em São Paulo já que alguém acabou de sair daqui com meu computador e meu documento de identidade", disse, meio brincando, meio sério, logo em sua primeira fala. "Obrigado pela paciência. E por pagarem tanto pelo ingresso. Vocês foram roubados também", completou, quebrando o gelo e arrancando gargalhadas do público.

Promovido pela revista literária "Cult", o 4º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural segue até a próxima quinta-feira e tem, entre seus outros convidados internacionais, o escritor e jornalista americano Gay Talese. O pacote integral para participar das palestras sai por R$ 800.

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