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Mostras, livros e documentário destacam 'liberdade total' do surrealismo do português Fernando Lemos

MARIO GIOIA
Colaboração para o UOL

03/02/2011 15h30

Depois de uma sessão puxada de fisioterapia, o português Fernando Lemos, 84 anos, recebe a reportagem do UOL em sua casa, no Butantã, em São Paulo. "Não é fácil", diz, com um leve sorriso, um dos artistas-chave do surrealismo na Europa, cuja produção do final dos anos 40 e do início da década seguinte tem cada vez mais reconhecimento, em especial no exterior.
 
 
"O que mais admiro no surrealismo é esse sentido de liberdade total. Uma espécie de sonho, ou de ilusão", afirma ele, que chocou a puritana sociedade lisboeta, em 1952, quando a Casa Jalco, luxuosa loja de móveis no bairro lisboeta do Chiado, exibiu fotografias de sua autoria, ao lado de trabalhos de Fernando Azevedo e Marcelino Vespeira, outras figuras de proa da intelectualidade portuguesa da época. "Mas era também uma nota de esperança, de bom humor. Uma reação diante da catástrofe, os regimes nazistas e fascistas na Europa e Salazar em nossa terra."
 
Justamente os registros daqueles anos feitos por Lemos -- que misturavam manequins e objetos dispostos em composições estranhas, sobreposições de figuras humanas em poses não usuais, entre outros procedimentos típicos do surrealismo -- são os mais pedidos para individuais e coletivas pelo mundo. Depois de mostra especial na Photobiennale 2008, em Moscou, e exposições na Espanha e em Portugal, o artista protagoniza individual no Palácio Galveias, em Lisboa, em cartaz desde o dia 25 de fevereiro, com 150 fotografias pertencentes à importante coleção Cupertino de Miranda.
 
Ainda em Portugal, também foi lançado recentemente o documentário "Luz Teimosa" (título de uma de suas mais bonitas fotos), de Luís Alves de Matos, que pode ser reapresentado no Brasil no festival É Tudo Verdade, em abril -- o longa já foi exibido na Mostra de Cinema de São Paulo, no ano passado. "O Luís gravou muita coisa aqui e em Portugal. Reencontramos até uma mulher que fora retratada quando criança muitas décadas atrás, foi bem curioso", conta ele, que também estrela o documentário "Atrás da Imagem", de Guilherme Leme ("Fala Tu"), de 2006.
  • Fernando Lemos / Cortesia Pinacoteca SP "Acervo em Preto e Branco"

    Fotografia feita por Fernando Lemos em 1952 que integrou mostra "Acervo em Preto e Branco", em 2009 na Pinacoteca de São Paulo

 
São Paulo também reserva outras homenagens ao fotógrafo lisboeta, filho de um operário e de uma rendeira que escolheu a rua do Sol ao Rato, na qual nasceu, para seu primeiro registro, em 1949. Na cidade onde se radicou desde 1953, a Pinacoteca do Estado vai abrigar este ano retrospectiva sobre a múltipla obra de Lemos -- além da fotografia, ele tem boa produção de pintura, desenho e design gráfico -- e a editora Bei prepara o lançamento de um grande livro, "Percursos", em data ainda a ser definida, mas certamente no primeiro semestre.
 
Outro volume sobre a sua obra será lançado em Portugal, "Eu Sou a Fotografia", realização da Fundação Cupertino de Miranda, baseada em Vila Nova de Famalicão, no norte do país europeu, que tem grossa produção de Lemos em seu acervo.
 
"São muitas iniciativas. Isso faz com que eu dedique muito tempo aos meus arquivos", diz ele, que já começa a planejar doações para instituições brasileiras. "Têm de ser para lugares que sempre me apoiaram, como a Pinacoteca, em São Paulo." Além da fisioterapia diária e do trabalho em suas memórias, Lemos diz não parar a poesia. "Sempre tenho um caderno à mão, onde desenho, anoto. Mas, para mim, faço poesia ao longo de todo o dia. Ao jantar, ao mexer em fotografias antigas, ao escrever cartas para amigos, em todas as atividades diárias pode haver poesia."
 
Lemos frequenta aberturas de mostras de amigos, como Thomaz Farkas, que acabou de inaugurar "Uma Antologia Pessoal" no Instituto Moreira Salles, em São Paulo, em cartaz até o dia 3 de abril na instituição paulistana. "Mas não dá para ir a todas que eu gostaria, tenho esse trabalho detido sobre a minha própria produção." 
 

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